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Máquinas que quebram com frequência inviabilizam radioterapia em Alagoas

Pacientes com câncer precisam contar com a sorte de ter equipamentos funcionando

 

Depois de conseguir fazer os exames e de ter o câncer diagnosticado, os alagoanos dão início à busca por uma vaga em algum dos cinco hospitais credenciados no estado, responsáveis por atender pacientes com a doença provenientes dos 102 municípios de Alagoas. O tratamento, que por si só é desolador, deveria pelo menos começar de imediato, mas isso não acontece. Com poucos equipamentos de radioterapia disponíveis e um número de leitos que não dá conta da demanda, a espera torna-se longa e a chama que mantém a esperança de cura acesa, muitas vezes apaga.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), a Santa Casa de Maceió, o Hospital Universitário e o Hospital do Açúcar ficam responsáveis por receber os pacientes oncológicos de 56 municípios do estado. Para isso, são disponibilizados, na Santa Casa, atualmente, 25 leitos de quimioterapia e de intercorrências clínicas provenientes do tratamento, além de 11 leitos de cuidados paliativos e seis para pediatria. No HU, são 18 leitos de quimioterapia e cinco para pacientes pediátricos. Já o Hospital do Açúcar conta com 10 leitos hospitalares para oncologia e dois para hematologia, todos para o atendimento a crianças.

Já os hospitais de Arapiraca são responsáveis pelo atendimento dos pacientes provenientes de 46 municípios de Alagoas. Diante do número de casos da doença no estado, a rede de atendimento é considerada pequena até mesmo pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau).

Segundo o médico oncologista João Aderbal, Alagoas dispõe de apenas cinco aparelhos de radioterapia para atender aos usuários. Quatro equipamentos ficam em Maceió e um em Arapiraca. Para as mulheres que desejam fazer os exames preventivos de mama, o estado tem disponível um total de 59 mamógrafos distribuídos nas unidades de saúde da capital e do interior.

Conforme o oncologista, para dar conta de toda a demanda, o ideal seria que o número de equipamentos fosse maior. Com o que é disponibilizado atualmente, a palavra de ordem nas unidades de saúde tem que ser planejamento. “As unidades de saúde poderiam diminuir a sobrecarga de pacientes se houvesse um planejamento mais duro e efetivo. Estamos trabalhando para isso. É uma questão de logística também. A instalação desses aparelhos é difícil e burocrática e precisa de profissionais especializados”, ressaltou.

João Aderbal admite que a situação para os pacientes com câncer é complicada em Alagoas, mas destaca que a realidade vivenciada pelos alagoanos não diverge da de outros estados. “Há uma necessidade de recursos, mas, dentro das normas exigidas pelo Ministério da Saúde, oferecemos a estrutura necessária para o tratamento”, afirmou.

Além do medo e das dúvidas frequentes quando se está em busca da cura do câncer, muitos pacientes de Alagoas ainda precisam encarar os procedimentos sozinhos, longe do apoio e do incentivo da família.

Natural de Olho d’Água das Flores, no Sertão de Alagoas, Floremi Rosendo da Silva, de 65 anos, é uma dessas pessoas que precisaram deixar o domicílio para combater a doença. Ele está em tratamento de câncer em Maceió. Descobriu a enfermidade após sentir um incômodo na garganta e marcar uma endoscopia em uma clínica particular. Foi preciso fazer uma biópsia e o resultado que ele não queria veio. Tratava-se de câncer de esôfago.

Sem demora, Floremi foi em busca de tratamento que, por sorte, diz não ter demorado a encontrar na Santa Casa de Maceió. A batalha começou cerca de dois meses após o diagnóstico. Desde então, ele tem morado, de segunda a sexta, na casa de apoio custeada pelo hospital. Somente no fim de semana, quando volta para casa, é que tem contato com a família. O tratamento é intenso. São cinco sessões semanais de radioterapia e uma mensal de quimioterapia.

Otimista, Floremi acredita na cura e não desiste da guerra. “O tratamento tem sido tranquilo até o momento. O médico disse que eu tenho muitas chances de cura e por isso estou aqui. Não sinto dores e tenho levado uma vida normal, na medida do possível. Tenho muita fé e estou na expectativa da cura”, afirmou o aposentado, que não tinha o hábito de procurar o médico para fazer exames preventivos.

Poucos equipamentos

O baixo número de equipamentos de radioterapia disponíveis nos hospitais do estado contribuem para que as interrupções no tratamento sejam frequentes. O que é outro grande problema.

Para se ter uma ideia, o Hospital Universitário (HU) registrou, em 2014, 13.074 atendimentos médicos distribuídos pelas mais diversas especialidades em oncologia. No setor de quimioterapia, 6.770 pacientes foram tratados no ano passado. Já pelo tratamento de radioterapia, foram realizados apenas 304 atendimentos. Este número é considerado abaixo do ideal.

Um dos motivos para que os procedimentos de radioterapia fiquem aquém do esperado é a constante quebra dos equipamentos existentes em Alagoas, o que dificulta o tratamento e faz crescer a fila de espera. Há duas semanas, quando a Gazetaweb visitou o setor de radioterapia do HU, a única máquina existente na unidade estava quebrada e os pacientes tiveram que voltar para casa sem o atendimento.

Irllandy Santos, técnico em Radioterapia do HU, explicou que a situação é a mesma em outras unidades de saúde. “Um aparelho não é suficiente para atendera a toda demanda do hospital. Sempre tem fila de espera. A sessão de radioterapia é rápida e dura cerca de 15 minutos, mas, às vezes, os pacientes precisam esperar entre um e dois meses para dar início às sessões. Tentamos fazer as marcações de acordo com o nível de gravidade da doença”, complementou.

Quando o serviço realmente funciona, Santos afirma que o setor chega a realizar 50 sessões diárias de radioterapia. Outro problema que dificulta o acesso ao tratamento é a redução dos atendimentos realizados pelo hospital. Há algum tempo atrás, os setores de radioterapia e quimioterapia funcionavam nos três turnos: manhã, tarde e noite. O período noturno, no entanto, já não recebe mais doentes devido à carência de equipe médica especializada.

A paciente Maria Helena dos Santos, de 49 anos, diagnosticada com câncer de colo do útero, foi uma das que precisaram interromper o tratamento contra a doença por conta da quebra do equipamento. Um problema que faz aumentar o medo e a angústia de quem luta contra o câncer.

“O médico disse que eu deveria fazer as sessões por trinta dias, mas tive que interromper o tratamento porque a máquina não está funcionando. Aí estou esperando retornar”, lamentou.

Natural do município de Satuba, Maria Helena descobriu um câncer no colo do útero há poucos meses. A notícia, claro, abalou a estrutura emocional dela, fazendo com que o medo da morte se tornasse um sentimento cada vez mais presente. Quando questionada se fazia exames preventivos anuais, Maria contou que sim, mas que, por um ano, acabou “esquecendo” porque optou por cuidar da mãe, que estava adoentada à época.

A desconfiança de que tinha algo errado crescia à medida que o próprio organismo da doente sinalizava os sintomas. “Pensava que estava na menopausa, porque tinha alguns sangramentos fora do período menstrual. Também sentia muita dor e desconforto durante as relações sexuais. Comecei a desconfiar de que aquilo não era normal e resolvi procurar ajuda”, lembra.

Depois de alguns exames e investigações preliminares, ela recebeu o diagnóstico e foi encaminhada para fazer o tratamento no HU, em Maceió. Os dias dela, agora, são divididos entre as sessões de quimioterapia e radioterapia. “Estou me sentindo um pouco fraca, mas é normal, porque os efeitos colaterais dos remédios são muito grandes. O que eu mais quero nesse momento é voltar para casa logo”, enfatizou.

Dois dias depois da visita da reportagem ao hospital, a assessoria do HU informou que o equipamento de radioterapia havia sido consertado e tinha voltado a funcionar.

Na Santa Casa de Maceió, há dois equipamentos de radioterapia atualmente em funcionamento. Um deles é bastante antigo e também quebra com frequência, prejudicando a realização dos procedimentos. O hospital conseguiu, no entanto, junto ao Ministério da Saúde, um novo acelerador linear – máquina utilizada na radioterapia – e está realizando uma obra de ampliação do espaço de oncologia para receber o novo equipamento.

De acordo com o diretor-médico da Santa Casa, médico Arthur Gomes Neto, a expectativa é que, até o final de 2016, o hospital esteja com os três equipamentos – o novo e os outros dois já utilizados na unidade – com capacidade plena de funcionamento. “Quando essa máquina estiver funcionando, o número de atendimento vai mais que dobrar”, garante.

Na próxima reportagem da série, a Gazetaweb mostra o papel da Defensoria Pública para garantir o direito à saúde dos pacientes com câncer e traz o depoimento de uma alagoana que precisou buscar atendimento no Recife-PE.

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