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Pacientes em estado terminal não têm assistência adequada em Alagoas

Rede de cuidados paliativos ainda ‘engatinha’, deixando doentes com câncer na mão

 

Se enfrentar o câncer não é nada fácil quando o diagnóstico é precoce e as chances de cura ainda são grandes, imagine fazer isso após uma descoberta tardia da doença! Os chamados “cuidados paliativos” são um tipo de especialidade médica que tem como principal objetivo aliviar o sofrimento e oferecer assistência emocional e psicológica às famílias e ao próprio paciente com câncer em estágio terminal. Em Alagoas, esse tipo de suporte ainda engatinha, fazendo crescer o sofrimento do paciente e de todas as pessoas que com ele convivem.

“O tratamento para doentes terminais está se estruturando e poderia ser melhor. Oferecer apoio psicológico é tornar digno o sofrimento e a morte do ente querido. É preciso oferecer mais assistência emocional. A equipe de profissionais que trabalha com isso ainda é pouca”, admite o oncologista da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), João Aderbal.

As instituições responsáveis por oferecer os cuidados paliativos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) aos pacientes em estado terminal de câncer são o Hospital Universitário e a Santa Casa de Maceió. Para quem mora no interior, ter um cuidado especial e digno enquanto se espera a morte é algo praticamente impossível por parte do poder público e os doentes contam apenas com o amor e os cuidados da família.

Segundo a assessoria de comunicação do Hospital Universitário, os cuidados paliativos são realizados por uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais de várias áreas, e que realizam visitas semanais aos doentes na própria casa dos pacientes.

O número de visitas depende do estado de saúde do doente e é adaptado de acordo com as próprias necessidades das famílias. O trabalho da equipe consiste em oferecer apoio psicológico e emocional às famílias e orientá-las a respeito da importância da higiene e da manutenção de cuidados mesmo em fase terminal. A depender de cada situação, o próprio médico agenda a visita quando percebe que a doença evolui e possui poucas chances de cura ou sobrevivência.

Faltam informação e tratamento no interior de AL

A vida do pescador Manoel Antônio (nome fictício), de 60 anos, foi desregrada. Quando chegava da maré, em terra firme, o caminho de casa, em Maragogi, era trocado pela estrada tortuosa até o bar, onde se afogava na bebida. O corpo foi esmorecendo, dando sinais de esgotamento. Além da ressaca, passou a conviver com uma febre persistente.

“Ele foi ficando sem disposição, sem forças para trabalhar, emagrecendo”, recordou a esposa, a diarista Maria do Carmo (nome fictício), de 54 anos. Por mais que ela insistisse para que o homem procurasse um médico, Manoel Antônio sempre dava um jeito de escapar. A automedicação era o tratamento.

Apesar da idade avançada, nunca fizera, por exemplo, o exame de toque retal para a detecção e prevenção do câncer de próstata. Este é o sexto tipo mais comum da doença no mundo e o prevalente entre os homens. No Brasil, sua incidência no sexo masculino está atrás apenas do câncer de pele não-melanoma

O diabetes, porém, levou Manoel Antônio ao “temido” encontro com o médico. Com a doença avançada, amputou o pé direito; depois, a perna. Em 2013, para fazer as cirurgias, teve, inevitavelmente, de ser submetido a uma bateria de exames. E o pior estava por vir: o câncer.

“O médico disse que a doença já estava transpassada, que não tinha jeito mais”, lamentou Maria do Carmo. A doença avançou por toda a área genital. Depois de mais de um mês de internação em Maceió, Maria do Carmo decidiu trazer o marido de volta para casa, em Maragogi, onde tenta com remédios aliviar a dor e o sofrimento dele.

“O que tinha de fazer, eu fiz. Resolvi trazê-lo pra casa porque aqui posso dar mais atenção, alimentá-lo. Eu também não podia ficar no hospital o tempo todo dando assistência”, disse a diarista. Por conta da infecção crônica, a febre não abandona Manoel Antônio e o faz delirar. No dia em que a GazetawebMaragogi esteve na casa do pescador, ele estava aflito: afirmava, aos prantos, que um ladrão armado havia invadido a residência dele e o ameaçado.

“Ele nunca quis saber de médico. Se tivesse se cuidado antes, talvez não tivesse nessa situação terminal. A febre que não passava nunca era um sinal que algo estava errado. Até hoje ele não sabe que tem câncer. Não contei para não agravar ainda mais a situação dele. Agora, é só esperar a vontade de Deus”, conforma-se Maria do Carmo.

Assistência somente no papel

São relatos como os de Maria do Carmo que levam o coordenador do Núcleo de Direitos Difusos, Coletivos e Humanos da Defensoria Pública, Ricardo Melro, a afirmar categoricamente que os “cuidados paliativos só existem no papel” em Alagoas. Ele cita que são frequentes as reclamações que chegam ao órgão relacionadas à falta de luvas, que são materiais essenciais, nas unidades de saúde.

“Para você ver o tamanho do estrago, falta até o abastecimento de luvas na atenção básica. O cuidado paliativo não existe no estado. O que temos hoje é um grau de precarização muito grande, por isso sou a favor da terceirização”, pontua.

Na quinta reportagem da série, a Gazetaweb traz a história de uma guerreira que lutou e conseguiu a cura. Mostra também o drama vivido por uma pessoa que viu a mãe morrer após um erro de diagnóstico. São os dois lados da mesma moeda.

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