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Relação entre arquitetura e cinema é realçada em novos filmes

Prédio projetado por Frank Gehry é praticamente um personagem do filme O Solista. Foto: Paramount/ Divulgação
Prédio projetado por Frank Gehry é praticamente um personagem do filme O Solista. Foto: Paramount/ Divulgação

 
Seja pela possibilidade de retratar um espaço sob diferentes ângulos ou por poder mostrar a vida em movimento dentro dos ambientes, o cinema é uma linguagem que tem uma relação especial com a arquitetura. As duas formas de arte vivem em contato constante, seja em documentários sobre arquitetos e prédios ou em ficções que usam grandes (ou pequenas) construções como cenários. Essa relação ainda precisa ser mais explorada, mas alguns filmes demonstram uma preocupação especial com questões arquitetônicas. É o caso, por exemplo, dos longas-metragens Obra e La sapienza, ambos em cartaz no Recife, do curta Wandenkolk, sobre o arquiteto pernambucano Wandenkolk Tinoco, ainda inédito, e da série Catedrais da cultura, apresentada na Mostra Internacional de São Paulo, que retrata edifícios grandiosos com imagens em 3D.

O pernambucano Irandhir Santos interpreta um arquiteto com crises de consciência em Obra, de Gregorio Graziosi, que promove um passeio arquitetônico por uma São Paulo de concreto, retratada em preto & branco. O interior e o exterior de edifícios paulistanos que são considerados marcos históricos da cidade servem de cenário para as cenas. No Recife, o filme pode ser visto no Cinema da Fundação (Derby).

Filme Obra foi filmado em marcos arquitetônicos de São Paulo, como o Edifício Copan. Foto: vitrine Filmes/ Divulgação
Filme Obra foi filmado em marcos arquitetônicos de São Paulo, como o Edifício Copan. Foto: vitrine Filmes/ Divulgação

A arquitetura barroca italiana (especialmente a obra do arquiteto Francesco Borromini) serve de inspiração para um grupo de personagens repensarem suas vidas durante um passeio por belas paisagens da Europa no filme La sapienza, que está em cartaz no Cinema do Museu (em Casa Forte).

“O registro da arquitetura precisa levar em conta questões de ordem plástica, espacial ou urbana, transferindo para o público a visão crítica dos valores das obras”, acredita o arquiteto Bruno Firmino, que dirigiu o curta Wandenkolk. “No caso do cinema, temos ao nosso favor a comunhão da relação entre espaço e tempo, que permite uma imersão maior no ambiente”, observa o cineasta. No filme (já finalizado, mas ainda inédito), discursos de Tinoco são intercalados por imagens de prédios projetados por ele, que na década de 1970 foi um pioneiro na integração entre a natureza tropical e as formas de concreto.

Arquitetura inspira transformações na vida dos personagens do filme La Sapienza. Foto: Supo Mungam/ Divulgação
Arquitetura inspira transformações na vida dos personagens do filme La Sapienza. Foto: Supo Mungam/ Divulgação

Outro arquiteto atuante em Pernambuco que teve a obra resgatada pelo cinema foi o português Delfim Amorim (1917-1972), tema do curta Quarteto simbólico (2011), de Josias Teófilo. “O cinema pode expressar a forma arquitetônica como nenhuma outra arte. A imagem em movimento salienta a volumetria e a composição do espaço”, ressalta o cineasta.

“Infelizmente, ainda existem poucos bons filmes no Brasil e no exterior enfocando a arquitetura”, acredita Josias, que recomenda o documentário O antigo Ministério da Educação e Saúde (disponível na internet), estruturado por uma entrevista com o arquiteto e urbanista Lúcio Costa, dirigido pelo cineasta José Reznik em 1992. No campo da ficção, ele destaca A noite (1961), de Michelangelo Antonioni.

[embedded content]No cinema pernambucano, outro curta que oferece uma pertinente reflexão sobre o tema é A composição do vazio (2001), de Marco Henrique Lopes, que apresenta a obra do filósofo Evaldo Coutinho (1911-2007), autor de livros sobre cinema e arquitetura, como A imagem autônoma.

Ainda de Pernambuco, há também o documentário Vitrais, de Cecília Araújo, sobre a artista plástica Marianne Peretti (vitralista colaboradora de Oscar Niemeyer), além de filmes que problematizam questões urbanísticas e arquitetônicas, como Menino Aranha e A vida noturna das igrejas de Olinda, ambos de Mariana Lacerda, Um lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro, Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho, e Projetotorresgêmeas, dirigido coletivamente.

Bairro de Boa Viagem retratado no curta Menino Aranha. Foto: Beto Figueiroa/ Divulgação
Bairro de Boa Viagem retratado no curta Menino Aranha. Foto: Beto Figueiroa/ Divulgação

ARQUITETURA BRASILEIRA:

Em 1972, o cineasta Walter Lima Jr (Menino de engenho) dirigiu o filme Arquitetura, a transformação do espaço, sobre a formação de uma linguagem arquitetônica brasileira, formado por  entrevistas com nomes como Lina Bo Bardi (cuja obra foi recentemente explorada por um documentário franco-alemão), Joaquim Cardoso e Burle Marx. Há ainda documentários de longa-metragem, lançados nos últimos dez anos, sobre os arquitetos Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Vilanova Artigas, Eduardo de Almeida, Sergio Bernardes e Os Irmãos Roberto. Obras desses mestres serviram de cenário para clássicos do cinema brasileiro. No filme Central do Brasil, por exemplo, há uma impactante sequência filmada no Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes (conhecido como Pedregulho), projetado por Reidy em São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

[embedded content]MESTRES INTERNACIONAIS:

Nicole Kidman e Sean Penn são os atores principais do suspense conspiratório A intérprete, mas a essência do filme está na locação, que é o prédio da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, projetado por uma equipe liderada por Oscar Niemeyer e Le Corbusier. A direção é de Sydney Pollack, que filmou o edifício de todos os ângulos, por dentro e por fora. O prédio também aparece em clássicos como Intriga internacional, de Alfred Hitchcock, que precisou usar câmeras escondidas porque não conseguiu autorização para filmar lá dentro.

Pollack também dirigiu o documentário Esboços para Frank Gehry, sobre o arquiteto que projetou o museu Guggenheim de Bilbao e o Walt Disney Music Hall (Los Angeles), principal cenário (ou praticamente um personagem) do drama O solista, com Jamie Foxx e Robert Downey Jr.

Projetado pelo mestre modernista Frank Lloyd Wright, o Guggenheim de Nova York também foi atravessado por câmeras em Trama internacional (as curvas são exploradas inclusive no pôster do filme) e em um dos episódios da série Cremaster, do artista Matthew Barney. Do mesmo arquiteto, o futurista Marin County Civic Center, na Califórnia, pode ser visto na maioria das cenas da ficção científica Gattaca.

Cremaster e Trama Internacional foram filmados no museu Guggenheim, projetado por Frank Lloyd Wright
Cremaster e Trama Internacional foram filmados no museu Guggenheim, projetado por Frank Lloyd Wright

Catedrais da Cultura
No projeto Catedrais da Cultura, seis cineastas foram convidados para dirigir curtas em 3D sobre prédios monumentais. O alemão Win Wenders retratou a sede da Orquestra Filarmônica de Berlim e o brasileiro Karin Aïnouz filmou o Centro Georges Pompidou, em Paris. Os filmes já foram projetados nos festivais do Rio e de Berlim e estão na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que termina no dia 4 de novembro.

Centro Pompidou foi filmado em 3D pelo cineasta brasileiro Karin Aïnouz na série Catedrais da Cultura
Centro Pompidou foi filmado em 3D pelo cineasta brasileiro Karin Aïnouz na série Catedrais da Cultura

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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