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Tribuna SBTpedia: Eu acredito no Casos de Família, por Rafael Fialho

Eu acredito no Casos de Família

Por Rafael Fialho* (rafaelbfialho@gmail.com)

Popularesco. Apelativo. Barraco. Falso. Brega. Hoje, esses e outros “elogios” são recorrentes quando se fala do Casos de Família, programa que vai na contramão da reconhecida tendência instável do SBT e já dura mais de onze anos na grade (com interrupções e mudanças).


Mas nem sempre foi assim: quando surgiu em 2004, era um talk show baseado nas narrativas do cotidiano de pessoas comuns, permeadas por problemas prosaicos cujas soluções seriam apontadas com a ajuda de um perito da psicologia, os pitacos da platéia e os conselhos da sempre afável, fina e pacífica apresentadora Regina Volpato (quem se lembra da comunidade do Orkut, “Regina Volpato me entende”?). A imprensa comemorou a renovação da fórmula, que, diferente de antes – com programas de Márcia Goldsmith e Silvia Poppovic –, agora apostava em um formato não sensacionalista, mas ponderado e sofisticado sem deixar de ser popular.


Nunca entendi o porquê, mas em determinado momento, a produção se voltou ao formato original que inspirou a versão brasileira, afastando-se da proposta inicial (alguém aí sabe o motivo?). Era visível o descontentamento de Volpato e até a falta de traquejo para comandar os conflitos mais acirrados no palco – tanto, que em várias situações, o programa ficava truncado, já que ao invés de incentivar as brigas ou deixá-las rolar, a apresentadora dizia: “Vamos esperar o outro terminar para depois falarmos, brigando ninguém se entende”. 


Em 2009 o programa alterou seu formato quase inteiramente: a apresentação foi assumida por Christina Rocha e os casos passaram a ser contados de modo “inflamado”, com gritos e brigas. A crítica reagiu negativamente, claro, reacendendo a discussão sobre qualidade em televisão que sempre volta com toda a força quando um programa popular faz sucesso. 


Apesar de costumeiramente receber adjetivos nada amenos, acredito que Casos e outros programas do tipo merecem ser olhados de outro jeito. É necessário o desvio de uma leitura puramente negativa para uma perspectiva mais matizada que dê conta das particularidades e potencialidades do programa até agora não evidenciadas a contento. Atualmente, mais do que terapêutica, a atração acena como uma conotação social, que mesmo problemática, não perde sua relevância ao tocar em temas como prostituição, violência contra a mulher, discussões de gênero, pedofilia, e tolerância da diversidade sexual, por exemplo. 


Há quem diga que identificar um potencial empoderador do Casos de Família é tarefa para otimistas; mas se pensarmos nas tantas mulheres que souberam pela TV que não é certo elas apanharem em casa ou nas pessoas que se conscientizaram (mesmo minimante) sobre o respeito às diferenças, esse pode ser um caminho promissor. Sim, há problemas: estereótipos, generalizações e outros tantos; mas até mesmo eles podem ser encarados de uma outra maneira. 


Por exemplo, quando as situações narradas recaem numa conotação que tende para o riso, o ridículo, o absurdo ou o melodrama, devemos nos perguntar: quais as implicações para enquadramentos desse tipo na representação e recepção dos temas abordados? A teatralização da violência ou a dinâmica da ridicularização, do absurdo e do riso no programa pode levar a uma possibilidade de sensibilização ou é mera apelação? Até que ponto Casos de Família reafirma e/ou previne violências e preconceitos? O quanto a performance da apresentadora, da plateia e da psicóloga coloca-as como algozes e defensoras? Em que medida o tema da violência doméstica vem a calhar para os conflitos? Quem são as mocinhas e os vilões dos casos? Essas e outras perguntas só uma abordagem séria pode responder. 


Esse é o caso do estudo de Maíra Volpe [1], que mostra que as pessoas que frequentam o programa como platéia ou como convidados não são meros alienados ou desocupados: sabem o que querem e se utilizam do programa para ganhos diversos (cachê, legitimação pessoal, transmissão de recados indiretos para alguém, inserção no mundo artístico/televisivo, proferimento de mensagem coletiva, aprendizado e autoconhecimento, etc). 


Seguindo a máxima que diz que “O pessoal é político”, os casos ali narrados têm fundamental importância se assumirmos que interesses e experiências particulares vão ao encontro de interesses públicos mais amplos quando colocados na mídia. Para ilustrar o que digo, vamos fazer de conta que estamos no programa e ouvir o caso da Ruthlea:

Sinceramente, sempre tive o pé meio atrás com esse programa, confesso. Mas nesses dias, passei a admirá-lo. Ocorre que ele tem feito um belo serviço em prol dos direitos das mulheres e dos homossexuais. […] O programa tem abordado muito a questão da violência contra a mulher e o preconceito contra gays e, por ser um programa essencialmente voltado para as classes C e D, atinge precisamente os grupos mais vulneráveis: mulheres e gays pobres. Há uma certa pontada de sensacionalismo, admito, mas com tantos programas que são sensacionalismo puro e só ridicularizam os gays e tratam as mulheres como objetos sexuais, convenhamos que há uma grande melhora! Com seu jeito simples de falar, a apresentadora Cristina Rocha consegue chegar a essas mulheres que estão sofrendo em casa, algumas achando que apanhar é sua sina (sim, ainda existe gente assim =/) e frisa que não, ninguém nasceu para apanhar! […] A apresentadora também derruba os argumentos dos agressores […] mostrando-os como são: agressores [2].

Christina Rocha mostra o povo que o Esquenta! esconde. Casos de Família é vitrine e divã das desigualdades do país – que se manifestam na falta de uma dentição completa dos convidados, por exemplo. Assim, ausências e exclusões seriam preenchidas a partir da identificação do público e da participação e visibilidade de grupos que sofrem qualquer tipo de privação. Regina Volpato já reconhecia esse potencial do programa:

Essa é a cara do Brasil, essas são as nossas necessidades. O retrato de tudo que é feito na política está aqui. Essas pessoas vivem a falta de tudo, aquilo que a gente sabe que falta, mas a gente não vivencia e eles vivenciam e isso influi na moral, nos costumes, na saúde. É impressionante! É impressionante como essas pessoas vivem à margem [3].

Quando afirmo que acredito no Casos de Família, nem entro no mérito de as histórias ali serem verídicas ou não. Acredito que não é este o ponto que vai fazer a gente entender plenamente o programa. Acredito que despir-se dos preconceitos parece ser uma boa saída para perceber que trata-se, na verdade, de casos de famílias que talvez não sejam mostradas no jornal ou na novela. Acredito que falar em visibilidade e conscientização em um programa popular pode parecer um paradoxo, mas é importante justamente por ser popular e atingir variadas classes e públicos.

[1] VOLPE, M. O divã no palco: discurso terapêutico, indústria cultural e a produção de bens culturais com pessoas comuns. 2013. Tese (Doutorado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

[2] Disponível em https://likeruthlea.wordpress.com/2015/05/25/casos-de-familia-sbt-um-programa-de-auditorio-para-se-admirar/. Acessado em 10 ago. 2015.

[3] GOMES, E. Casos de Família: a conjugalidade nas antenas da TV. 2007. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2007. Depoimento de Regina Volpato disponível na página 36.

*É jornalista mestrando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo e atualmente estuda a interação da emissora com seu público a partir da análise das vinhetas institucionais. Atualmente escreve artigos de opinião às quartas-feiras no SBTpedia. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com

Fonte: SBTpedia (www.sbtpedia.com.br)

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