Últimas

Tribuna SBTpedia: SBT, um canal família, por Rafael Fialho

SBT, um canal família

Por Rafael Fialho* (rafaelbfialho@gmail.com)
Quando o SBT fala que é ou que quer ser “a emissora da família brasileira” ele não está brincando. Estratégia que sempre permeou a programação do canal, o investimento nos vínculos afetivos familiares pode ser percebido nas vinhetas institucionais (objeto de estudo em meu mestrado) que celebram a alegria de fazer parte da família SBT ou até mesmo nos geradores de caracteres das aberturas das produções, que mostram vários “Abravanéis” e deixam claro: aquela é uma empresa familiar. Afinal, qual o problema de delegar às filhas ou à esposa do dono tarefas tão caras ao SBT quanto animar um auditório, apresentar um programa ou escrever uma novela?

 Foto para o “álbum de família televisivo” do SBT


A crítica apontará supostos moralismos, mas o açúcar que transborda das emissões do SBT certamente melará qualquer negativismo que possa macular a imagem do canal, no qual o importante é amar, se alegrar, se divertir e se emocionar junto com a família – seja ela a “tradicional brasileira” ou qualquer variância. 


Essa parece ser a grande premissa do Levanta-te, quadro que estreou em julho, na mesma época de Pergunte aos Universitários como nova aposta do Programa Silvio Santos – sim, “novo” e “Silvio Santos” na mesma frase! A atração vem arrancando elogios nas redes sociais e parece ser a grande promessa dessa temporada do PSS (tanto que já ganhou uma segunda edição). Você já deve ter visto pelo menos uma vez a chamada para o quadro, repetida a exaustão nos intervalos do canal (aliás, numa divulgação desproporcional se comparada a outros produtos da grade). 


Se ainda não viu, não espere grandes coisas: há poucas variações no cenário, e a produção é modesta, apesar de ser um formato de programa solo já testado em outros países e adquirido por Silvio. Mas é por ser simples que o quadro cativa: não ouvimos grandes vozes nem uma disputa de talentos acirrada, e a emoção não fica por conta das histórias de vida sofridas dos participantes, mas vemos no palco o mais simples e autêntico amor de mãe pelos filhos. 


O risco de apresentar uma competição piegas e melodramática é assumido, já que o tom dos jurados é constantemente doce, sem colocações severas ou irônicas. Basta conferir a chamada para uma das edições, que promete “amor, carinho e realização de sonhos”: 


Na edição de 19/07, por exemplo, Nadja Haddad chorou e Adryana Ribeiro fez a linha professora Helena, com voz serena e aguda. As críticas são sempre construtivas, talvez para as crianças não chorarem – e se isso acontecer, que seja de emoção, como uma participante fez ontem. Até mesmo Décio Piccinini tirou a máscara carrancuda e encarnou o tiozão gente boa. Veja no vídeo abaixo: 


A performance entre mamães e filhos é cheia de amor; o “amor televisivo” que é mostrado por meio de sorrisos, trocas de olhares afetuosos, beijos, abraços e mãos juntas. Como uma mãe disse, sobre justificar o fato de ter se arriscado na empreitada: “O amor faz a gente cantar”. Outra dupla candidata até foi dispensada, mas igualmente acalentada por Nadja, que afirmou que se elas não tinham ganhado, pelo menos a filha tinha realizado o sonho da mãe de cantar na TV – colocação assentida pela participante de modo não muito convincente. 


Difícil saber se toda essa “estética guti guti” é uma imposição do formato, mas ela cai muito bem ao SBT e ao próprio Silvio Santos, arauto da família brasileira, pai de seis filhas e esposo de uma amável senhora – o investimento em Patrícia como apresentadora, em Íris como novelista, as brincadeiras com Rebeca no Roda a Roda ou a escolha de Silvia como líder do Bom Dia e Cia não deixam mentir. 


Soa estranho a ausência de pais cantando com os filhos – teria o mesmo apelo que as mães? Eles, no máximo, aparecem torcendo na plateia, ou são citados pelas duplas. Levanta-te poderia facilmente ser um programa solo a ser apresentado por Silvio e Patrícia Abravanel, como cogitado inicialmente. 


O tom de apresentação escolar para o dia das mães é perdoado porque, de algum modo, tudo aquilo toca em algum lugar no coração – como se redimir ao ver a menina chorar de emoção por conhecer Silvio Santos ou pensar no colar com pingente de microfone que a mãe fez para a filha; “Eu fiz com a tiara dela, pra te homenagear, Silvio”. A gente se rende, se prende e se vê cantando músicas fofas; como disse a canção de Sandy e Junior entoada no programa analisado, olha o que o amor nos faz… Contam pontos para o quadro o carisma das crianças, a curta duração das músicas, o altíssimo nível da banda e a atuação de Silvio Santos, que dispensa comentários. 


Aqui em casa, pelo menos, a atração fez meus pais pararem em frente à TV, foi assunto de algumas conversas no Whatsapp, e não poderia terminar de forma mais icônica: todos os participantes voltaram ao palco para tirarem uma foto com Silvio Santos que certamente vai para o álbum de família de todos. O canal faz valer assim, a máxima que afirmou ano passado em um vídeo institucional: “O SBT faz parte da sua família”.

*É jornalista mestrando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo e atualmente estuda a interação da emissora com seu público a partir da análise das vinhetas institucionais. Atualmente escreve artigos de opinião às quartas-feiras no SBTpedia. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com

Fonte: SBTpedia (www.sbtpedia.com.br)

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *