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Um sapato digno de um sambista

No compasso de um sonho, Carlos pede ajuda para não deixar o samba morrer. Foto: Brenda Alcântara/DP/D.A Pres
No compasso de um sonho, Carlos pede ajuda para não deixar o samba morrer. Foto: Brenda Alcântara/DP/D.A Pres

Um sapato social branco. Carlos André da Vitória Gomes, 14 anos, precisa de um calçado assim. Sem o modelo, não tem como fazer bonito como o primeiro mestre-sala mirim nos desfiles da Gigante do Samba, escola da qual faz parte, sediada na Bomba do Hemetério, no Recife. Não tem como ser um sambista completo, imagina. Pelo menos quanto ao figurino, ele tem toda razão. O dilema de Carlos está na pobreza familiar. O adolescente mora na Ilha do Joaneiro com o avô, cuja renda de flanelinha é precária, e com a mãe, uma dona de casa. “Vovô tá sem dinheiro, senão ele teria comprado um para mim”, lamenta.

Um sapato social branco é o complemento que falta na hora de mostrar o talento para os olheiros nas festas das escolas de samba dos bairros da periferia do Recife. Neste sábado, por exemplo, tem festa no barracão da Deixa Falar, em Campo Grande. “Sempre vai gente de outras escolas para observar a gente dançar nas festas”, explica Carlos.

Um sapato social branco pode ter cadarço também. “Dia desses, passei e vi um par em uma loja, mas não parei para perguntar o preço”, lembra. Segundo a diretora da Gigante, Marize Lacerda, Carlos, sozinho, tem mais talento que dois sambistas adultos juntos. “Ele dança muito bem e um sambista precisa ter um sapato branco”, reflete.

Um sapato social branco substituiria os calçados inapropriados para o samba usados por Carlos atualmente. “Sem um par, vou sambar com qualquer sapato que tenho em casa”, explica o estudante que, desde os 10 anos, descobriu o talento para a dança. No ano passado, diante da desenvoltura do adolescente, a diretoria da escola abriu pela primeira vez uma vaga de mestre-sala e porta-bandeira mirins. No carnaval do ano que vem, participa, pela segunda vez, do desfile na ala formada por adolescentes.

Um sapato social branco é componente de uma paixão antiga do menino pelo samba. Uma relação iniciada através da convivência com o avô, conhecido como Miro do Samba, antigo integrante da bateria da Galeria do Ritmo, sediada no Morro da Conceição, e com as primas e primos, mestres-sala e porta-bandeiras da Unidos do Escailabe.

Um sapato social branco é o sonho simples de um sambista mirim apaixonado por um ritmo pouco incentivado no Recife. Tanto que Carlos, estudante do 8° ano de uma escola pública da capital, tem planos de um dia desfilar na Mangueira, no Rio de Janeiro. Antes disso, quer passar pela escola do avô. “No Recife, minhas escolas preferidas são Galeria e Gigante. Mesmo a Gigante ganhando sempre, gostaria de passar pela outra também. Não posso sair só para ganhar. Temos que saber perder”, reflete o menino que alimenta um sonho possível. Em tempo: Carlos calça número 40 e o telefone dele é: 98545.8208.


Saiba mais:

Gigante do Samba

Em 2015, sagrou-se octacampeã do Carnaval da cidade.

Foi fundada em 16 de março de 1942 no Alto do Céu, em Água Fria

Suas cores oficiais são verde e branco

Tem como símbolo uma águia, que aparece no centro do pavilhão da agremiação

Possui 59 títulos, 13 vice-campeonatos e duas terceiras colocações, nunca tendo sido rebaixada ao grupo de acesso

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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