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Aberta a temporada de homenagens a Fernando Pessoa em Pernambuco

As primeiras edições da Orpheu e Os lusíadas também integram a coleção de José Paulo Cavalcanti. Fotos: Mepe/Divulgação
As primeiras edições da Orpheu e Os lusíadas também integram a coleção de José Paulo Cavalcanti. Fotos: Mepe/Divulgação

Em março de 1915, envolvido na atmosfera da Primeira Guerra, Portugal não estava “pronto” para os poemas vanguardistas de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Uma vez distribuídas pelo país, as 83 páginas da primeira edição da revista Orpheu conferiram aos autores o estigma de loucos.

Todo o material produzido nas duas únicas edições do periódico, descontinuado por falta de financiamento, foi chamado de “literatura de manicômio” pela crítica portuguesa – embora fosse considerado, mais tarde, ponto de partida para o movimento modernista no país. Cem anos depois, exemplares da publicação ganham lugar de destaque no Museu do Estado de Pernambuco (Mepe), na Zona Norte do Recife, na mostra Fernando Pessoa: uma coleção, com acervo do pesquisador pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, biógrafo reconhecido internacionalmente. A exposição, inaugurada amanhça, abre a temporada de homenagens ao escritor português, cuja morte completa 80 anos no dia 30.

As edições originais da centenária revista Orpheu foram, há 15 anos, as primeiras aquisições de José Paulo Cavalcanti para coleção que reúne, ainda, raridades como a primeira edição de Os lusíadas (1572), de Luiz de Camões – obra preferida de Pessoa. Uma teia de contato entre livreiros portugueses e representantes assíduos em leilões tornou possível o acúmulo de objetos cujo valor o colecionador não revela – “É tudo inestimável e, após minha morte, deve ficar exposto definitivamente.” As oscilações na economia europeia, diz ele, facilitaram as negociações.

O lorgnon dourado usado por Pessoa está entre os objetos mais valiosos da exposição. Foto: Mepe/Divulgação
O lorgnon dourado usado por Pessoa está entre os objetos mais valiosos da exposição. Foto: Mepe/Divulgação

É a primeira vez que o acervo é exibido ao público na íntegra. As peças permanecem no Mepe até 6 de dezembro e, a partir de então, devem circular por outras capitais do país. O lorgnon dourado (óculos antigos de haste única) e a máquina de escrever que pertenceram a Fernando Pessoa estão entre os objetos mais preciosos da coleção, além de cartas manuscritas e da edição de prova do livro Mensagem, repleta de recomendações do poeta português – “Só consegui comprá-lo porque o livreiro não percebeu que havia anotações, não folheou a obra.”

VIVA FERNANDO

No dia 30, morte de Fernando Pessoa completa 80 anos. Foto: Reprodução da internet
No dia 30, morte de Fernando Pessoa completa 80 anos. Foto: Reprodução da internet

>> PINTURAS
Em paralelo à mostra Fernando Pessoa: uma coleção, o Mepe exibe a mostra Fernando Pessoa: vida e obra. São 50 obras de artistas plásticos inspiradas no poeta português. Entre as assinaturas, as de José Cláudio, Roberto Ploeg, Pragana, Margot Monteiro, Mane Tatu. As peças estarão à venda, e a renda será revertida para a Sociedade dos Amigos do Museu do Estado (Sampe).

>> FLIPORTO I
No próximo dia 12, a Feira Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto) começa com o tema “Minha pátria é a língua portuguesa”. Os 80 anos de morte do escritor pautam a maior parte das mesas do congresso, incluindo a abertura com a escritora Manuela Nogueira, sobrinha do autor português, no dia 13, às 19h. Ela responde a perguntas sobre a vida pessoal do poeta fala sobre a escolha pela carreira literária.

>> FLIPORTO II
No dia 15, às 15h, Arnaldo Saraiva e Richard Zenith conversam com Ioram Melcer sobre os idiomas usados pelo escritor em “Fernando Pessoa traduzido, Fernando Pessoa tradutor.” No mesmo dia, às 17h, Alfredo Antunes e Paulo José Miranda, com mediação de Mona Dorf, comentam “Por que Pessoa nunca enjoa? A vida-obra de um gênio universal.” A Fliporto ocorre entre os dias 12 e 15 deste mês, no Complexo Educacional de São Bento (Av. Sigismundo Gonçalves, 375 – Varadouro, Olinda), das 9h às 21h, com entrada gratuita.

>> ENTREVISTA: José Paulo Cavalcanti Filho, escritor e colecionador

José Paulo Cavalcanti Filho acumula raridades há 15 anos. Foto: Bernardo Dantas/DP/DA Press
José Paulo Cavalcanti Filho acumula raridades há 15 anos. Foto: Bernardo Dantas/DP/DA Press

Se pudesse analisar através dos heterônimos, além deles, quem era o poeta português?
No meu livro Fernando Pessoa – uma quase autobiografia (Record, R$ 90) falo sobre 127 heterônimos. Fernando Pessoa, o próprio, era todos eles e não era nenhum. Ele só escrevia sobre o que estava à sua volta. Todas as datas, locais e fatos dos heterônimos estão, de algum modo, ligados à história dele.

Quais os objetos mais valiosos nessa exposição?
A coleção é de valor inestimável, afetivo. Mas há alguns objetos mais raros, como os óculos, a edição de prova de Mensagem, dedicada ao primo de Fernando Pessoa, Victoriano Braga, e o livro que Pessoa guardava no bolso do pijama quando morreu, Sonetos escolhidos, de Bocage, dado por um amigo. Uma das partes que mais gosto é a Pessoamania, ao fim da exposição, com objetos como canetas e suvenires com a imagem do homenageado.

Como surgiu o interesse por Fernando Pessoa? E como se manteve?
O meu interesse, quase compulsão, surgiu quando ouvi o poema Tabacaria ser recitado. Foi um choque tão grande quanto a primeira vez que ouvi Bach ou li uma obra de Gabriel García Marquez. O interesse se manteve a partir da minha busca por objetos raros, sendo os exemplares da revista Orpheu os primeiros.

SERVIÇO
Fernando Pessoa: uma coleção e Fernando Pessoa: vida e obra

Quando: Abertura para convidados amanhã, às 19h. Visitação: até 6 de dezembro (de terça a sexta-feira, das 9h às 17h; aos sábados e domingos, das 14h às 17h)
Onde: Museu do Estado de Pernambuco (Av. Rui Barbosa, n. 960 – Graças)
Informações: 3184-3174

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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