Artigo: Se a lua fosse minha (Fantasia) por ZURICA PEIXOTO (1914 – 2005)

“Mamãe Lua, me dê pão com farinha,

Para dar às minhas galinhas,

Que estão com fome, presas na cozinha!”

 

Cinco, oito, dez crianças cantavam numa pitoresca vilazinha, no coração do Norte, ao ver a Lua, que vinha nascendo branca, muito branca, por trás de suas choupanas.

A criançada, que por um momento parara os brinquedos a fim de ver o nascer da Lua, recomeçara-os. A mesma algazarra de antes foi ouvida: ora brincavam de ciranda, ora de batoê. Meninos e meninas, todos confundidos, riam e cantavam sob os reflexos da Lua, alva como as vestes de uma noiva.

Fatigada depois de tanto se divertir, a gurizada, ali mesmo, no chão, se sentou. Puseram-se todos a olhar a Lua que, mais linda que d’antes, reluzia como diamante naquelas pupilas travessas. Contemplando-a assim, cada um fazia seu castelo no ar.

– Quem me dera possuir a Lua, para com ela fazer um arco! – disse um pequenito.

– A Lua se parece tanto com um arminho de pó-de-arroz que, se eu a pudesse ter, trá-la-ia muito bem guardadinha na minha caixa de pó, pois a punça que lá está é uma pasta de algodão – afirmou a mais faceira das garotas.

– Eu quisera possuir a Lua para de dentro dela tirar um cavaleiro, que ouvi dizer chamar-se São Jorge.

Afinal, todos tinham feito seus castelos, faltando somente uma mocinha, que tomava conta do bando.

– E você – perguntaram os meninos, todos ao mesmo tempo -, que faria se possuísse a Lua?

A mocinha, desde a mais tenra idade, perdera seus pais, e vivia envolvida numa eterna tristeza.

– Oh! Diga logo o que faria se a Lua lhe pertencesse! – gritaram os pequenos, impacientes.

– Não lhes interessa o que eu faria, meus amiguinhos. Em todo caso, vou dizer-lhes. Se a Lua fosse minha, ao menos por um momento, eu pediria a ela que com seus raios brilhantes iluminasse meu pobre coração, que vive triste e isolado, e parece até já ter morrido.

E continuou, melancólica:

– Ah! Se os seus raios de luz penetrassem bem no fundo do meu coração e o animassem a começar a viver!… Como eu ficaria contente!

Desejo vão!…

Eu que, casualmente passando, ouvira aqueles desejos irrealizáveis, fui-me embora com as lágrimas a deslizar pelas faces.

                                            – – –

      

Nota de FMP: obra de adolescência de Zurica Galvão Peixoto (1914 – 2005) que, em 16 de dezembro, se viva fosse, estaria completando 101 anos de idade. Certamente muito feliz ao ver que seus trabalhos literários estão sendo publicados em sua amada cidade do Penedo, Alagoas.

 

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