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Com a participação de um coral infantil, crianças sírias gravam CD

Com o dinheiro arrecadado com a venda dos CDs, Juman e Limar pretendem comprar uma casa para a família. Foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press
Com o dinheiro arrecadado com a venda dos CDs, Juman e Limar pretendem comprar uma casa para a família. Foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press

Os irmãos Juman, 10 anos, e Limar, 7, que fugiram da Síria com os pais por conta da guerra, realizam, aqui no Brasil, um de seus maiores sonhos. Eles estão gravando o primeiro CD da dupla. Ao todo, serão 10 músicas e a expectativa é que sejam vendidas cerca de 20 mil cópias. Cheios de estilo e dedicados ao desejo de cantar, eles já decidiram o que fazer com o dinheiro. Todo a quantia arrecadada será usada na compra de uma casa própria para a família, que hoje mora de aluguel em Taguatinga.

Eles vieram de Jaramana, cidade que fica ao sul da Síria, em 2013. Trouxeram na bagagem um punhado de sonhos e de histórias para contar. Acompanhados pelos pais e pelo irmão caçula — que ainda estava na barriga da mãe —, o objetivo era um só: escapar da guerra (leia Para saber mais). Nesse sentido, a escolha do Brasil como refúgio não foi aleatória. Do lado de lá, a imagem do país sul-americano é positiva e inspira paz. “O Brasil é um país muito bom. Aqui, não tem guerra e as pessoas são legais”, opina Juman.

Dominando a língua portuguesa como nativos, ele e o irmão têm vontades como as de qualquer criança brasileira. Gostam de brincar e de fazer novos amigos todos os dias. Juman adora matemática, Limar diz preferir ciências, geografia e português. O que faz a dupla diferente dos colegas e vizinhos, entretanto, são as lembranças dos momentos vividos no país de origem. “A gente via os aviões atacando e os mísseis chegando mais perto. Isso dava muito medo”, lembra o irmão mais velho. Há até pouco tempo, eles ainda se escondiam embaixo da cama só de ouvir o barulho de alguma aeronave sobrevoando a capital federal. Hoje, os temores vêm sendo superados com a leveza e a inocência próprias da infância.

Apesar de toda a dor, os meninos estão dando início a uma nova e próspera vida. Com o nome artístico de Syrian Boys, eles se divertem e trabalham duro para alcançar os objetivos. A ideia de embarcar no mundo da música surgiu quando o produtor de eventos Elciomar de Souza precisou de um escultor. Foi quando ele ficou sabendo que o pai dos meninos, Riad Al-Najen, 50 anos, fazia artesanato para sustentar a família. “Eu conversei com eles e me apaixonei pelos garotos. Pela inteligência deles, pelo sonho que eles tinham de conhecer o Neymar e pela vontade de que a terra deles estivesse em paz”, conta.

Há quatro meses, são pelo menos três ensaios por semana, todos sob o comando do professor de canto Denilson Bhastos, 28, que recebeu o convite de Elciomar. Encantado com a força de vontade dos pupilos, ele se derrete ao falar do progresso da dupla. “Eles me ensinam com a história de vida deles. É comovente ver o talento e a dedicação desses dois”, orgulha-se. Segundo ele, quando os meninos faltam as aulas é uma tristeza só. “Eles ficam doidos. Não gostam de faltar por nada”, garante. Resultado de tanto esforço, três das 10 faixas do CD dos Syrian Boys já estão prontas e prometem agradar aos públicos de todas as idades.

Participações especiais

Para melhorar, com a ajuda do professor Domingos Souza, do Colégio Século XXI, o CD ganhou um coral composto por 24 alunos do ensino fundamental. Todos cantando pela paz no mundo. “Nós ainda não conhecemos os irmãos. Mas sabemos que a casa deles foi destruída na Síria, e queremos ajudar para que eles tenham uma casa aqui”, disse o estudante Cauã Kennedy, 9. O coral e a dupla gravam em dias diferentes. “A gente vê as crianças morrendo lá, por causa da guerra, e eles estão longe da família. Por isso, queremos ajudá-los”, contou Beatriz Rodrigues Alves, 9 anos.

O lançamento da primeira música, Paz no mundo, será marcado em breve, já que, com o fim da greve dos professores, as aulas na rede pública serão retomadas. A apresentação será na Escola Classe 15 de Taguatinga, onde os irmãos estudam. Os CDs serão vendidos como ingresso para o evento. “Precisamos de ajuda de empresários para alcançar a marca de 20 mil CDs. Se cada um der um pouco, nós vamos conseguir”, acredita Elciomar.

Animados, os produtores já pediram algumas participações especiais. Foram convidados para o projeto o cantor sertanejo Gusttavo Lima e o funkeiro Mc Gui — de quem Juman e Limar são fãs declarados. Todos estão esperançosos com a oportunidade. “Quanto mais pessoas souberem que os sírios estão em guerra, mais vão querer ajudar. Os cantores famosos poderão apoiar essas crianças, que vieram pra cá para sobreviver”, diz o colega Arthur Gabriel, 9.

Todas as músicas são inéditas e misturam elementos do Ocidente e do Oriente Médio. Com letras que incentivam a educação na infância e pedem a paz na Síria, os pequenos podem externar sentimentos que, por vezes, são oprimidos. Bem adaptados aos ritmos brasileiros, os irmãos entregam as preferências musicais. “Amo sertanejo, pop e rock”, diz Limar. “Eu gosto de pop, funk e pop reggae”, enumera Juman. Ecléticos e cheios de bom gosto, eles sabem o que esperar do futuro. “Queremos ser famosos e ir a todos os programas de TV”, destacam.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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