Djavan lança álbum e fala da relação com Salvador


Com 40 anos de carreira, Djavan concilia a honraria no Grammy Latino com o lançamento do seu 23º álbum


Hagamenon Brito, do Rio*

Compositor muito hábil em fazer música popular e sofisticada ao mesmo tempo, Djavan Caetano Viana, 66 anos, embarca dia 13 para os EUA. Cinco dias depois, em Las Vegas, ele receberá um Grammy Latino pelo conjunto da obra.

Com 40 anos de carreira, Djavan concilia a honraria no Grammy Latino com o lançamento do seu 23º álbum, Vidas Pra Contar (Luanda/Sony) – são 12 canções inéditas fiéis ao seu estilo, que mescla jazz, samba, soul e outros ritmos, como bolero ( o single Não É um Bolero) e xote (Vida Nordestina).

Show na Concha 

Referência musical na MPB contemporânea, o cantor consegue manter a qualidade em Vidas Pra Contar e mostra que a chama inventiva ainda queima alto em pérolas como Dona do Horizonte, homenagem à mãe, dona Virgínia; e a balada jazzy Encontrar-te, tema dos personagens de Juliana Paes e Fábio Assunção em Totalmente Demais, novela das 19h da Globo que estreia segunda.

O show da nova turnê estreia dia 21 de fevereiro em Juiz de Fora, Minas, mas Djavan e  banda já ensaiam para o concerto que chegará a Salvador dia 17 de abril, na Concha Acústica do TCA. Esta semana, fomos ao Rio conversar com o artista no modernista e bonito Instituto Moreira Salles, na Gávea.

Você me disse que shows em Salvador e, especialmente, na Concha Acústica do TCA, são sempre especiais, por causa do público caloroso e do próprio formato. Você lembra da primeira vez que visitou Salvador?

A Concha Acústica é como se fosse o La Bombonera (estádio do Boca Juniors) para shows (risos). É pura fervura. A primeira vez que estive em Salvador eu tinha 16 anos, fui numa excursão com meu irmão e fiquei hospedado na Rua Chile. Fiquei encantado com o Elevador Lacerda e com a arquitetura, pois naquele tempo eu já adorava arquitetura. Salvador tem um dos mais belos conjuntos arquitetônicos coloniais do país, pena que não tenha uma conservação à altura dessa importância.

E o primeiro show em Salvador? Foi logo no começo da carreira,  no final dos anos 1970?

Sim, foi no Teatro Vila Velha, mas enfiei o pé na jaca e fiquei mal. Não me dou bem com dendê (risos). Mas ir a Salvador sempre é inesquecível. O soteropolitano é festa e o baiano sabe receber bem.

Imagino que Salvador te impressionou desde cedo também por você ser negro e a cidade ter uma forte herança afro, diferentemente de Maceió, onde você nasceu e viveu até os 25 anos…

Vou te contar uma coisa. Em Salvador, em 1978, vi algo marcante e inusitado pra mim até então: um motorista branco, numa Aero Willys, com um casal de negros no banco detrás. Nunca havia visto aquilo, muito menos em Maceió. É uma cidade muito especial por causa dessa herança cultural africana, algo vivo, presente no cotidiano. Ali está tudo que somos no Brasil. E tem a coisa da religiosidade! Ter preconceito racial e religioso na Bahia é uma aberração (risos). Isso não faz sentido em nenhum lugar, claro, mas em Salvador é mais aberrante.

O disco tem muita coisa autobiográfica, não é? Música falando do Nordeste, da sua mãe…

Talvez seja meu disco mais biográfico, em que falei mais de mim. Pensei em falar do Nordeste, mas senti dificuldade em tratar de um tema já abordado por Humberto Teixeira, Luiz Gonzaga, Zé Dantas e Jackson do Pandeiro. Mas fiquei satisfeito com o que escrevi sobre o sertão, onde “a vida não é festa…./mas até quem não tem empresta/dá a mão”.

Por que esse desejo de ser mais autobiográfico a essa altura da vida como compositor?

São coisas que nos ocorre. Não foi intencional. Sabe, nos últimos tempos, tenho passado parte das férias em Maceió, no final do ano, e sempre volto com saudade. Não é uma saudade do que acabei de viver, mas de fatos de 50 anos, do que vivi na infância e adolescência. Sou muito agradecido pela educação nordestina na minha formação.

Como letrista, você criou uma poética própria, um estilo que Caetano Veloso homenageou na gravação dele de Sina (1982). Como buscar o frescor ainda nas letras?

Quando você escreve uma canção, primeiro vem a preocupação com o conteúdo, a forma, o ritmo, a textura, a luminosidade e a sonoridade que as palavras contêm. Tento sempre descobrir palavras e expressões novas. Por isso, creio que as minhas letras agradam tanto e também já foram contestadas. Tem crítico que diz que só entendeu melhor o que escrevo depois que procurou conhecer minha música com maior profundidade, entrou realmente na minha obra. Escrever é um ofício que exige muita ralação. A palavra é uma coisa viva, é difícil contê-la na hora da criação. E também tem o aspecto lúdico que é necessário.

 

 

 

Nunca me relacionei muito com drogas. Um fuminho de vez em quando, cigarro deixei de fumar há tempos, nunca cheirei e nunca fui de beber. Baseado me deixa disperso… Nunca tive vontade de experimentar cocaína, mas gostaria de ter tomado ácido (risos).  Atualmente, o conceito do politicamente correto é forte (e chato). Hoje, seria difícil uma gravadora enviar para os jornalistas, junto com um álbum que se chamava Coisa de Acender, papel seda para baseado (risos), como aconteceu com seu disco de 1992. Por falar nisso, como você se relacionou com as drogas em sua vida?

Como vê o atual e difícil momento brasileiro, de crise na economia e na política? Não lhe parece que somos historicamente um país bipolar, alternando momentos de esperança e crescimento com desilusão e crise?

Acho que vivemos um momento de transformação, de mudanças e que estamos efetivamente numa democracia, onde instituições como Ministério Público e Polícia Federal agem de modo independente. É algo inédito e esperançoso. E mundialmente também estamos em transformação. Veja o caso da Europa agora, que está tendo que pagar seu dízimo histórico em relação a outros países.

Você votou em Dilma Rousseff nas últimas eleições?

Não, votei em 2014 e em 2010 em Marina Silva e antes em Lula. Talvez eu me engane caso ela chegue um dia ao poder, porque estar no poder é outra coisa, mas acredito no que Marina representa como uma nova forma de fazer política, uma política baseada na tecnicidade e não no quadro partidário, que é um dos problemas do modelo atual.

Como é ser homenageado pelo Grammy Latino pelo conjunto da obra?

É sentir que minha música está cada vez mais universal, que o trabalho de formiguinha deu certo para um tipo de público que veio ao encontro do que eu faço. Afinal, canto em português. Nunca tive problemas de público nas turnês internacionais, mas para um artista ter penetração internacional realmente é preciso que ele cante em inglês, desenvolva uma carreira de sucesso em inglês. E eu nunca quis abandonar a língua portuguesa, a minha essência. Acho que fiz a coisa certa.

 

Tags:Música, Djavan, Entrevista

Fonte: iBahia.com.br
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