Últimas

"Faça do espelho e do bom senso seus melhores amigos", diz Costanza, papisa da moda no Brasil

Costanza tem 76 anos e nasceu na Itália. Foto: Reprodução da internet
Costanza tem 76 anos e nasceu na Itália. Foto: Reprodução da internet

Considerada a papisa da moda no país, Costanza Pascolato levou seis meses para selecionar estampas e compilar dicas para a publicação mais recente, Meu caderno de estampas (Editora Planeta, R$ 34,90). Dos tecidos para o papel, migraram as estampas preferidas da consultora, todas produzidas pela tecelagem de sua família, a Santaconstancia. Apesar das dicas distribuídas entre quase todas as páginas, a consultora declara: “Sempre digo que na moda é proibido proibir. Vejo, por exemplo, mulheres da minha idade felizes da vida usando minissaias, saltos altíssimos ou jeans justérrimos, desconstruindo, à maneira delas, o que antes parecia impossível.  Não sou eu quem vai dizer que pode ou não pode.”

Ela aproveitou a última edição do São Paulo Fashion Week, no mês passado, para lançar o livro, que reúne, ainda, conselhos de estilo, comportamento e bem estar. Um copo d’água em jejum e uma calça jeans básica são, segundo Costanza, indispensáveis. Gentileza e amor próprio também. Em entrevista exclusiva ao Viver, a especialista falou sobre as redes sociais, a febre dos livros de colorir e a importância do estilo próprio. “Estilo distingue quem espelha de quem irradia.  Ele nos dá sentido de competência, prazer e segurança. Transcende tempo e gênero e – por que não? – a própria moda”, analisa.

>> ENTREVISTA: Costanza Pascolato

Quanto tempo levou para produzir Meu Caderno de Estampas? E como selecionou as estampas/imagens?
Foram seis meses entre a ideia original e a execução do projeto, que envolveu as equipes da Santaconstância e da editora Planeta. No dia a dia da fábrica, trabalhamos exatamente com criação de estampas e cores, sempre pensando algumas estações à frente, numa dinâmica que é acelerada, bem rápida, mas ao mesmo tempo uma tarefa contínua, ou seja, já fazemos isso, diariamente, há muitos anos.  No caso do livro-caderno, o critério de seleção, que incluiu desenhos de acervos e novas criações, acabou sendo bem pessoal e, além de editar nossas estampas prediletas, pensamos de um jeito mais intemporal, já que o livro foi feito para durar, para guardar. Lembrar que as imagens seriam impressas em papel, não em tecido, foi outro aspecto importante. São estampas e desenhos de que gostamos muito e que imaginamos continuar gostando daqui a alguns anos. E tem também uma boneca, que é uma graça, para que cada um monte um look, a exemplo daquelas revistinhas das infâncias pré-digitais, de um passado que hoje  parece bem distante. O legal é que esse recurso fashion-lúdico ainda parece muito atual.

A consultora acredita que estilo supera o tempo e a própria moda. Foto: Reprodução da internet
A consultora acredita que estilo supera o tempo e a própria moda. Foto: Reprodução da internet

É uma ideia inspirada na febre dos livros de colorir? Ou acredita que, com as dicas de moda anexadas na publicação, seja um livro atemporal?
De alguma forma, a possibilidade de realizar o livro-caderno tem a ver, sim, com a “moda” dos livros de colorir, que viraram uma “febre” editorial.  Surgiram tantos projetos com temáticas tão diferentes que nos pareceu legítimo criar uma versão com o que, na origem, é também nossa matéria-prima criativa na fábrica. Temos intimidade considerável com estampas e cores e documentar e compartilhar essa expertise num livro-caderno era uma ideia bem simpática e, melhor ainda, viável. As dicas são uma citação de conteúdo, que também adoro produzir.

Um dos ganchos do lançamento foi a última edição do São Paulo Fashion Week. Qual a sua rotina durante as semanas de moda, nas quais sempre marca presença? O lançamento do livro tornou a agenda mais concorrida?
Lançamentos de livros são ocasiões sempre especiais para mim. É hora de encontrar pessoas e amigos que você não vê corriqueiramente e conhecer pessoas que, por algum motivo, acompanham nosso trabalho. Mas sempre é um corre-corre. Nas semanas de moda, que é o momento “célebre” para a moda e para quem trabalha com ela, invariavelmente priorizo, no Brasil ou na Europa, os desfiles, me organizando para conseguir estar na maioria deles. É uma agenda que depende de disciplina, logística e algum esforço, sobretudo quando já está, digamos, numa idade avançada.

Se pudesse destacar, em linhas gerais, algumas dicas reunidas na publicação, quais seriam as duas ou três principais?
Acho que perderia um pouco o elemento surpresa para quem tem curiosidade com o livro, não:. Duas ou três dicas mais genéricas, pode ser?  A primeira: na hora de comprar roupas e se vestir, faça do espelho e do bom senso seus melhores amigos; 2. tente ser só você mesma, sem querer  imitar gratuitamente outra pessoa, e 3. lembre-se que corpo e cabeça bem cuidados podem ser o reflexo mais evidente do quão em dia você está com a moda.

Outros nomes ligados ao universo fashion – produção e bastidores – como Ronaldo Fraga e o pernambucano Arlindo Grund – têm movimentado a literatura com lançamentos nos últimos meses. Que contribuições a moda traz ao público-leitor, quando encartada em livros e acessível ao público que não frequenta as semanas de moda?
Para um país como o Brasil, que não tem tradição ou bibliografia de moda, o que começa a se formar agora, publicações e lançamentos são mais que bem vindos.  Assim, contribuições de nomes respeitáveis como Fraga e Grund são referências concretas de que, apesar de ser uma paixão recente, a moda interessa cada vez mais brasileiros de todas as regiões, de diferentes classes sociais. E é muito bacana quando, em plena revolução virtual, o caráter documental dos livros continue enriquecendo nossos acervos. Livros, ideias, pontos de vistas e iniciativas que nos fazem pensar são fundamentais para lembrar que educação, informação e conhecimento são os pilares sociais da experiência humana e deixam a vida muito mais interessante.  

Tem outros projetos para a literatura previstos para os próximos meses?
Tenho algumas ideias, alguns “rascunhos” e é possível que realize um novo livro no próximo ano.

Você mantém perfis ativos nas redes sociais. Como vê o poder desses canais, na condição de formadora de opinião?
Me divirto muito no Instagram, que é pura imagem. Uso mais como hobby, inclusive nas férias, e dia desses me surpreendi com a marca de 250 mil seguidores dispostos a acompanhar o que me interessa visualmente. De outras “redes” tenho uma preguiça ancestral. Há, sim, um “poderzinho” em jogo, mas prefiro nem observar este aspecto e  encarar mais como uma oportunidade de compartilhar experiências estéticas e, bem eventualmente, observações sobre a rotina e o cotidiano.

Podemos avaliar os livros de colorir como uma tendência passageira, assim como algumas apresentadas nas passarelas?
Num tempo tão veloz como o que vivemos, até nossa noção do que é passageiro, fugaz, ficou relativa. Há, por exemplo, psicólogos e terapeutas que há muito trabalham com esse tipo de publicação como recurso terapêutico e que provavelmente vão continuar fazendo isso, independentemente  dessa “tendência” supermultiplicada recentemente em tempo recorde. Acredito que o grande lance da nossa época é essa possibilidade de tudo coexistir. O que cita como tendência passageira na passarela pode, porque não, ir de encontro ao estilo de alguém que vai adotar aquela roupa por anos seguidos. É o jeito dela de estar na moda e essa diversidade, no fim das contas, é uma experiência bem rica.

É grande a quantidade de informações de “pode” e “não pode” que bombardeia, diariamente, meninas e mulheres que almejam o padrão de beleza das top models. Qual o seu conselho para elas? Estilo próprio ainda é a moda soberana?
Nunca gostei desse tipo de “autorização fashion”, nem de conselhos porque acho meio invasivo se, de antemão, você conseguir respeitar nas expectativas e escolhas do outro.  Sempre digo, aliás, que na moda é proibido proibir. Vejo, por exemplo, mulheres da minha idade felizes da vida usando minissaias, saltos altíssimos ou jeans justérrimos, desconstruindo, à maneira delas, o que antes parecia impossível.  Não sou eu quem vai dizer que pode ou não pode. Mas esse é só um ponto de vista. Mesmo contra proibições de toda ordem, acredito que, entre meninas ou mulheres, o bom senso precisa ser cultivado em todas as idades. Sobre estilo, sempre digo também que  é o que dá forma ao pensamento e mostra quem você é de verdade.  Estilo distingue quem espelha de quem irradia.  Ele nos dá sentido de competência, prazer e segurança. Transcende tempo e gênero e – por que não? – a própria moda.

O que Costanza faz, no dia a dia, para se manter como referência de estilo? É um código de atitudes? Uma pesquisa por inspirações? Uma busca por si mesma?
Para o tipo de aperfeiçoamento que busco, minha paixão por moda também me fez descobrir que o estilo pode ser a melhor expressão do caráter de alguém, uma legítima ressonância do que somos. Para mim, viver com mais estilo significa transformar a banalidade da existência em experiência original, exclusiva, não importa a idade que você tenha. Aos 70 e tantos,  estar repleta de curiosidade, com agenda cheia e fazendo malabarismos e pilates diariamente para dar conta de tudo é inspirador como “pesquisa”, ação e experiência de algum estilo.

SERVIÇO
Meu caderno de estampas
Editora Planeta
96 páginas, R$ 34,90

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *