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"Onde estão as pessoas da minha cor?"

“No edifício onde moro, são 46 apartamentos. Os únicos negros são da minha família e duas crianças adotadas do 12º andar. Costumo ir a restaurantes bons e hoje, assim como na maioria das vezes, entre uns 50 clientes, somos os únicos negros. Eu fui a única negra em muitas turmas de 60 alunos nas escolas privadas. E, até mesmo quando ando de avião, é sempre aquele mar de brancura. Nunca fui atendida por médicos negros. Nunca vi maioria de negros em novelas. Onde estão as pessoas da minha cor?”
Assim como a estudante Isabella Puente, de 22 anos, autora das indagações colocadas acima, a sensação de isolamento atormenta muitos negros que ascenderam socialmente e que, mesmo assim, carregam a herança de uma política nacional de branqueamento imposta pelo Estado Novo. “O que os negros que conquistam uma boa posição social revelam é que a raça e a cor da pele os acompanham em todos os ambientes. Uma prova inequívoca de que a questão do negro no Brasil não é socioeconômica, é um legado da escravidão”, explica a professora de pós-graduação em sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, Liana Lewis.
O preconceito que nasceu na Casa Grande, hoje circula entre barracos e gabinetes. Não perdoa nem dias de festa. “Eu estava indo tocar no carnaval. Sou do Eu Acho É Pouco e contratei um dos meninos que fazem a segurança do bloco para me acompanhar porque eu estava com a mochila com headphone e discos. No meio do empurra-empurra, uma mulher gritou: “quem essa negrinha pensa que é para estar com o segurança do bloco? Na hora, ficou todo mundo espantado. Depois, resolvemos fazer um bloco beneficente e o “Seguranças de Lala K – Quem essa negrinha pensa que é?” já desfila há quatro anos pelas ladeiras de Olinda”, lembra, entre risos, a DJ Lala K.
Ícone do empoderamento negro, Lala K sabe que a mudança faz parte de um processo lento e nem sempre gradual. “Infelizmente, tem gente que nunca vai mudar. Gente que senta na mesa com você e não te agride fisicamente, mas é preconceituoso. Difícil saber se te tratam com respeito por você ser quem é ou não”, dispara. Somente com a afirmação da própria identidade, o final dessa história pode mudar. “Eu aprendi a não me preocupar. Levanto a cabeça e vou embora. Algo do tipo ´vá com seu racismo para lá´. Muitas vezes, estou na rua ou tocando e as mulheres me contam que usavam o cabelo preso ou viviam na escova, mas que passaram a deixar de fazer isso ao me ver. Não quero ser símbolo de nada, mas é preciso que as pessoas vejam que existe, que é bonito e se inspirem também. Essa coisa do cabelo, das pulseiras e colares de matrizes africanas, por exemplo. As pessoas querem saber de onde são”.
Para Lina Lewis, a passagem da sociedade brasileira para a modernidade foi acompanhada de um processo de subalternização da população negra. “Estudos comprovam que em um mesmo estrato social, os negros têm menos acesso a bens do que os brancos.E isso é um projeto de estado e

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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