Opinião: Ser negro é tornar-se negro

Por Isaltino Nascimento

Secretário de Desenvolvimento Social,

Criança e Juventude

opiniao.pe@dabr.com.br

Sexta-feira, 20 de novembro de 2015, e a lembrança de 320 anos da morte de Zumbi dos Palmares, líder quilombola e símbolo da resistência negra no Brasil. A Abolição da Escravatura, que acontecera 66 anos após o Brasil República, dizia que negros e negras eram livres. Os senhores não poderiam mais “pagar” por seus serviços. Contudo, os negros não podiam pagar por nada. E nada tinham, também. Nem casa, terra para produzir ou instrução para criar o próprio destino. Nada! Apenas a liberdade – que parecia tanto.

A exclusão permanecia. Tal fato seria explicitado no posicionamento de Rui Barbosa – coautor da Constituição da República – em excluir todas as informações sobre a questão escravocrata do Brasil. E o que poderia ser apagado? A história? Não, não pôde!

Hoje, 127 anos após a Abolição da Escravatura, temos uma realidade de 60% da população sendo composta por negros e negras, que ainda vivem em condições semelhantes àquele tempo. É um Brasil que remonta ao século 16. Dos 30 milhões de analfabetos em nosso país, 70% são de negros ou negras – filhos do mesmo Brasil. O índice de desemprego também é maior na população negra; além de o salário da mulher negra ser inferior ao do homem negro e, juntos, terem remuneração menor que um branco.

No Brasil, há quem tente tratar a questão racial como social, mascarando o racismo inserido em gestos rotineiros, também na tentativa de evitar a promoção políticas públicas que favoreçam essa população. A exemplo das cotas para concursos públicos, assentos das Universidades, que foram questionadas quanto ao “favorecimento da pessoa negra”. Onde mora o favoritismo, ora? O propósito da sociedade não deveria ser o da equidade? E, enquanto negros e negras estiveram em condição de inferioridade, como podemos enxergar todos e todas como iguais?

O sistema de cotas é um dos instrumentos que cabe ao poder público para contribuir com a extirpação do racismo. Em Pernambuco, um importante passo dado como forma de política pública, aconteceu com a criação da Coordenadoria de Igualdade Racial, dentro da Secretaria Executiva de Segmentos Sociais e que faz parte da Secretaria que coordeno – com o intuito de instituir políticas de promoção da igualdade racial e combate ao racismo. A exemplo do Plano Estadual de Promoção da Igualdade Racial, entre tantas outras ações de resistência ao preconceito.

Dar empoderamento ao negro é colocar a sociedade em sintonia com este milênio. De forma que os cabelos não sejam “ruins”, que a pele não seja “escura”, que as religiões de matriz africana não sejam as  únicas opções em que caibam as rezas e adorações das “pessoas de cor”. Elas fazem parte da história e cultura do negro.

A frase de Neusa Santos Souza “ser negro é tornar-se negro”, também usada na campanha pelo Mês da Consciência Negra em Pernambuco, traduz a intenção de romper a sujeição, negação da própria cultura, em relação aos negros e, também, a omissão da sociedade para estas questões.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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