Telefones celulares podem prejudicar olhos, mãos e coluna

 
Atualmente, estar conectado o tempo todo é uma atividade supervalorizada. Basta meia hora sem o celular para perder um encontro com os amigos, uma ligação, mensagem importante do chefe. “Como não atende o celular nem responde mensagem?”, muitos se indignam. O aparelho virou quase uma extensão do corpo. Essa obsessão, porém, pode não ser saudável — tanto física quanto socialmente.

Já estão mapeados diversos males diretamente relacionados ao uso excessivo do celular. Ele tem sido apontado, por exemplo, como vilão em problemas na coluna, nas mãos, no cérebro e nos olhos. Algumas dessas doenças, inclusive, carregam no nome uma referência ao uso do equipamento. “Pescoço de texto”, por exemplo, descreve a postura da maioria das pessoas quando escreve uma mensagem. “Síndrome do polegar” diz respeito ao costume de digitar mensagens usando apenas esse dedo.

Embora não sejam conclusivos, há estudos que ligam o uso de celular ao desenvolvimento de câncer. Até a Organização Mundial de Saúde chegou a advertir sobre esse risco em 2011, depois que 31 cientistas da Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer fizeram um grande levantamento das pesquisas já realizadas. Quase todas analisavam a incidência da doença em populações com uso variado de celular ou outra exposição a campo eletromagnético.

Lucas Costa, 28 anos, professor de muai-thai, passa o dia na correria. Dá aulas em diversas academias a partir das 7h. Ao longo do dia, o celular é usado para comunicação com os alunos e com a mulher. É quase o tempo todo no ouvido ou nas mãos. O aparelho também é usado por Lucas para divulgação do trabalho dele, publicando fotos das aulas em redes sociais. Ele precisa recarregá-lo várias vezes ao dia para garantir que não vai perder nada. A noite é o momento que ele tem para se comunicar com os amigos e se atualizar. “Durante o dia, eu não consigo ler jornal algum”, lamenta. A tarefa noturna geralmente é feita já deitado na cama, antes de dormir. Considera mais prático fazer isso com o celular e, algumas vezes, leva mais de uma hora. A mulher, Líbian Volsi, costuma dormir mais cedo, mas também se prolonga nas redes sociais ao fim do dia. A situação é comum hoje em dia e se repete em diversas casas. Se não é com o celular, é com o tablet.

Diversos estudos já comprovaram que ambos exercem um efeito negativo sobre o sono. Uma opinião de peso sobre o assunto vem do neurologista Charles Czeisler, diretor da Divisão de Medicina do Sono de Harvard. Segundo ele, é uma injustiça culpar o café e “barriga cheia” por noites mal dormidas. “Desvaloriza-se o efeito do avanço tecnológico sobre o sono. A luz artificial afeta nosso ritmo circadiano e é mais poderosa do que qualquer droga”, alerta. Faz sentido. A luz é a principal responsável por regular o ciclo diário do corpo. A ausência dela é que estimula a glândula pineal, localizada no cérebro, a liberar a melatonina, o hormônio do sono. Se o dia for seguido por uma noite iluminada artificialmente, além de neurônios serem ativados, gerando excitação, o lançamento de substâncias necessárias para promover o sono, como a melatonina, é inibido. O ideal é, cerca de uma hora antes de dormir, começar a se preservar da luminosidade ambiente.

“A falta de sono é interpretada pelo nosso corpo todo como uma situação de estresse. O hábito de se expor a uma luz artificial até a hora de dormir tem se tornado um problema de saúde”, confirma o psiquiatra e médico do sono Caio Araújo Jr. A alteração hormonal de alguém que não dorme direito afeta todo o metabolismo. O nível de cortisol, conhecido como o hormônio do estresse, sobe e pode dificultar até no emagrecimento. Além disso, a glicemina e a pressão sanguínea também aumentam. Entre crianças, noites em claro são especialmente nefastas. Isso porque o hormônio do crescimento é liberado na fase 3 do sono não REM.

Vínicius Moreira, 14 anos, foi praticamente o último entre os amigos a ganhar um celular. “Depois que ganhei, ficou difícil largar”, brinca. Mesmo assim, ele se esforça para não se entregar ao vício. Uma das maneiras de fazer isso é ficar sem 3G. Dessa forma, só usa o celular em casa ou em lugares com rede wi-fi. Na escola, por exemplo, onde é preciso estar concentrado, o telefone só fica desligado. O principal uso que o adolescente faz do aparelho é troca de mensagens e como player de vídeos. O computador foi deixado de lado. E pegar no sono ficou bem mais difícil, só depois da meia-noite. A conta vem pela manhã. “Eu demoro para me levantar. Minha mãe precisa me dar uma chacoalhada”, admite.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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