Últimas

Tribuna SBTpedia: O jornalismo de Silvio Santos, por Rafael Fialho

O Jornalismo de Silvio Santos
Por Rafael Fialho* (rafaelbfialho@gmail.com)
“Mas aqui você não pode falar em política não, o SBT não se mete em política; o SBT é uma estação de entretenimento. Aqui no SBT não pode falar em política, tô te avisando, hein? Aqui no SBT você pode falar em entretenimento. Pode fazer fofoca dos artistas, tem muito assunto. Sei lá, ao invés de fazer política, por que não faz fofoca da Xuxa, por exemplo?”

  [embedded content]

Participação no Não Erre a Letra

A fala acima foi proferida por Silvio Santos no último domingo, 22 em conversa com Rachel Sheherazade. Na ocasião, o apresentador tornou pública a decisão já conhecida a respeito da proibição dos comentários e opiniões de todo o departamento de jornalismo da emissora. A norma reflete a postura pessoal do patrão, conhecido por manter uma constante cordialidade com políticos e demais autoridades, sempre em tom elogioso – o que pode ser visto desde A semana do presidente até as recentes matérias-homenagens sobre o Templo de Salomão e demais projetos da Igreja Universal do Reino de Deus. Para Silvio, política é mais intuição do que conhecimento, como ele mesmo diz:

“Não precisa aprender política, não! O povo tem uma intuição que não falha nunca. O povo sabe o que é bom, o povo sabe o que é verdade […]. O povo tem uma intuição. Então vote pela sua intuição” (ROCCO, 1990).

Apesar de rápido e sutil, o “recado” de Silvio dá a ver o modo altamente personalista com que ele administra o canal, característica percebida não apenas nesta decisão específica, mas na condução do jornalismo como um todo desde que o SBT surgiu. OK, sabemos da configuração familiar que as empresas de comunicação têm no Brasil, e por consequência, entendemos que isso só poderia repercutir – infelizmente – em um panorama de concentração dos veículos de mídia. 


No caso do SBT, entretanto, chama atenção a peculiaridade que esse fenômeno assume; é o próprio dono que vem a público ditar as regras do jogo. E quando digo “jogo”, falo de jogo mesmo. Afinal, é essa a lógica que parece prevalecer no canal: fica na programação quem ganha mais audiência. 


Nada mais “Silvio Santos” do que chegar em pleno quadro Não erre a Letra para advertir uma funcionária de que os comentários políticos estão vetados. Embora soe absurdo, o gesto é totalmente compatível com a identidade construída anos a fio pelo animador, que cuida pessoal e abertamente dos assuntos de seu brinquedo preferido. Pautada na autoridade, na comicidade e no personalismo, a atuação do dono do SBT é, ao mesmo tempo, motivo das ascensões e das quedas do jornalismo da emissora, que vive de ciclos. Isso porque o Silvio que decidiu investir em formatos inovadores como Aqui Agora e TJ Brasil é o mesmo que demitiu diretores e extinguiu telejornais dias após a estreia. 


Prova desse comando tão subjetivo e autocentrado é a campanha “Jornalismo que evolui, princípios que não mudam”, que em 2013 veiculou uma carta escrita por Silvio em 1988 com os princípios editoriais do canal. Criadas e assinadas pelo empresário, as normas foram celebradas como valores que, apesar da passagem de tempo, permaneciam ou deviam permanecer intactos. 


Os “14 mandamentos” de Silvio, o Santo, incluem a observância a valores como credibilidade, respeitabilidade, seriedade, isenção e apartidarismo, dentre outros. São interessantes as recomendações segundo as quais a notícia deve ser popular, “entendida pela patroa e pela empregada”, e o pessimismo dispensável: “o tom do jornalismo deve ser otimista, procurando mostrar que, mesmo nas situações mais trágicas, é possível dar a volta por cima”. Essas instruções são indícios de um jeito SBT de fazer telejornal, que sendo apontado pelo dono do canal, partilha de sentidos que podem ser percebidos não somente nas edições jornalísticas, mas também em seus programas.

 Os princípios editoriais de Silvio Santos


Não por acaso Hermano Henning disse em determinada ocasião que os jornalistas do SBT trabalham de acordo com a “filosofia de Silvio Santos”. A campanha elucida de modo claro uma identidade do telejornalismo rica de sentidos que se confundem com a identidade do SBT como um todo. Silvio faz valer seus princípios e relega ao jornalismo a importância que ele deve assumir em uma empresa de entretenimento – ou seja, quase nenhuma. 


A história do SBT mostra que programas de auditório sempre foram encarados com mais relevância do que o factual, e não por acaso o dono insiste em chamar os telejornais de “noticiários”, podendo ser resumidos, em algumas épocas, a boletins na programação ou a um jornal com duas belas moças que cruzavam as pernas a cada notícia lida no teleprompter. Só em momentos específicos o departamento foi reativado e ganhou investimentos, motivados mais por espasmos de empolgação do dono e projeção de audiência do que pelo compromisso tão bem firmado na “constituição SBT de 1988”. 


Por isso, o jornalismo no SBT é de Silvio Santos, e pelo menos por enquanto, vai continuar vítima da boa vontade do chefe – já repararam que, rotineiramente, o primeiro e preferido alvo de cortes e demissões costuma ser o jornalismo? Apesar de soar conformista demais, o aviso dado por ele domingo passado nos ajuda a entender a situação: a vocação do SBT é divertir, eliminando então qualquer possibilidade de se indispor com políticos. Como reação, fica a indignação concretizada na fala de Karyn Bravo em resposta ao chefe: “Mas poxa, Silvio, a gente fez jornalismo!”

Em tempo: para continuar o assunto, na próxima semana mostro e discuto alguns vídeos bem ilustrativos da história e da situação do jornalismo do SBT. Até lá!

Referência:

ROCCO, M. Linguagem autoritária, televisão e persuasão. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.

*É jornalista mestrando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo e atualmente estuda a interação da emissora com seu público a partir da análise das vinhetas institucionais. Atualmente escreve artigos de opinião às quartas-feiras no SBTpedia. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com

Fonte: SBTpedia (www.sbtpedia.com.br)

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *