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Tribuna SBTpedia: Quem não viu vai ver: a nostalgia no SBT, por Rafael Fialho

Quem não viu vai ver: a nostalgia no SBT

Por Rafael Fialho* (rafaelbfialho@gmail.com)

“Mas de novo?” Essa é a pergunta que muita gente se faz ao ver as “novidades” que o SBT tem lançado nos últimos tempos, marcadas principalmente por reprises e remakes; mais do que um problema, acredito na estratégia como um caminho a ser seguido. Não é de hoje que o canal lança mão desse expediente, e não é o único a fazê-lo. Contudo, por que o resgate do passado no SBT ganha contornos diferentes, se tem provado que é uma alternativa eficaz? 


Mais batida que a programação é a crítica que se faz a ela; desde que surgiu, o canal é mal falado, xingado, negligenciado e mal visto, postura da imprensa especializada que faz eco até hoje, de maneira geral. E vêm da crítica os principais argumentos negativos em relação aos programas que o SBT reprisa, qualificando a emissora como a “TV mofo”. Até mesmo os aguerridos SBTistas, fãs que já não podem ser desconsiderados ao se falar do canal, têm se irritado com o flashback eterno que se assiste na tela.

 Algumas exibições de Maria do Bairro


O alvo mais recente é a novela Maria do Bairro, que veio inaugurar uma faixa às 14h e reacendeu o debate: vale mesmo a pena ver de novo? Até agora, os números de audiência são pouco conclusivos, mas chamou a atenção a estratégia de anunciar a sétima reprise da novela utilizando a linguagem dos memes da internet. Em termos de repercussão, deu certo, e pelo menos na internet todo mundo já está sabendo: a catadora voltou.

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Pode-se acusar a escolha como falta de criatividade, busca por uma opção barata ou simples descuido, mas independente do motivo, esse é mais um passo para a consolidação do SBT como “o canal Viva da TV aberta” – alcunha que já foi dada em algumas ocasiões. E isso seria, de fato, um problema? A meu ver, não.
Ao reprisar ou refazer algumas produções, o SBT dá a oportunidade de conhecermos novelas e programas ou aposta na nostalgia de resgate de público – eu, por exemplo, só pude conhecer Maria do Bairro na reprise de 2004, e assisti a todas as outras, desde então. É o que o slogan de Silvio Santos diz: “Quem não viu, vai ver; e quem já viu, vai ver de novo”. Tomemos como exemplo o remake de Carrossel: apostou-se que os pais, que quando crianças acompanharam a trama, seriam capazes de estimular seus filhos a assistirem à novela – foi o que aconteceu, o que fez a emissora repetir a tática com Chiquititas. A volta da trama da Escola Mundial esse ano, considerada loucura no início, tem feito milagres televisivos e ocupado o posto de maior audiência do dia. Carrossel, aliás, parece ser mesmo um fenômeno: é a retomada de uma reprise cancelada de um remake de uma versão mexicana de uma novela argentina da década de 60. Entendeu? Nem eu.

Mesmo com decisões que sinalizam uma possível fragilidade institucional e principalmente artística, o SBT mostra o investimento involuntário na memória televisiva como produto cultural. Ao consumirmos matéria requentada, compramos, na verdade, os prazeres que os vínculos nostálgicos nos trazem. O conteúdo é ressignificado, e se antes tínhamos medo das maldades de Soraya Montenegro, por exemplo, hoje nos divertimos com seus barracos. 


E não são poucas as investidas em programas que relembrem o passado: tivemos Rei Majestade, a volta do Viva a Noite, Sabadão, reprises e releituras de novelas, além de quadros como Parece que foi ontem ou Procurando tu ou a faixa de reprises Quem não viu vai ver, que pode voltar a qualquer momento. O que dizer então de Chaves, há mais de 30 anos com os mesmos episódios no mesmo canal? 


Tudo isso contribui para que se forme uma ideia do SBT como um “oásis” televisivo. Lugar do tradicional, daquilo que não muda, a “família brasileira” encontra na grade de programação de Silvio Santos uma alternativa às “modernidades” que os outros canais insistem em incutir em suas produções. Esse tem sido apontado como um dos motivos para o sucesso de Cúmplices de um Resgate, Carrossel e Os Dez Mandamentos, na Record: o público parece querer novelas como as de ontem.

Dessa forma, parece haver um movimento de circularidade da programação, que sendo intencional ou não, causado pelos mais diversos fatores (falta de recursos para produção de inéditos, ordens de Silvio Santos, tentativa de obter audiência de modo rápido), forja uma imagem que dota o SBT de fortes ligações com o passado, a memória e com a história de cada telespectador. Isso porque ao rever algum programa, o público revê sua própria trajetória – o que estava acontecendo em suas vidas quando uma novela passava no canal – e cria laços com o canal. Não por acaso, diariamente aparecem no Facebook, nos grupos relativos à emissora, vários posts pedindo a volta de séries, novelas e programas. 


Contribui ainda para isso a própria atuação de Silvio Santos, que acena como uma espécie de cristalização dos valores do SBT, garantindo que, por mais que 34 anos tenham se passado, ele continua “cuidando” das tradições do canal, assegurando a preservação e o resgate de produtos antigos, mas atemporais – como a série I Love Lucy, que devia ter sido testada por mais tempo. Silvio sempre foi a figura principal de sua empresa, assim, assistir ao SBT surge como quase uma “herança” de família. 


O crítico de TV Mauricio Stycer é um dos que notaram esse investimento na memória, responsável por dotar o SBT de um “espírito alegre, mas anacrônico”:

As grandes atrações da história do SBT, desde Silvio Santos a Gugu Liberato, de Hebe Camargo e Ratinho à “Praça É Nossa”, transmitem esta sensação – a de uma emissora realmente feliz, mas deslocada no tempo […]. Parece claro que há não apenas público, mas mercado interessados num tipo de programação mais simples, sem o mesmo acabamento oferecido pela concorrência e que produz o efeito de deslocar o espectador no tempo (STYCER, 2012).

Nesse sentido, esta pode ser uma alternativa frente às constantes mudanças da televisão, já que

A ex-TVS está presente na memória de muita gente – cada um teria um programa ou uma história diferente para contar, uma memória querida, um momento de cumplicidade com a telinha. Quando o SBT se refere a si mesmo como a TV mais feliz do Brasil, pode ser que não estejam brincando, ou apenas fazendo marketing […]. Talvez esteja neste carinho a força para que o SBT se reencontre consigo mesmo, que ache o caminho da retomada (GARCIA, 2011).

Assim, se o SBT muitas vezes não pode competir com outras emissoras em termos de técnica, recursos e elenco, a memória afetiva e a nostalgia acenam como um diferencial. Talvez seja por isso que embora não angarie mais a audiência de décadas passadas, o canal continua obtendo comprovada popularidade. 


Cabe agora à emissora encontrar melhores maneiras de instrumentalizar os afetos da audiência a partir da memória. Promover campanhas, realizar quadros tipo Video Show, incentivar a participação via redes sociais, fazer um site a la Memória Globo são apenas algumas sugestões, que se bem executadas, podem fazer do SBT um canal vintage mesmo em meio às mudanças pelas quais a televisão vem passando.

*É jornalista mestrando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo e atualmente estuda a interação da emissora com seu público a partir da análise das vinhetas institucionais. Atualmente escreve artigos de opinião às quartas-feiras no SBTpedia. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com

Fonte: SBTpedia (www.sbtpedia.com.br)

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