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Uma nota pela igualdade: como as mulheres têm usado a música contra o machismo


A cantora e atriz pernambucana Clarice Falcão, do Porta dos Fundos, riscou a cara de vermelho. Com um dos principais símbolos da vaidade feminina, o batom, convidou cerca de 60 mulheres para uma versão da canção Survivor, da Destiny’s Child, banda que revelou a declaradamente feminista Beyoncé.

Clique no ícone vermelho sobre as imagens para assistir aos clipes

“Pensamos que ia ser bonito lidar com a contradição do batom vermelho. Tenho o direito de botar como quiser e de não botar. Ser mulher é muito difícil. No Porta, ninguém comenta se os meninos engordaram, estão bonitos ou feios. Com as meninas, é se comeriam ou não, está gostosa ou não, deve estar grávida, emagreceu, deve ser porque acabou o namoro”, desabafa. A recifense alcançou 1,7 milhão de pessoas no YouTube, recebeu elogios, mas também despertou incômodo.

“Uma boa lavagem de roupa resolveria o problema dessas malucas”, reclamou, na página do Facebook do Diario de Pernambuco, um internauta acostumado e acalentado por personagens como Amélia, a tal mulher de verdade exaltada por Mário Lago e Ataulfo Alves – e já ironizada pela roqueira (e feminista) baiana Pitty na canção Desconstruindo Amélia.


“Há músicas em que percebemos o machismo banalizado, aquele que praticamente passa batido, está naturalizado, e muitas vezes travestido de romantismo, mas é possível encontrar músicas que trazem afirmações de autonomia das mulheres”, avalia a jornalista recifense Isabela Senra, autora da dissertação Canções vadias: Mulheres, identidades e música brasileira de grande circulação no rádio.

A submissão feminina está tão arraigada socialmente que até Chico Buarque, chamado de intérprete da alma feminina, deslizou em Cotidiano (“Todo dia ela faz tudo sempre igual”), apesar de satirizar a obediência em Mulheres de Atenas. Defensor do respeito à mulher e ao negro, o rapper paulista Emicida despertou indignação com Trepadeira (Dei todo amor, tratei como flor, mas no fim era uma trepadeira). Em texto nas redes sociais, ele negou haver machismo nos versos.


Mulheres oprimidas, verbal e fisicamente, são maioria no cancioneiro, um reflexo da realidade vivida no Congresso Federal (onde tramita projeto de lei que dificulta o acesso ao aborto em caso de estupro), no mercado de trabalho (homens ganham cerca de 25% a mais, de acordo com o IBGE) e nas ruas (vítimas de abordagens invasivas, um mote para a campanha online #PrimeiroAssédio, deflagrada para publicizar relatos de abusos).

Na vida real e nas composições, as agressões interrompem vidas, como ressaltado no clipe Naija, da rapper Lurdez da Luz. Quase 5 mil mulheres são assassinadas no Brasil a cada ano e 179 relatam agressões através do telefone 180 por dia. Não à toa, a luta pelos direitos da mulher permeia a produção fonográfica e acompanha o fortalecimento do debate. Elza Soares tenta estimular a denúncia em Maria da Vila Matilde, faixa do primeiro disco de inéditas da carreira, enquanto Alcione disparou “Na cara que mamãe beijou, Zé Ruela nenhum bota a mão”, no samba Maria da Penha.


Agressões e dificuldades enfrentadas cotidianamente pelas mulheres inspiram as músicas do pernambucano Poder Feminino Crew, formado por garotas de 17 a 24 anos. “Temos amigos que passam por isso. A violência não é só física. Nossas músicas mostram a realidade nua e crua e que não vamos ficar caladas”, garante Bel Melo, de 19 anos.

Cantoras e compositoras de todos os gêneros têm feito barulho, literalmente. Baiana criada no Recife, Karina Buhr instiga as mulheres a não agir como capachos em Selvática. “É tudo tão natural pra gente nessa seara no machismo e do racismo que a gente se assusta com um monte de coisa quando passa a prestar atenção de maneira mais intensiva. Tem coisas totalmente absurdas em músicas antigas. Mas refletem um tempo, as de hoje refletem outro, a gente vai evoluindo junto. Demora muito, mas vai”, acredita Karina.

No disco homônimo recém-lançado, ela subverte a idealização de homem perfeito em Eu sou um monstro (“Hoje eu não quero falar de beleza/ Ouvir você me chamar de princesa”), estratégia já usada pela recifense Lulina, em Meu príncipe (“Meu príncipe arruma toda a casa/ Prepara minha comida/ Enquanto eu tô no botequim”), e por Karol Conká, em Que delícia (“Terminou? Agora lava a louça”).  A rapper curitibana será atração do Baile da Proibida, junto com Anitta, no dia 9 de janeiro.

REFLEXÃO
Músicas cujas letras questionam o machismo contra a mulher na sociedade


No samba de breque, Elza interpreta uma personagem cansada dos maus tratos. “A mulher tem que ir para a rua gritar. Tem que participar de passeatas, tudo. O mundo está nas mãos da mulher. Nunca foi sexo frágil. Acho maravilhosa a força feminina”, defende. Ela já sofreu preconceito – “lógico” -, mas diz ser mais fácil atualmente: “Antes, não podia denunciar. Estava arriscado ir à polícia e ficar presa, ser chamada de louca”.
Em O defensor, um homem incentiva a mulher a denunciar o marido, do qual apanha, e largá-lo para morar com ele. Zezé di Camargo e Luciano chamam a atenção para o crime, mas reforça a ideia de fragilidade da mulher. Dois meses após o lançamento, Zezé, em meio às polêmicas da separação com Zilu, disse que “toda mulher feia merece ser traída” em uma brincadeira de mau gosto.
As irmãs Simone e Simaria (ex-Forró do Muído) descrevem um relacionamento com um rapaz que parecia “especial”, embora a família da garota sempre tenha desconfiado dele. Lançam luz sobre a questão da violência contra as mulheres – no caso, física e mostrada de forma explícita no clipe, visualizado mais de 7 milhões de vezes. Ao fim, incentivam: “Não se cale. Denuncie. Ligue 180”.
A morte da funkeira Amanda Bueno, da Jaula das Gostosudas, assassinada pelo noivo em abril, foi lembrada por MC Marcelly em Não se brinca com mulher. Na música de clipe forte, ela critica o agressor e tenta abrir os olhos da vítima. Desliza ao afirmar que a amiga está errada, defender que ela “não é uma qualquer” – como se outras merecessem – e até na vingança proposta – “te ver com outra pessoa”.
Os oito versos do frevo do pernambucano Capiba cantado pelos foliões ébrios dos carnavais desde os anos 1970 são bastante didáticos é adequados à festa. A vanguarda da letra miúda também retrata a mudança de comportamento da mulher na sociedade e sinaliza a inserção no mercado de trabalho, ao dizer que acabou o tempo em que elas só espantavam galinhas e cuidavam dos filhos.

AGRESSÃO
Músicas cujo teor, mascarado por melodias contagiantes, é considerado agressivo às mulheres


A produtora Furacão 2000 foi multada em R$ 500 mil pela Justiça Federal do Rio Grande do Sul, por incitar a violência na música cantada por Naldinho & Bela. “A sanção faz com que se pense duas vezes antes de cometer a agressão. Dificilmente modifica a alma da pessoa, mas ele tende mudar o papel social, engolir o preconceito”, analisa o historiador Marcos Pires Cordeiro, da Unesp, autor do artigo A naturalização da violência contra a mulher na música popular.
Antes de se dedicar ao golpel, Rodolfo era explorador do duplo sentido como compositor e vocalista do grupo de rock Raimundos e incentivou a relação com adolescentes em Me lambe. No início, promete respeitar a idade – Se ela der mole eu juro que eu não faço nada/ Dá cadeia e é contra o costume – mas desiste logo na segunda estrofe. Preso, alfineta a luta de classes: “o pai dela era doutor”.
A dupla de brega-funk Metal e Cego respondeu a inquérito da Polícia Civil de Pernambuco aberto a pedido do Ministério Público estadual. O foco era investigar o estímulo à pedofilia e o descumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente nas letras de Posição da rã e Gostou, novinha?. Em São Paulo, MCs mirins como Pickachu e Pedrinho foram impedidos de fazer shows devido ao teor sexual das canções.
Uma das composições mais famosas de Zeca Pagodinho, Faixa amarela é uma declaração de amor, mas já adverte sobre a violência que o eu-lírico pode vir a cometer. No ano passado, Martinho da Vila fez uma alteração durante a gravação de Sambabook: Zeca Pagodinho. Em vez de vou lhe dar, cantou sem lhe dar. Durante o lançamento de Ser humano, em abril, ele reclamou da violência de gênero e do feminicídio.
O problema nem é chamar a mulher de indigesta. Afinal, “chantagista”, talvez fosse mesmo. Mas entre ser desagradável e merecer um tijolo na testa há uma distância abissal. Noel Rosa não percebeu isso, assim como nos versos “O maior castigo que eu te dou/ É não te bater/ Pois sei que gostas de apanhar”, escritos em 1937.

ENTREVISTA // MARIA AUREA SANTA CRUZ (autora do livro A musa sem máscara: Imagem da mulher na música popular brasileira)

Como o machismo se manifesta na música do início do século 20 e agora?
A música popular é um veículo muito poderoso e fala sobre o imaginário das pessoas. Tudo que acontecia em cada década era cantado. Naquele tempo, as mulheres não tinham espaço para fazer música, como para trabalhar, andar na rua, eram objetos possuídos pelo homem. O machismo se manifestava de uma forma romântica, fazendo delas santas, incorpóreas, estrelas e usando o marianismo da igreja pra dominá-las. Hoje, não tem isso. Mas, quando são machistas, é barra pesada, como Faixa amarela, de Zeca Pagodinho.

O que mudou na abordagem?
Outro paradigma está sendo quebrado, porque temos feministas militantes que são compositoras. Elas falam sobre o aborto, todo tipo de violência, modo de viver, denunciam, reivindicam direitos. Antigamente, as mulheres falavam, mas não eram tão fortes. As músicas de hoje vão direto na ferida, não têm censura, usam os mesmos termos e movimentos que os homens usam para falar mal delas. E mesmo as mulheres machistas hoje não pedem mais para apanhar.

Qual a importância de manter a vigilância com relação às músicas que incitam a violência?
Eu não sou a favor de nenhuma censura, mas acho que a vigilância tem que ser civil. Nós mesmas temos que vigilar, que é o que essas compositoras estão fazendo, denunciando, respondendo com músicas. Como sou da geração da época da ditadura, sou contra qualquer proibição. A própria sociedade está modificando e respondendo.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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