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A história da perna cabeluda

O repórter apressado, nervoso, entrou na redação do jornal. Colocou o papel na máquina, mas estava de tal forma agitado que não sabia como escrever. Percebendo sua indecisão, o editor procurou saber o que estava acontecendo. Gago, voz presa na garganta, precisou de alguns segundos, ainda, para ordenar as palavras. “A perna cabeluda está em Olinda”, disse, esperando a reação do chefe. Uma pessoa fora agredida, levara três pernadas no pescoço, uma na barriga, sangrando fora socorrida por populares e estava, agora, no Hospital da Restauração. E não fora a única. Invadira também a residência de uma bela moça, não respeitara pai nem mãe, com uma rasteira derrubou-a, ali mesmo, no meio da sala, diante dos olhos estarrecidos da família, que não sabia como reagir, praticou agressões.

Foi um corre-corre na rua, gente chamando a polícia, mulher chorando abraçada com o marido, irmãos e parentes, as mais piedosas e religiosas rezando nos pés dos santuários. A pobre moça, coitada, gemia, gritava, pedia proteção. Não era fácil, no entanto, agarrar a perna. Ágil, saltava para todos os lados. Teve um rapaz, herói anônimo, que ainda pulou a janela da residência, mas nada pôde fazer porque logo recebeu uma violenta pernada na cabeça, caiu sangrando, batendo, quase morto. A perna cabeluda somente se deu por vencida quando foi escutado o gemido do carro da polícia. Saiu correndo pela porta dos fundos, meteu-se numa rua estreita, atravessou um beco e desapareceu num matagal. Os homens da rua, penalizados com o choro da moça, formaram logo uma “coluna”, armaram-se de facas, revólveres, pedaços de paus, saíram em sua perseguição. Nessa hora os policiais já vinham chegando.

Juntaram-se aos guerreiros, saíram em busca da perna criminosa. Foi que um guerreiro mais afoito, que corria na frente de todos, armado com um revólver, uma peixeira e um canivete, deu grito, caiu sangrando, o corpo todo dolorido. No escuro, não pôde ver a perna cabeluda escondida atrás de uma moita. Vingativa, não apenas deu-lhe uma rasteira, como chutou sua boca e ficou pulando sobre seu peito. Os outros homens correram em seu socorro, mas havia a surpresa: confundindo-se com a escuridão, a perna pulava mais do que o saci pererê, agilíssima, de um lado para o outro, cai aqui, cai acolá, “ela está aqui”, “ela está ali”, um caindo por cima do outro, cabeça lascada, braço quebrado, barriga rasgada. Pior foi quando começou a chover: trovões, relâmpagos, muita água, sangue correndo na lama. Confundindo-se, os guerreiros agrediam-se, esmurravam-se. Um fuzuê dos diabos. Quando a perna decidiu desaparecer, ouviu-se uma gargalhada medonha, três soluços e um arroto.

Derrotados, os guerreiros retornaram para casa, feridos, alguns em macas, os policiais jurando que ela seria presa ainda naquela noite, todo contingente seria acionado, não haveria escapada. Quando entraram na rua iluminada, as mulheres esperando nas janelas – umas chorando, outras conversando agitadas – parecia uma procissão de desgraçados. O socorro foi logo providenciado. Mesmo no carro da polícia, os mais feridos foram conduzidos para o hospital. Parecia o fim do mundo. Correu um boato na rua que era o início do Apocalipse, era preciso começar a rezar com muito fervor, pois uma multidão de estrelas já se precipitava do céu, e uma legião de mortos vestia os seus corpos para sair dos túmulos, cobrando promessas aos vivos. As moças choravam, os rapazes corriam para a igreja, queriam se confessar. Teve cabeludo que raspou o cabelo, afrouxou as calças e vestiu terno. As mulheres cobriam as barriguinhas, encompridavam os vestidos.

Mas foi que a agitação cresceu mais ainda, quando já se imaginava que era chegado o momento de dormir sossegado. Os gritos de uma mulher foram escutados, misturados com uma pancadaria, voz de homem furioso berrando. De repente, a mulher foi atirada na rua, bateu com a testa no chão, quebrou a cabeça. O homem furioso apareceu com um revólver na mão. Foi logo contando: chegara em casa cansado, louco para dormir, e quando entrou no quarto, o que viu? Ao lado da mulher, estava deitada a perna cabeluda, morrendo de rir. Perdeu a paciência, puxou a mulher pelos cabelos, esfregou-a na parede. E a perna gargalhava, dava saltos em cima da cama, dançava samba, rumba e frevo. Insatisfeita, ainda deu-lhe um chute na barriga e saiu correndo. Ninguém mais podia se conformar, era mesmo o fim do mundo. Mesmo os mais afoitos não se decidiam a perseguir a malvada. Socorreram, no entanto, a mulher ferida. Vários carros da polícia apareceram para proteger o povo da rua. Os policiais traziam metralhadoras, canhões, revólveres, gás lacrimogêneo, o diabo. Armaram esquemas, trancaram as ruas, esquinas, vielas. Desistiram, porém, quando surgiu a notícia, ninguém sabe quem deu: a perna cabeluda estava pintando o diabo em Boa Viagem.

– Raimundo Carrero – 1 de fevereiro de 1976

Raimundo Carrero
Natural de Salgueiro, onde nasceu em 20 de dezembro de 1947, Raimundo Carrero de Barros Filho trabalhou no Diario de Pernambuco no período de 1969 a 1991, onde foi repórter, redator de primeira página, chefe de reportagem, crítico literário e editor.

Hoje escritor de renome nacional, criou no jornal uma verdadeira lenda urbana: a história da perna cabeluda.

Foi num domingo, no 1º de fevereiro de 1976, que a personagem surgiu para praticamente ganhar vida própria.

O “romance policial”, como o cabeçalho do texto ressaltava, foi publicado no tabloide Domingo, que reunia reportagens especiais e temáticas, além de textos de ficção, como o de Carrero.

Ganhou status de lenda uma obra de ficção que tinha declaradamente um pé no humor.

Em pleno tempo de ditadura, as emissoras de rádio transformaram a criatura de papel de Carrero em carne, osso, pelo e unhas.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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