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Confira os destaques do ano na área científica

Do espaço, veio um dos maiores destaques da ciência em 2015. Em março, o mundo parou para ver as imagens de Plutão produzidas pela sonda New Horizons, que revelou aspectos inéditos desse pequeno planeta do Sistema Solar. As fotografias enviadas à Terra mostraram, entre outras coisas, um círculo nebuloso que pode confirmar uma hipótese lançada há 25 anos pelos astrônomos: existe atmosfera no planeta-anão. A viagem interplanetária da New Horizons foi considerada, pelos leitores da revista Science, o principal feito científico do ano. Já a equipe editorial da publicação elegeu, em primeiro lugar, a tecnologia de edição de genoma, que poderá, no futuro, erradicar doenças hereditárias e incuráveis.

O passado também mereceu estar na lista elaborada todos os anos por cientistas e jornalistas especializados. O sequenciamento do DNA do fóssil mais antigo já detectado na América do Norte e a descoberta de um novo ancestral da humanidade na África do Sul foram incluídos no ranking. Para 2016, a revista faz suas apostas: deverão ser destaque as pesquisas sobre domesticação de cães, o lançamento de um satélite francês e as investigações sobre ondas gravitacionais.

Corta e cola

Ao retirar partes defeituosas do genoma, pesquisadores estão conseguindo eliminar mutações em células animais, um importante passo para a erradicação de doenças genéticas no futuro. Foto: Luciene Sarabando/Divulgação
Ao retirar partes defeituosas do genoma, pesquisadores estão conseguindo eliminar mutações em células animais, um importante passo para a erradicação de doenças genéticas no futuro. Foto: Luciene Sarabando/Divulgação

“É como um canivete suíço que corta o DNA em um local específico e pode ser usado para introduzir uma série de alterações no genoma de uma célula ou organismo.” A definição da técnica é da bióloga Jennifer Doudna, da Universidade da Califórnia em Berkeley, uma das mais premiadas cientistas na área de edição genética. Esse método, desenvolvido em 2007, já apareceu como destaque do ano em edições anteriores da revista Science. Mas, agora, foi eleito “o” feito de 2015. Se, antes, o chamado Crispr era uma promessa, ele deslanchou nos últimos 12 meses, com uma série de artigos descrevendo aplicações práticas em laboratório.

Ao retirar partes defeituosas do genoma, pesquisadores estão conseguindo eliminar mutações em células animais, um importante passo para a erradicação de doenças genéticas no futuro. Um polêmico avanço em abril foi a divulgação de uma pesquisa chinesa, da Universidade Sun Yat-sen, que, pela primeira vez, editou o genoma em embriões humanos (foto). Apesar de ter suscitado críticas e apelos por regulamentação ética, o experimento demonstrou que, um dia, será possível corrigir o DNA defeituoso e, assim, erradicar uma série de enfermidades graves e letais. Em um editorial, a editora-chefe do grupo Science expressou esperança de que “em dois anos, o Crispr terá alcançado, na biologia celular, o mesmo nível de excitação e otimismo provocado pela imunoterapia para pacientes com câncer.”

O ano dos anões

Planetas-anões foram bastante explorados em 2015. Foto: AFP
Planetas-anões foram bastante explorados em 2015. Foto: AFP

Eles nunca estiveram tão em evidência. Em março, o planeta-anão Ceres, maior objeto do cinturão de asteroides, foi alvo da missão Dawn, da Agência Espacial Americana (Nasa). Dois meses depois, foi a vez de Plutão (foto) ser explorado pela sonda New Horizons. A aproximação inédita — a nave ficou a apenas 12,5 mil quilômetros da superfície do planeta — causou comoção em todo mundo e, na opinião dos leitores da Science, que participaram de uma eleição no site da revista, foi o grande marco científico do ano. Eles não estão sozinhos nessa opinião. O físico britânico Stephen Hawking considerou a viagem a Plutão um “salto gigantesco” no estudo do Cosmos. “Agora, o Sistema Solar estará ainda mais aberto a nós, revelando os segredos do distante Plutão”, escreveu, em sua conta no Facebook.

Avô da América

Homem de Kennewick foi desenterrado para investigação de seu material genético. Foto: Elaine Thompson/AFP
Homem de Kennewick foi desenterrado para investigação de seu material genético. Foto: Elaine Thompson/AFP

Com 8,5 mil anos, ele pode ser considerado o avô dos americanos. Encontrado em julho de 1996 por espectadores de uma corrida de hidroaviões sobre o Rio Columbia, na cidade norte-americana de Kennewick, o fóssil milenar (foto) tem sido, desde então, alvo de controvérsia. Cinco tribos indígenas foram aos tribunais para lutar pelo direito ao funeral de seu antepassado. Arqueólogos e antropólogos, contudo, queriam estudar o esqueleto. A ciência venceu a briga, e o Homem de Kennewick foi desenterrado para investigação de seu material genético. Os pesquisadores da Universidade de Washington sequenciaram o genoma e concluíram que Ken, como é chamado, de fato é ancestral dos povos indígenas da América. “Nós constatamos que ele é mais ligado aos índios americanos nativos do que a qualquer outra população do mundo”, disseram, em um estudo na Nature. Ainda assim, ele não descansou em paz. Está no museu da universidade, enquanto os índios não voltam a exigir, na Justiça, o sagrado direito ao funeral.

Replicar para confirmar

Nos últimos anos, as ciências psicológicas sofreram alguns baques. Como estudos na área geralmente envolvem um pequeno número de participantes, em 2011, alguns cientistas acusaram as pesquisas da área de serem fracas e pouco confiáveis. No ano passado, 100 estudiosos do campo correram para tentar replicar 27 investigações-chaves, algo comum em qualquer ciência, e chegaram a uma constatação preocupante: apenas 39% passaram no teste. O fracasso motivou inovações nas pesquisas psicológicas. Este ano, editores de jornais comportamentais anunciaram que a publicação de replicações diretas deverá se tornar uma rotina. Os autores também terão de divulgar um protocolo para que os colegas possam repetir os testes e, assim, impulsionar uma nova era nos estudos.

Imunes contra o ebola

Depois da epidemia de ebola que assolou países africanos em 2014, a corrida para desenvolver vacina eficaz contra o vírus letal foi acelerada. Até agora, não havia nada contundente, mas testes com uma substância imunizadora desenvolvida pela Agência de Saúde Pública do Canadá e adotada pela farmacêutica Merck tiveram resultados animadores. Em julho, um artigo publicado na revista The Lancet mostrou que a taxa de proteção da substância fica entre 75% e 100%. A vacina ainda não foi aprovada pelas agências regulatórias, mas especialistas acreditam que isso é questão de pouco tempo: até que um novo surto ameace o mundo.

Bizarrice quântica

É uma ideia tão bizarra que, no próprio meio científico, é conhecida como “esquisitice quântica”: medir a propriedade de uma partícula quântica, como um fóton, pode determinar, instantaneamente, o estado de outra partícula subatômica, ainda que esteja a milhares de anos-luz. Este ano, físicos alemães conseguiram demonstrar que isso é possível. Em um experimento com dois elétrons que estavam a 1,3km de distância um do outro, os pesquisadores da Universidade de Delft notaram que essas partículas, componentes de minúsculas frações de diamante, influenciavam o estado da outra, sendo que estavam em lados opostos do câmpus. Os cientistas mostraram que Albert Einstein, para quem isso jamais seria possível, errou.

Venha para a luz

Homo naledi é nova espécie do gênero humano. Foto: Brett Eloff/AFP
Homo naledi é nova espécie do gênero humano. Foto: Brett Eloff/AFP

Por cerca de 2 milhões de anos, ele esteve envolto pelas trevas, em uma caverna a 50km de Joanesburgo, na África do Sul. Até uma equipe de antropólogos dar à luz o Homo naledi (foto), uma nova espécie do gênero humano. Trata-se de um ser como nunca se viu desde que os primeiros fósseis começaram a ser escavados em sítios arqueológicos. Uma criatura híbrida, com características humanas e de australopitecos; um ancestral primitivo e moderno, que ainda vai ocupar, por muito tempo, a mente dos pesquisadores, que sequer sabem estimar sua idade. “O Homo naledi ainda não revelou todos os seus segredos”, contou o antropólogo Lee Berger, um de seus descobridores.

Tomografia da Terra

Em setembro, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley divulgaram o primeiro mapa tridimensional do interior da Terra. Para reconstituir o que há lá embaixo, eles usaram uma tecnologia muito conhecida dos médicos: a tomografia computadorizada. Mas, enquanto a técnica utilizada na medicina empregou raios x para escanear o corpo, os sismólogos tiraram o retrato do manto terrestre seguindo os caminhos das ondas sísmicas geradas após 273 fortes terremotos que abalaram o mundo nos últimos 20 anos. Além de oferecer um quadro inédito da camada que fica entre a crosta e o núcleo, eles explicaram que o mapeamento ajudará a entender melhor os terremotos e, quem sabe, evitar tragédias.

Revolução anatômica

Esta descoberta vai mudar os livros de biologia e anatomia. Pesquisadores da Universidade da Virgínia constataram que o cérebro é diretamente ligado ao sistema imunológico, por meio de veias até então desconhecidas. O cientista Antoine Louveau desenvolvia um método para cortar as meninges — membranas que cobrem o cérebro — de um rato em um único pedaço, para facilitar o estudo, quando percebeu que as células imunológicas haviam atingido as meninges por meio de veias. Depois de testes, ele descobriu que esses vasos estavam ligados ao sistema linfático, que é parte do sistema imunológico. A descoberta dessas novas estruturas pode ter consequências nas pesquisas de doenças com componentes imunológicos, desde o mal de Alzheimer até a esclerose múltipla, além do potencial de ampliar os tratamentos existentes para essas doenças.

Enxerto para a cura

Pesquisadores identificaram o sistema que as plantas usam para a fabricação de princípios ativos e o enxertaram em outra espécie. Foto: PW Cleome/Divulgação
Pesquisadores identificaram o sistema que as plantas usam para a fabricação de princípios ativos e o enxertaram em outra espécie. Foto: PW Cleome/Divulgação

Há três meses, pesquisadores da Universidade de Stanford anunciaram um método inusitado para continuar pesquisando princípios ativos em plantas, sem ameaçar a biodiversidade. Eles identificaram o sistema que elas usam para a fabricação das substâncias e o enxertaram em outra espécie. Dessa forma, foi possível reconstituir, em plantas comuns e não ameaçadas, o maquinário para produção de importantes ingredientes de medicamentos. A ideia é, futuramente, explorar essa tecnologia no trigo, um cereal que cresce abundantemente sob qualquer tipo de condição climática. No estudo publicado na própria Science, a engenheira química Elizabeth Sattely pesquisou o método na mayapple-himalai (foto), uma planta que demora para crescer e só existe naturalmente a 4 mil metros acima do nível do mar, na montanha asiática que dá nome ao vegetal. Ela produz o etoposide, princípio ativo utilizado no mundo todo para inibir o crescimento de diversos tumores, como câncer de pulmão e leucemia. “Meu interesse realmente é identificar novas moléculas e padrões de plantas que são importantes para a saúde humana”, disse Sattely.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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