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Corrupção não é eterna

Foto: Pedro Franca/Agência Senado
Foto: Pedro Franca/Agência Senado

O Brasil não é um país condenado à corrupção para sempre.  Não é nossa formação histórica, não é o “sangue do brasileiro”, não é algo que tenha a ver com um jeito brasileiro de ser.  A corrupção é um problema que não tem ideologia, não é de esquerda, de direita, nem de centro; e um problema que também não escolhe país. Nações que hoje são tidas como intolerantes a fraudes e irregularidades nem sempre foram assim. Os Estados Unidos, por exemplo, enfrentavam no final do século 19 problemas semelhantes aos que temos hoje: uso de cargos públicos para obter propinas; casos de corrupção em grandes obras; irregularidades via apadrinhamentos políticos. Mas uma série de medidas aplicadas durante décadas no país acabaram provocando uma transformação radical no problema.

No mais recente Índice de Percepção da Corrupção, divulgado pela Transparência Internacional, os EUA ocupam o 17º lugar entre 175 países. Só para efeito de comparação, no mesmo Índice o Brasil aparece na 69ª posição. Não quer dizer que, nestes países que venceram a corrupção, ela tenha sido extinta. Atos de corrupção acontecem no mundo inteiro; o problema, no entanto, é quando em vez de ocasionais as práticas tornam-se corriqueiras, sistêmicas, como tem ocorrido no Brasil. Mas a enxurrada de escândalos que temos visto ultimamente, envolvendo agentes públicos e privados, e também as práticas individuais em nosso dia a dia (furar filas, querer subornar um agente de trânsito para escapar de uma multa, acreditar que querer levar vantagem em tudo é normal etc.), tudo isso junto não significa que devamos encarar a questão sob a perspectiva do pessimismo.

Na verdade, posta de lado a nosso indignação com tudo isso, o fato é que há razões para observamos o cenário com otimismo. Já se percebe, por exemplo, que a intolerância com práticas corruptas é algo que começa a disseminar-se por todo o país, de baixo para cima (ou seja, tomando o cidadão como base) e de cima para baixo tendo as instituições como base). Não parece algo passageiro, movido apenas pelas querelas políticas. Parece sim um fenômeno que aos poucos vai enraizando-se, e avançando, e se consolidando. Não sejamos ingênuos de esperar que uma transformação radical neste sentido aconteça num espaço curto de tempo, apenas naquele período em que os escândalos estão diariamente nas manchete. Nos EUA a mudança demorou décadas. Consolidou-se após a implantação de normas de regulação para diversos setores (de alimentos, bancário, medicamentos etc.). A trajetória de avanço foi possível graças à ação da imprensa, dos cidadãos mobilizados e de instituições fiscalizadoras em diversos níveis.

É um cenário que se assemelha ao que temos hoje no Brasil, com uma ação vigorosa do Ministério Público, da imprensa, do judiciário, da mobilização popular. E tendo pela primeira vez em nossa história a investigação (e até punição, em primeira instância) de pessoas anteriormente tida como intocáveis, os milionários, os responsáveis pelos grandes grupos econômicos.

Quando se observa o que houve no impeachment de Fernando Collor (e não estamos aqui comparando o governo Collor com o de Dilma Rousseff, ou um presidente com o outro, mas apenas fazendo uma comparação histórica), o que se vê é que naquela época todo o furor investigativo concentrou-se nos que beneficiários da corrupção, não nos corruptores.

Fraudes e irregularidades não são exclusividade de um determinado governo, nem muito menos é algo recente no Brasil. Mas não há dúvidas que o que estamos vivendo agora é algo inédito. Torçamos para que a verdade se imponha, que o direito de defesa de todos seja respeitado, que não se tome “acusado” como sinônimo de “culpado”, que ao fim de tudo os culpados sejam punidos – e, sobretudo, que essa crise de hoje nos deixe o legado de ser o início de uma transformação que nos faça vencer a corrupção.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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