Edith Piaf, da sarjeta à glória

 (Foto: Coleção Everett/Divulgação )

Uma cidade não pode ser inesquecível apenas a partir daquilo que a vista alcança ou as mãos tocam. Também tem que entrar pelos ouvidos das pessoas, tirando-as da pressa e do automatismo do cotidiano através da voz dos seus artistas. Foi assim que a música de uma menina de 15 anos, mirradinha, feia e de expressão dramática começou a contribuir, a partir de 1930, para Paris ser eternizada na memória do mundo. Cantava pelas ruas, praças e boates de Pigalle, bairro que refletia a efervescência da Belle Époque, e com os trocados recebidos de passantes ia sobrevivendo em um bordel de Bernay (Normandia), dirigido pela mãe, Anetta Giovanna Maillard (1895-1945), uma ex-cantora de café por quem havia sido abandonada antes da morte da avó. Chamava-se Édith Giovanna Gassion e estaria completando 100 anos neste sábado, se não tivesse morrido em 11 de outubro de 1963, vítimada pelo excesso de álcool, drogas, tragédias e emoções fortes. 

Para trilhar o caminho da fama, gente com talento desmedido mas como nome pouco apropriado logo era obrigada a assumir nova identidade. Não foi diferente com a menina que chegou a perder a visão entre os sete e os oito anos e ao recobrá-la transformou-se em devota de Santa Teresa de Lisieux, a quem atribuiu o milagre. Virou Edith Piaf. De “pardal” a lenda, o destino de Piaf foi marcado por faltas, abandonos, tragédias pessoais e reconhecimento incomum, que fez dela uma das maiores cantoras de todos os tempos. Em 1945, já sem ninguém da primeira família, fazia enorme sucesso com La vien rose, que no ano do fim da Segunda Guerra Mundial não saía da boca de milhares de pessoas espalhadas pela Europa. 

Descoberta em 1935 por Louis Leplée, dono do famoso cabaré Le Gerny’s, cantando na esquina da Rue Tryon com a Avenida Mac Mahon, em Pigalle, a cantora ascendeu junto com o rádio e teve na carreira a maior aliada para conseguir sua razoável coleção de casos amorosos. O amor sempre foi (desde os 17, quando se apaixonou pelo entregador Louis Dupont, pai de sua única filha, Marcelle, falecida com menos de 3 anos) salvação e morte para Edith. De pugilista a ator, compositor e cantor, envolveu-se com muitos, tirando de cada paixão o combustível que alimentava sua arte. Mas pagava preço muito alto à medida que se expunha a vexames e tragédias nascidas do próprio desejo. Sofreu desmedidamente, por exemplo, com a morte do lutador Marcel Cerdan, a quem suplicou para ir vê-la, num dia de outubro de 1949, em Nova York, onde faria show. O encontro nunca chegou a acontecer porque o avião no qual a inspiração de sua premonitória Hymne a amour viajava caiu nos Açores. Piaf martir

izou-se durante longo tempo, sentindo-se culpada. 

Sucesso combinava com álcool, fumo, drogas fortes, paixões intensas, poucas horas de sono, alimentação desregrada, acidentes de carro (foram dois) … E a soma de todos os excessos acabava por obrigá-la a períodos de repouso aos quais nem sempre obedecia. A necessidade de estar no palco falava mais forte do que as ordens ditadas pelo câncer de fígado. Mesmo quando a doença e os esforços para continuar fazendo sucesso transformaram a vida em um fardo dos mais pesados, ela dizia não se arrepender de nada. No fim, estava ao lado do último marido, o grego Théo Sarapo, 20 anos mais novo, que terminou se suicidando com pouco mais de 30. Ao lado dele, o bilhete com a frase “Por toi, Edith, mon amour”. A canção Non, Je Ne Regrette Rien (Não, eu não lamento nada) bem que serviria para ambos: viveram como se não tivessem existido antes deles. 

“Não! Não lamento nada

Pois minha vida, 

Pois minhas alegrias, 

Hoje, começam com você!”

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *