Escândalos na política transformam Brasil no teatro do absurdo

Dramaturgos, cineastas, escritores e roteiristas têm muito em que se inspirar nos políticos brasileiros. Desde o início do ano, as nobres excelências, seja no Congresso, no Palácio do Planalto, nos tribunais e até mesmo nas prisões, mostram que não há ficção que supere a vida. Só a realidade brasileira conseguiu produzir, em um único roteiro, atos que beiram o absurdo, o inacreditável, o impossível.

A peça da realidade traz em cena a presidente da República, Dilma Rousseff, em meio a um processo de impeachment e na mira dos principais tribunais do país. Já o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), envolvido na Operação Lava-Jato – o maior escândalo de corrupção do país, que investiga desvios de recursos na Petrobras –, tenta a todo custo evitar a cassação. E a todo custo inclui manobras, alianças e todo o seu conhecimento sobre as regras que regem o Legislativo.

Enquanto isso, parlamentares se engalfinham no plenário e o vice-presidente Michel Temer (PMDB) escreve uma carta ressentida à chefe da Nação. O então líder de governo no Senado Delcídio do Amaral (PT-MS) é preso oferecendo fuga e propina a um condenado na Operação Lava-Jato. Nesse roteiro da vida real, o ex-ministro do governo Luiz Inácio Lula da Silva José Dirceu, preso no processo do mensalão, volta para a cadeia suspeito de participar da Lava-Jato.

Também estão na prisão os empresários mais poderosos do país, donos de empreiteiras que pagaram propina e fraudaram licitações na Petrobras e em outras estatais brasileiras. E, para não dizer que faltou humor no espetáculo, a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, enfurecida com comentário sexista do senador José Serra (PSDB), joga vinho na cara do parlamentar.

Na plateia, brasileiros assistem atônitos ao tragicômico espetáculo protagonizado pelos representantes eleitos pelo povo, que constroem narrativa permeada de elementos do chamado teatro do absurdo. O movimento, surgido na Europa na década de 1950, levava para o palco personagens estranhos e bizarros, cenas que pareciam sem sentido e sentimentos como a incerteza e a falta de esperança. Mas aquilo que ocorreu na Europa era teatro. Ao Brasil, resta o absurdo…

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Teatro do absurdo

Essa denominação, cunhada pelo crítico e produtor Martin Esslin (1918-2002) na década de 1950, identifica um dos mais importantes movimentos teatrais europeus pós-guerra. Com o continente devastado, os dramaturgos levam essa atmosfera da degradação humana para suas peças. Eles apostam em sentimentos como solidão, perda, incerteza, apresentam personagens estranhos e constroem seus roteiros até mesmo com cenas non sense e ações incompreensíveis, que parecem não existir na vida real. Entre os principais representantes desse movimento estão Samuel Beckett, Harol Pinter, Arthur Adamov, Eugène Ionesco e Jean Genet.

O manobrista
Sinopse: No centro da Operação Lava-Jato, maior esquema de corrupção do país, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), abusa do poder, manobra votações e comissões para evitar a própria degola. Acusado de manter contas secretas na Suíça e receber US$ 5 milhões de propina, ele tenta a todo custo barrar na Câmara o pedido de cassação do seu mandato. Também protagoniza pedido de impeachment contra a presidente Dilma.

Poder ameaçado
Sinopse: Menos de um ano depois de assumir o segundo mandato, a presidente da República, Dilma Rousseff, enfrenta um pedido de impeachment, 23 anos depois de o país passar pelo mesmo processo. O pedido cita irregularidades como as pedaladas fiscais. Paralelamente, corre no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ação que pode impugnar o mandato da presidente e do seu vice, Michel Temer.

De líder a detento
Sinopse: Então líder de governo no Senado, Delcídio do Amaral (PT-MS) foi preso acusado de atrapalhar as investigações da Operação Lava-Jato. Gravações mostram que ele oferece propina e arquiteta até mesmo a fuga de um dos réus da operação. Desde 1988, é a primeira vez que um senador é detido no exercício do mandato.

Briga de rua em plenário
Sinopse: Tumulto, baixaria e até agressões físicas têm marcado as sessões na Câmara dos Deputados. Os parlamentares têm se exaltado e ultrapassado todos os limites do decoro e da ética nas reuniões que tratam sobre o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff e sobre o processo de cassação do presidente da Casa, Eduardo Cunha.

A cartada de Temer
Sinopse: Veio a público carta enviada pelo vice-presidente da República, Michel Temer, à presidente Dilma Rousseff em que enumera 11 razões que confirmam a desconfiança que o governo tem em relação a ele e ao PMDB. Na carta, que abalou a relação com o Palácio do Planalto, Temer diz ter sido um vice “decorativo” no primeiro mandato.

O retorno à prisão
Sinopse: Ex-ministro do governo Lula, José Dirceu teve seu nome envolvido nos dois maiores esquemas de corrupção do país. Foi preso em agosto, suspeito de participar de desvios na Petrobras. Ele cumpria prisão domiciliar pela condenação no processo do mensalão.

Vinho na cara
Sinopse: Em jantar de confraternização de Natal de políticos, a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, jogou vinho no senador José Serra (PSDB-SP), que a chamou de “namoradeira”. “Reagi à altura de uma mulher que preza sua honra. Todas as mulheres conhecem bem o eufemismo da expressão ‘namoradeira’”, escreveu Kátia.

Collor e o esquema
Sinopse: Depois de renunciar à Presidência da República, em 1992, e sofrer um processo de impeachment, o ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PTB-AL) foi acusado de participar do esquema de recebimento de propina na Lava-Jato. A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) aponta que ele teria recebido pelo menos R$ 26 milhões.

Milionários na cadeia
Sinopse: Os presidentes das maiores empreiteiras do país, entre elas a Andrade Gutierrez e a Odebrecht, foram presos por pagar propina e fraudar licitações da Petrobras. Oficialmente, a estatal petrolífera divulgou rombo de R$ 6 bilhões, mas a Polícia Federal calcula prejuízo muito maior.

No poder e no banco dos réus
Sinopse: Apesar de processos na Justiça e ameaça de cassação do mandato – que o obrigou a renunciar à presidência do Senado, em 2007 –, Renan Calheiros continua no topo do Poder Legislativo. Agora, o presidente do Senado é alvo de inquérito por envolvimento na Operação Lava-Jato.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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