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Filme com Lázaro Ramos transmite o impacto provocado pela música clássica

Cenas do filme ganham mais emoção graçaz às obras de grandes compositores. Fotos: Bia Lefevre/ Divulgação
Cenas do filme ganham mais emoção graçaz às obras de grandes compositores. Fotos: Bia Lefevre/ Divulgação

 
Em entrevista cedida ao Viver, o cineasta baiano Sérgio Machado revelou que foi convidado para dirigir Tudo que aprendemos juntos e não participou da idealização do projeto. Ele foi contratado para levar a história da Orquestra Sinfônica de Heliópolis ao cinema a partir da peça teatral Acorda Brasil, escrita pelo empresário Antonio Ermírio de Moraes, que mostra como a música clássica ajudou a transformar a vida dos adolescentes de uma comunidade de baixa renda dominada pelo tráfico. O que poderia resultar em um produto institucional, entretanto, ganhou verdade emocional graças um processo de imersão pessoal desenvolvido pelo diretor baiano.

Machado conseguiu fazer o filme ir além da óbvia mensagem de que a arte é um caminho melhor do que o crime. A questão está lá, de forma bem didática, com reviravoltas que a reforçam de um jeito quase redundante. O que faz a diferença não é a história como um todo, mas os detalhes contidos em algumas cenas a partir da combinação entre atuações dramáticas consistentes e músicas de poder universal, de compositores como Mozart, Villa-Lobos e Bach.

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Lázaro Ramos interpreta um violinista talentoso que tem potencial para ser um dos músicos mais respeitados do Brasil, mas está insatisfeito com a carreira artística, vive estressado e enfrenta problemas econômicos pessoais. Para sustentar-se financeiramente, ele aceita, a contragosto, trabalhar como professor e regente de orquestra em um projeto social na periferia de São Paulo.

“Descobri que o personagem era eu”, admite Sérgio Machado, não só porque o trabalho de um maestro tem coincidências com o de um diretor de cinema, mas por reconhecer que passou por meses de sofrimento ao aceitar dirigir o filme enquanto tentava fazer alterações no roteiro sem nunca ficar satisfeito. “Eu saquei que eu deveria jogar minha própria angústia sobre o filme. Me coloquei no lugar do personagem, que estava sendo obrigado a fazer algo para reaprender a fazer aquilo que ele gosta”, compara o cineasta: “Eu estava em um momento de muita dúvida e o convívio com aqueles meninos me trouxe de volta o prazer de filmar.”

Os diálogos do filme não possuem declarações que defendam a importância da música clássica, mas as peças musicais em si, da maneira como são tocadas em alto volume, fazem toda a diferença e levarão o público a chorar nas cenas. Outros gêneros musicais, sobretudo o rap e o samba, também estão presentes, de maneira totalmente integrada, sem hierarquizações. Há espaço tanto para a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), quanto para os rappers paulistanos Rappin Hood e Criolo, que fazem participações especiais.

Em uma das cenas mais emocionantes, o professor é abordado por dois traficantes armados, que o obrigam a tocar para não levar um tiro. Eles pedem uma música do grupo de pagode Só Pra Contrariar, mas o violinista diz que não conhece o trabalho da banda. Ele decide, então, fazer um solo de violino de Paganini. O resultado, afetado pela tensão do momento, é de arrepiar até quem nunca tenha ido a um concerto.

TRÊS PERGUNTAS PARA LÁZARO RAMOS:

Lázaro Ramos, que não toca violino, interpreta um talentoso violinista
Lázaro Ramos, que não toca violino, interpreta um talentoso violinista

Durante as filmagens, as cenas mais difíceis eram as que envolviam música ou não necessariamente?
Esse foi um filme especialmente intenso a cada dia. Não só pela música. O desafio era tentar chegar num nível de sinceridade de verdade na maneira de a gente se relacionar. Isso contaminou todo o filme. A gente improvisava em todas as cenas. A gente sabia onde tinha que chegar, mas o texto era dito de improviso, o que é algo muito estimulante porque você fica muito vivo durante as cenas. É claro que eu podia dizer que tocar  violino era muito difícil, porque eu não sei tocar e tinha que fazer um tipo específico de dublagem, mas isso não foi o que mais me dificultou. O mais difícil era buscar sinceridade no nosso afeto.

Seu personagem começa o filme bem impaciente, estressado e nervoso, mas depois vai se acalmando aos poucos. Esse seria um dos principais aprendizados sugeridos pelo título?
Na segunda vez em que eu vi o filme, notei que, nas primeiras cenas, eu fazia uma coisa intuitivamente, sem perceber que eu tinha feito: não olhar nos olhos de ninguém e não olhar para os lados. Isso é muito simbólico e meio sintomático. O personagem é um cara que não quer ser professor e não quer dar aula em favela. E ponto. Aí ele chega lá sem querer se relacionar porque ele confirma todos os preconceitos do que ele acha que vai encontrar numa favela e numa vida de professor. Mais na frente, quando ele levanta os olhos para ouvir o relato de vida uma aluna, ele se transforma. Essa é a grande mensagem do filme. Como a gente descobre coisas quando a gente se relaciona de verdade com os outros, sem ficar preso a pré-julgamentos. Quando você olha de verdade é que você entende quem é o outro.

Você toca algum instrumento musical? Você acha que aulas de música para crianças deveriam ser obrigatórias em todas as escolas?
Eu cheguei a fazer aulas de piano durante um tempo, mas eu realmente não sei tocar nenhum instrumento, nenhum. Inclusive, quando eu cheguei no Instituto Baccarelli e vi a Orquestra de Heliópolis sendo regida, eu entendi na hora o poder transformador da música e desse tipo de música. Eu acho que a arte deveria ser obrigatória na vida de de todas as pessoas. Não só por sensibilizar, trabalhar o pensamento, trabalhar a cidadania e trazer o subjetivo, mas porque também entretém, diverte e deixa a vida melhor e mais leve e faz você conhecer novas coisas e descobrir outros mundos. O efeito do ensino de música é inegável na sensibilização, na disciplina e na auto-estima. Eu vi e ouvi isso de perto na vida dos atores do filme.

[embedded content] Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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