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Fundadora das Avós da Praça de Maio descobre que neta continua desaparecida

María 'Chicha' Mariani ao lado da mulher que supostamente seria sua neta. Foto: Télam/AFP/Arquivos Carlos Cermele
María ‘Chicha’ Mariani ao lado da mulher que supostamente seria sua neta. Foto: Télam/AFP/Arquivos Carlos Cermele

 
Uma notícia terrível chegou na sexta-feira para María “Chicha” Mariani, uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio, ao ser descartada a descoberta de Clara Anahí, roubada quando tinha três meses de vida pela ditadura argentina (1976/1983) e a quem busca incessantemente há 39 anos.

Em uma guinada inesperada, a Unidade Especializada em casos de Apropriação de Meninos e Meninas informou em um comunicado que duas análises genéticas oficiais descartam a descoberta da neta 120 anunciada na quinta-feira.

A notícia de que Clara Ahaní havia sido encontrada, divulgada pela Fundação Anahí dedicada a sua busca, comoveu os argentinos na véspera de Natal e inclusive o presidente Mauricio Macri expressou sua alegria na rede social Twitter.

Foram divulgadas fotos de um encontro entre ambas e a própria Mariani confirmou a informação, dizendo estar feliz.

No entanto, depois pediu cautela em um comunicado, ao esclarecer a necessidade de confirmação do Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG).

A notícia foi baseada em uma análise genética privada fornecida por uma mulher de 39 anos e que supostamente havia dado 99,9% de compatibilidade “após um rigoroso mecanismo de determinação”, dizia o comunicado da Fundação Anahí.

“Não há correspondência”

No entanto, um comunicado na sexta-feira assinado pelo procurador-geral Pablo Parenti, a cargo da Unidade Especializada, afirma que os dois exames que desmentem a descoberta foram realizados, um no início de 2015 e outro ainda na sexta-feira, no BNDG, a única instituição reconhecida oficialmente.

“Os informes são conclusivos de que não há correspondência entre o perfil genético desta jovem com o grupo familiar de Chicha Mariani, nem com o resto das famílias que ainda buscam crianças apropriadas”, indica o documento publicado no site oficial Fiscales.

Mariani dará uma coletiva de imprensa neste sábado em sua casa de La Plata, 60 km ao sul da capital, para esclarecer o ocorrido.

“Chicha” Mariani se apresentou na sexta-feira no juizado que tramita o caso pela apropriação de Clara Anahí junto a funcionários da Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (Conadi), onde constataram a existência de um teste anterior que a avó desconhecia.

“Sabemos que a notícia gerou grande expectativa. Ontem (quinta-feira), fruto da emoção do momento, se apressaram em dizer algo que queriam falar há muitos anos”, disse na sexta-feira à AFP Juan Martín Ramos Padilla, biógrafo e amigo de Mariani antes da divulgação do desmentido.

Mariani foi uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio em 1977, em plena ditadura, instituição que presidiu até 1989, quando a deixou para criar a Fundação Anahí. O grupo Avós passou a ser liderado então por Estela Carlotto, que o conduz até hoje.

O grupo Avós da Praça de Maio, que estima em 500 as crianças roubadas na ditadura, não se pronunciou nos últimos dias sobre o caso.

Caso emblemático

O caso Clara Anahí é emblemático porque se tornou conhecido em todo o mundo através da divulgação de cartas abertas escritas por Chicha Mariani a sua neta.

Uma foto de Clara Anahí ainda bebê foi replicada durante décadas e em todos os aniversários da menina, enquanto as redes sociais fizeram eco das buscas da agora mulher de 39 anos.

“Aos 91 anos minha aspiração é te abraçar e me reconhecer no teu olhar, gostaria que viesse até mim para que esta longa busca se concretizasse. O maior anseio que me mantém de pé é que por fim nos encontremos”, escreveu Mariani em março passado.

Em 24 de novembro de 1976 Clara Anahí, uma bebê de apenas três meses, foi sequestrada por um policial depois que sua mãe, Diana Teruggi, foi assassinada junto a outros três militantes do grupo guerrilheiro Montoneros (esquerda peronista) durante uma violenta operação policial em sua casa em La Plata.

Daniel Mariani, filho de Chicha, que não estava em casa naquele dia, foi morto a tiros oito meses depois.

Diferentemente de Clara, a maioria dos 119 netos recuperados nasceram enquanto suas mães, depois desaparecidas, estavam em cativeiro em um dos mais de 500 centros clandestinos instalados no país durante o regime ditatorial.

Em agosto de 2014, Estela Carlotto, atual presidente das Avós da Praça de Maio, encontrou seu neto, Ignacio Montoya Carlotto, em um caso que comoveu o mundo.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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