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Maquiavelismo, narcisismo e psicopatia ainda prosperam na sociedade

Tanto o ambicioso Frank Underwood, protagonista do seriado House of cards, interpretado por Kevin Spacey, quanto a manipuladora Cersei Lannister, retratada em Game of thrones pela atriz Lena Headey, possuem uma característica que é, geralmente, abundante nos vilões mais memoráveis: o maquiavelismo. Somados a esse, outros dois traços costumam vir no pacote, formando a chamada tríade negra: conjunto de características altamente aversivas que engloba também o narcisismo e a psicopatia.

Ainda que aversivos, esses três aspectos de personalidade prosperaram na sociedade e, por isso, são alvo de estudos há décadas. O conceito de maquiavelismo, por exemplo, nasceu nos anos 1960, tendo como inspiração o estrategista italiano Niccolo Machiavelli, autor da clássica obra política O príncipe. Desde então, o termo descreve uma tendência pessoal à insensibilidade e ao afastamento da moralidade convencional, permitindo que o indivíduo busque enganar e usar os outros. Na época, os psicólogos sociais Richard Christie e Florence Geis desenvolveram uma escala que media o grau de maquiavelismo a partir de itens que apontavam, por exemplo, uma visão cínica de mundo e um espírito de manipulação.

Em 2002, a medida foi redesenhada para incluir o aspecto psicológico de um militar da antiguidade até então negligenciado, Sun Tzu. No livro A arte da guerra, o general chinês do século 5 a.C. reforçou a necessidade de planejamento, coalizão e construção de uma reputação para alcançar com sucesso fins maquiavélicos. Ao contrário de psicopatas, que prestam pouca atenção nas consequências de suas decisões, os maquiavélicos planejam tudo com antecedência, constroem alianças e se esforçam para manter uma imagem positiva.

“O maquiavelismo costuma ser normal entre os narcisistas, que manipulam para conseguir o que querem, geralmente admiração e superioridade, coisas mais subjetivas. O psicopata, ao contrário, quer vantagens materiais. São problemas difíceis de entender e diagnosticar porque não existe uma alteração biológica por trás desses transtornos, o que significa que também não existem medicamentos próprios para eles”, explica Helena Moura, membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Ao unir ideias de Sun Tzu e de Maquiavel no estudo da personalidade humana, os pesquisadores Daniel Jones e Delroy Paulhus concluíram que os elementos que definem melhor o maquiavelismo são a manipulação estratégica, a insensibilidade e a construção de alianças. Anos depois, cunharam o termo “tríade negra”. Urszula Marcinkowska, pesquisadora Universidade de Turku, na Finlândia, diz que a investigação aprofundada desses aspectos pode ser aplicada em linhas de estudo diferentes. Com isso, ela diz, é possível refletir bastante sobre o comportamento humano.

Atratividade

Em uma pesquisa publicada recentemente na revista Personality and Individual Differences, Marcinkowska investigou a preferência de mulheres por homens que apresentam ou níveis altas ou baixos dos traços que compõem a tríade. Ela utilizou um questionário on-line para conhecer a percepção de atratividade de 1.962 finlandesas a respeito de faces masculinas que transmitiam diferentes intensidades das três características.

Segundo a autora, há uma noção quase global de que, geralmente, as mulheres se sentem atraídas por traços comuns aos chamados bad boys, que sinalizam benefícios diretos e indiretos, como acesso a recursos e aptidão genética da prole. “Notamos que mulheres podem manter estratégias flexíveis. Em relacionamentos de curto prazo, indicadores de bons genes poderiam ter papel mais importante do que o cuidado parental e a provisão de recursos. Esses últimos, por sua vez, podem ser mais importantes nos relacionamentos de longo prazo”, explica a pesquisadora.

Ao pedir que voluntárias avaliassem expressões faciais de homens, a pesquisadora imaginava que as mulheres demonstrariam preferência pelos homens com traços físicos de bad boy, mais alinhados aos da tríade, especialmente nos relacionamentos de curto prazo. Marcinkowska notou que as participantes que não usavam contraceptivos se sentiam atraídas por homens cuja aparência tende a ser interpretada como narcisista — segundo estudos anteriores, eles têm maxilares mais largos e crânios alongados. Usuárias de contraceptivos, por outro lado, não aprovavam os rostos maquiavélicos, com crânio e maxilares mais largos e sobrancelhas baixas. “Achamos que os traços da tríade são detectados pelas mulheres, mas seus efeitos sobre os julgamentos de atratividade podem variar de acordo com a disponibilidade sexual e o uso de contraceptivos”, acredita a cientista.

Narcisismo, diz ela, poderia ser a escolha mais acertada de parceiro entre as três opções da tríade, visto que representa obtenção de benefícios e recursos genéticos. A pesquisadora acredita que possa existir algo de repugnante nos rostos masculinos mais maquiavélicos, talvez relacionado à alta impulsividade e ao baixo autocontrole, qualidades consideradas negativas para mulheres, pois sinalizam predisposição à agressão e à coerção sexual. “É possível que as mulheres com mais experiência sexual tenham lidado com esse tipo de homem e tenham aprendido com a experiência que eles não são parceiros confiáveis”, cogita.

Confusões

Muitas vezes, os conceitos se confundem entre si. Intensidade, por exemplo, é uma característica compartilhada tanto pelo maquiavelismo quanto pela psicopatia. A diferença é que os psicopatas tendem a agir imprudentemente, o que costuma desembocar em uma vida de comportamento criminoso e desregrado. “As pessoas confundem usuários de substâncias com bandidos e maus caracteres, o que é errado. No entanto, quase todo psicopata é dependente químico. São impulsivos, o que é um fator de risco (para o uso abusivo de entorpecentes). Psicopatas buscam prazer imediato sem consequência”, explica Helena Moura, da ABP.

Quando acompanhada por algum atributo socialmente atraente, como inteligência e capacidade atlética, a psicopatia assume uma forma menos desagradável — sim, existe a versão não criminosa dessa forma de personalidade. É vista em indivíduos que possuem apenas um subconjunto do perfil psicopático, possivelmente, com aspectos mais adaptáveis. O elemento-chave dos narcisistas é a grandiosidade, que é o sentimento exagerado de autoimportância. Eles podem ser líderes e autoridades e nem sempre têm desajuste pessoal. São, no fundo, pessoas bastante inseguras que buscam reforçar o ego, às vezes de forma autodestrutiva.

Antes da consolidação da tríade negra, os psicólogos utilizavam uma escala de seis dimensões pra estudar a personalidade. Chamado hexaco, o modelo foi desenvolvido a partir de adjetivos que descrevem, em diferentes línguas, comportamentos e tendências entre os indivíduos: honestidade-humildade, emocionalidade, extroversão, socialização, consciência e abertura a experiências (veja quadro).

Apesar da constatação do hexaco, não existem apenas seis tipos de pessoas: os traços medem nuances, que podem ser altas, baixas ou nulas, entre outros tons. É impossível dizer, portanto, que a natureza humana pode ser completamente explicada a partir da tríade negra ou pelas seis medidas da hexaco. “Até certo grau, todo mundo tem um pouco disso tudo, alguns menos e outros mais. Faz parte do nosso caráter evolutivo, pois os primeiros representantes da nossa espécie precisaram desses comportamentos, inclusive danosos, para sobreviver. A medida certa parece ser aquela que não provoca danos aos outros”, explica Helena Moura.

Origem grega

Personalidade deriva da palavra grega persona, que significa máscara. No teatro antigo, era utilizada para representar e tipificar um personagem. Hoje, pode ser definida como um conjunto flexível de características pessoais que influencia o pensamento, as emoções, as motivações e os comportamentos em diferentes situações.

Dicionário

Marcinkowska utilizou medidas de rostos retirados do dicionário de faces criado por Nicholas Holtzman, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Ele mediu os níveis de psicopatia, narcisismo e maquiavelismo de seis homens que, depois, tiveram as fisionomias faciais julgadas em conformidade com as características por terceiros. Os resultados dos testes para o grau de tríade negra foi cruzado com as percepções da fisionomia, permitindo que Marcinkowska desenvolvesse seis versões com pontuações altas e baixas em narcisismo, psicopatia e maquiavelismo, de cada um dos seis rostos da base de imagens.

Diferentes traços

Alguns autores criaram conjuntos de traços que podem ajudar a avaliar a personalidade de uma pessoa a partir da intensidade com que ela manifesta cada uma das características. Veja duas delas:

A Tríade Negra

Narcisismo: sensação frequente de grandiosidade, superioridade e necessidade de dominar. Narcisistas costumam perseguir o sucesso e a admiração sem medir esforços, e não se preocupam em manipular ou mentir

Maquiavelismo: tipo de conduta social caracterizada pela dificuldade de sentir empatia e pela falta de respeito aos direitos dos outros. Envolve manipular deliberadamente as pessoas para ganho pessoal, mesmo em desfavor dos manipulados

Psicopatia: “mania sem delírio”, designa indivíduos com comportamentos atípicos e agressivos. É um traço de personalidade caracterizado pela frieza, pelo embotamento afetivo e pela falta de empatia. A pessoa também pode ser impulsiva, aventureira, imprudente, superficialmente charmosa, sem remorso e manipuladora. É um fator de risco para reincidência em crimes violentos

Hexaco

O nome deriva do prefixo grego hexa, mas também remeta aos nomes das características que compõem o conjunto de traços, medidos por um questionário: H (honestidade-humildade), E (emocionalidade), X (extroversão), A (socialização, ou agreeableness, em inglês), C (consciência) e O (abertura à experiência, ou opening, em inglês)

Honestidade-humildade: pessoas sinceras, honestas, fiéis, leais e modestas. Contrapõem-se a astutos, mentirosos, gananciosos, pretensiosos, hipócritas e arrogantes

Emocionalidade: emocionais, sensíveis, sentimentais, medrosas, ansiosas e vulneráveis, em contraponto a irritados, intolerantes, independentes, autoconfiantes e estáveis

Extroversão: alegres, sociáveis, falantes e ativos. O oposto seriam os passivos, introvertidos, calmos

e reservados.

Socialização: descreve pessoas pacientes, tolerantes, pacíficas, suaves, agradáveis e brandos, o oposto de mal-humorados, briguentos, teimosos e coléricos

Conscientes: organizados, disciplinados, diligentes, cuidadosos, detalhistas e precisos; diferentes dos desleixados, negligentes, imprudentes, preguiçosos, irresponsáveis e distraídos

Abertura à experiência: intelectuais, criativos, não convencionais, inovadores, irônicos, que se contrapõem a indivíduos superficiais, sem imaginação e convencionais

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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