O Natal da pequenina exilada por Zurica Peixoto (1914 – 2005)

Rio de Janeiro, 26 de dezembro de 1943

 

Naquela noite, ao badalar festivo dos sinos anunciando o nascimento de Jesus, ela, coitadinha, sentiu um aperto no coração…

Não esquecera que o Natal era a festa das crianças, e que nesta noite havia sempre um rebuliço em casa com os preparativos e arranjos da árvore de Natal.

Pensativa, ela se foi assentar, deixando os companheiros que não a podiam compreender. Recordava a Mamãezinha, o Papai, os outros irmãozinhos, todos bem contentes, risonhos e felizes.

Sendo a mais velhinha, tinha permissão de ir à igreja, e os seus olhinhos admirados não se cansavam de contemplar o presépio com o Menino Jesus, os Reis Magos, os carneirinhos brancos, os pastorinhos, as estrelas resplandecentes e uma infinidade de coisas.

E a Mamãe lhe contava histórias bem lindas que ela, encantada, ficava a escutar…

O Papai Noel não esquecia nunca de passar em sua casa, e assim, os sapatinhos eram deixados à janela, na esperança ou na certeza de encontrá-los cheios de presentes.

Ao toque dos sinos, atordoada, ela levou as mãozinhas aos ouvidos, como procurando afastar a dolorosa realidade. Seu lar fora desfeito, lembrava-se dos bombardeios, o ecoar estridente das sirenes, os estrépitos ensurdecedores das bombas. Depois… de mais nada sabia. Disseram-lhe que o Papai estava lutando, e que a Mamãe e os irmãozinhos haviam morrido.

Soou meia-noite… As outras crianças vieram buscá-la. Houve gritos de alegria, trouxeram-lhe uma porção de brinquedos e não conseguiram distraí-la.

Naquela noite ela não fez caso dos brinquedos, somente desejava o que não poderia ter… Seu lar, a Mamãezinha querida, o Papai, e os irmãozinhos…

                                                    – – –

 

Nota de Fernando Moura Peixoto: Zurica, em 1943, aos 29 anos, “exilada” com a família no Rio de Janeiro após terem sido obrigados a deixar a cidade de Penedo, Alagoas, em 1933/34.

Há uma clara analogia entre o que estava sentindo e o relato de uma guerra (a Segunda Guerra Mundial?). “Seu lar fora desfeito”,Afastar a dolorosa realidade”, “O Papai estava lutando”, “Desejava o que não podia ter”, escreve tristemente, refletindo na verdade um padrão de vida atual mais baixo e as condições financeiras inferiores, muito aquém do que realmente necessitavam – e tudo o que possuíram em Penedo. Em meio à religiosidade sempre presente, uma saudade imensa de um passado glorioso e feliz.

Em 1996, outra bomba explodiu.  Aos 81 anos, Zurica, sozinha agora, vê a usurpação solerte do Chalé dos Peixotos, o seu “Chalezinho Vermelho”, quase em ruínas, transformado em “dos Loureiros”, designação que nunca teve. O seu lar fora novamente desfeito por pessoas gananciosas, junto com as lembranças da Mamãezinha querida, o estimado Papai, e os caros irmãozinhos… Do exílio não se volta jamais.

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