Opinião: lembranças do Diario de Pernambuco

Por Marly Mota

Membro da Academia Pernambucana de Letras

marlym@hotlink.com.br

O Diario de Pernambuco no esplendor dos 190 anos  tem sido ao longo da minha vida uma fonte de boas lembranças. Desde a infância, na minha cidade de Bom Jardim, Pernambuco, onde o trem da Great Western, envolvente desde o apito de chegada, ao ritmo diário da vida urbana e social do lugar. Por meio dele chegava o exemplar do Diario de Pernambuco, aguardado ansiosamente por meu pai. Lido e relido, tornava-se  um regalo também aos vizinhos. As letras das manchetes do jornal substituíram a minha cartilha do ABC, que eu odiava, pela dificuldade de memorizar a letra B. Hoje, com todas as letras, bendigo esse rico transitar  pelas páginas de um dos mais importantes jornais do país. Bendigo também, mesmo ocasionalmente, colaborar na página Opinião, de tantos e excelentes articulistas.

Com Mauro Mota, chegou-me outro tempo de renovada admiração. O poeta se fez presente por mais de quarenta e cinco anos no Diario de Pernambuco, como redator, editorialista, secretário e diretor. Fez circular o Suplemento Literário, criado por ele, abrangendo uma grande região do Nordeste. Publicou os primeiros poemas de Carlos Pena Filho,  Ferreira Gular, José Sarney, Eduardo Portela,  Audálio Alves, entre  outros.

Em certas ocasiões, a secretaria do velho Diario, sempre festejada, convertia-se em sala de visitas para escritores e jornalistas, daqui e de fora. O escritor português Vitorino Nemézio, o diretor do Museu Imperial de Teresópolis Guilherme Auler, o folclorista alagoano, Théo Brandão, entre os  poetas César Leal, Tadeu Rocha, Edson Nery da Fonseca, Tive o privilégio de conviver com muitos deles. Aos domingos, o êxito do Suplemento Literário, escondia o excesso de trabalho dividido com o amigo-irmão Laurênio Lima e com o velho Cândido Elias Fonseca, o seu Candinho das oficinas, exemplar no seu ofício, ainda  do tempo do Conselheiro Rosa e Silva. 

Mauro Mota esteve ao lado de Anibal Fernandes, diretor e mestre de muitos que se tornaram mestres. Ao lado de Antiógenes Chaves, Antonio Camelo, de Assis Chateaubriand, dono e presidente dos Diários Associados, que trazia ao Recife personalidades brasileiras e do “Jetset” internacional. Os festivais gastronômicos  se sucediam no Restaurante Leite e nas casas generosas de amigos recifenses;

Em 2001, o Diario de Pernambuco editou o livro “Agitação Cultural- o Suplemento e Mauro Mota” Na gestão de Luiz Otávio Cavalcanti, Joezil Barros e Gladstone Vieira Belo, organização dos jornalistas Jodeval Duarte e Luiz Clécio. A introdução coube ao amigo e compadre Marcos Vilaça. A sugestiva capa traz o retrato de Mauro Mota e do antigo prédio do Diario da Praça da Independência, ambos assumindo a agitação de uma bela época. O espaço do velho Diario pulsando no coração do poeta, um e outro fazendo parte de um rico itinerário cultural de Pernambuco.

O prédio do Diario de Pernambuco, com o seu sonoro carrilhão, tocando na Praça da Independência, está presente no poema Domingo no Recife, de Mauro Mota:  (…) Assisto ao suicídio do domingo no Recife, / o domingo jogando-se da torre do “Diario” / na música do carrilhão batendo meia-noite.

Entre os anos de 1825 a 2011, o Diario, traz a biografia dos seus dirigentes,  pela ordem de sucessão alfabética. O escultor e pintor Flavio Gadelha, com talento e sensibilidade, retratou os trinta  homens em exposição permanente, no salão nobre do edifício do Diario. Quatro desses dirigentes, enriqueceram a literatura brasileira, com suas presenças na Academia Brasileira de Letras: Anibal Freire, Arthur Orlando, Assis Chateaubriand e Mauro Mota. Dissera-me o amigo Gladstone Vieira Belo que, na época de Arthur Orlando, Gilberto Amado foi redator do Diário, assinando a coluna “Golpe de Vista.” Tempos depois, Mauro Mota assumiria na ABL, a  cadeira de Nº 26, que pertenceu  ao escritor  Gilberto Amado. Acompanhei-o nas idas ao Rio para as sessões do Conselho Federal de Cultura, e ao Petit Trianon, nas sessões ordinárias e nas festivas. Época, em que desfrutamos da convivência de grandes escritores, dentro e fora da esfera ambiental da Academia.

Quero registrar o brilho do pesquisador e historiador nosso amigo Fernando da Cruz Gouveia (falecido este  ano), que em outra época  investigou  minuciosamente os arquivos do Diario na História. Esta sessão e a página Opinião, voltaram a ocupar  o primeiro caderno, com chamada na primeira página, como nos velhos tempos. A Revista, Diario de Pernambuco 190 anos de História, uma bela surpresa para os assinantes. Aqui mesmo nesta crônica, parabenizo os irmãos Rands, Alexandre e Maurício, ambos presidente e vice-presidente institucional deste querido jornal.

Não quero esquecer que o Diario de Pernambuco, na sua tradicional festa de final de ano, em 2008 me homenageou com o diploma “Orgulho de Pernambuco.” Lembro ainda, no último 22 de novembro, os 31 anos do falecimento de Mauro Mota, ficando a minha saudade, a dos filhos, netos  e bisnetos.    

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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