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Opinião: Parabéns à nossa medicina

O atual surto epidêmico de microcefalia em recém-nascidos brasileiros,principalmente pernambucanos, filhos de mulheres que provavelmente contraíram o zika vírus durante a gravidez, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, despertou justificada preocupação por parte de autoridades nacionais e internacionais de saúde.

Estarrecidos com a dimensão da tragédia e com o risco potencial de disseminação desse grave e desconhecido fenômeno mórbido, alguns desses sanitaristas e infectologistas vieram ao Recife, o epicentro da epidemia, para observações de campo. Confirmaram a gravidade da situação e revelaram-se positivamente impressionados com a maneira com que os médicos e os demais profissionais de saúde locais se portaram diante do problema.

Com efeito, num primeiro momento, nossos obstetras, pediatras e neurologistas constataram a incidência alarmante do nascimento de crianças microcefálicas, principalmente em maternidades públicas. Com seriedade e responsabilidade social, não tardaram em envolver clínicos e infectologistas na condução do problema. Esses especialistas, por sua vez, alguns deles estudiosos dessa e de outras viroses transmitidas pelo mosquito, deram à nova epidemia um tratamento científico: levantaram a hipótese de que a doença poderia ser provocada pela ação do vírus zika durante o período de gestação, que chegaria através da placenta ao sistema nervoso do feto em formação, determinando lesão e atrofia cerebral irreversível.

Para testar essa tese, analisaram os casos um a um, confirmando o que suspeitavam, ou seja, a elevada ocorrência de infecção pelo vírus em tela, conhecido pela sua afinidade pelas células nervosas, nas primeiras semanas de gestação das mães. Tal incidência revelou-se significantemente maior que a de mães que pariram crianças com cérebro normal no mesmo período e nas mesmas condições socioeconômicas. Ademais, observaram que a frequência da doença era muito maior nas áreas urbanas onde havia elevada ocorrência do Aedes aegypti das duas outras doenças por ele transmitida, confirmando-se assim o suposto nexo causal.

O passo seguinte foi informar essas descobertas à população em geral e solicitar providências urgentes por parte das autoridades, propondo ações em três vertentes: 1) vigorosa campanha de combate ao mosquito; 2) aceleração das pesquisas para desenvolver a vacina contra o perigoso vírus e, 3) implantação de estratégias para amparar e cuidar das crianças microcefálicas, buscando atenuar os efeitos da atrofia cerebral a curto, médio e longo prazo.

Por tudo isso, os pernambucanos têm motivos para aumentar o orgulho da nossa medicina.

Cláudio Lacerda
Cirurgião e Professor da UPE e da UNINASSAU
cmlacerda1@hotmail.com

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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