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Você concorda com a liberação da venda de bebidas nos estádios de futebol? André Ferreira e Diogo Moraes opinam

Não

André Ferreira

Deputado estadual (PMDB)
 

Há sete anos, a Assembleia Legislativa de Pernambuco aprovou um projeto considerado avançado, que proibia a venda de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol. Tinha como argumento coibir a violência durante os jogos. Sete anos depois, agora quase no final de 2015, testemunhamos um retrocesso, com a liberação do consumo nos dias de jogos. Votei contra por entender que a proibição deu resultado mais do que positivo.

Em 2009, quando a lei passou a vigorar, os casos de violência nos estádios diminuíram em 63%, conforme estudo realizado pela Universidade do Rio de Janeiro. No ano seguinte, o índice ficou em 78%. Em 2011, o Ministério Público de Pernambuco apontou novo avanço, com 71% na redução da violência em nossos estádios. De lá pra cá continuou caindo. Temos outros exemplos em São Paulo, onde, em 2009, a queda foi de 57%, e em Minas Gerais atingiu 45%.

Os números mostram que a luta foi ganha e seria preciso avançar mais, estabelecendo uma forma de evitar que os torcedores entrassem nos estádios já embriagados. Haja vista que bares e restaurantes, instalados dentro dos próprios estádios, e ambulantes vendem bebidas livremente. Mesmo a lei estando em vigor, nunca houve qualquer impedimento para o acesso às dependências, sob o efeito do álcool.

Lamentavelmente, a maioria dos deputados estaduais entendeu que a liberação de uma cervejinha para animar os torcedores não é mal nenhum. O mesmo vem acontecendo em outros estados brasileiros, que citam os jogos da Copa do Mundo como exemplo de tranquilidade. Vale lembrar que jogos de Copa são diferentes dos campeonatos estaduais e nacionais. É nas disputas locais que as emoções estão à flor da pele. Até uma pessoa que nunca se envolveu em confusão pode cometer um ato de agressão em nome do seu time.

O país está na iminência de um retrocesso, que é a flexibilização do acesso às armas de fogo, e não é aceitável um outro recuo, no caso da bebida alcoólica. Temos que discutir a questão como sendo de segurança pública, e não apenas permitir uma disputa entre cervejarias para ver quem vende mais seus produtos. Tínhamos ganho uma batalha há sete anos, mas sofremos agora uma derrota para o lobby do setor de bebida alcoólica.

Diante desse novo cenário, é preciso que o Estado e as polícias redobrem as atenções para evitar o vandalismo das gangues travestidas de torcidas organizadas. Os recifenses não aguentam mais o terror que virou rotina após as partidas de futebol, com arrastões, roubos, quebra-quebra de ônibus, de metrô e tantos outros crimes.

Além do mais, o foco não pode ser apenas na cerveja.  As drogas consideradas ilícitas são usadas pelos vândalos e precisam ser atacadas de forma dura e radical. Levantamento do Juizado do Torcedor registra, só neste ano, cerca de 90 processos penais envolvendo drogas. Também constam mais de 260 casos de tumulto, 7 de lesão corporal, 5 vias de fato e 6 atentados a meio de transporte. Desde o início da temporada de futebol em Pernambuco, foram instaurados cerca de 50 processos criminais.

Quem vai ao estádio de futebol quer se divertir, ver seu time ganhar e comemorar de forma pacífica e ordeira. O álcool, na mínima dosagem que seja, provoca alterações em qualquer pessoa, principalmente quando a emoção fala mais alto. Exemplos de violência causada pela bebida não faltam. É dever do Poder Público fazer que prevaleça a paz e a alegria antes, durante e depois das partidas de futebol.

Sim

Diogo Moraes

Deputado estadual pelo PSB e primeiro-secretário da Assembleia Legislativa de Pernambuco 

Recentemente, a Assembleia Legislativa de Pernambuco através da maioria dos seus representantes aprovou a liberação do consumo de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol. Proibir a venda desse tipo de insumo seria camuflar outro problema que afeta não só nosso estado, mas cidades de todo o país. Atualmente, a maioria dos casos de violência relacionados ao futebol tem ligação com as torcidas organizadas, não ao consumo de álcool.

Apesar do esforço do governo do estado, que reforça o policiamento nas proximidades dos jogos em dias de clássico, vemos constantemente o envolvimento de membros das torcidas em confusões nos dias de partida. Muitas vezes as disputas entre os representantes desses grupos são marcadas com antecedência através das redes sociais, o que reforça a tese de que essas pessoas já saem de suas casas com disposição para briga, independentemente do consumo de álcool.

Temos que concentrar nossos esforços no combate a essas organizações. É preciso banir esses indivíduos, que sequer podem ser chamados de torcedores, dos estádios de futebol. As punições para os que se envolvem em brigas precisam ser mais rigorosas e o controle de quem entra no local do jogo também deve ser maior.

Vamos citar o exemplo da Copa do Mundo de 2014. O consumo de bebidas foi permitido dentro dos estádios, mas não houve ocorrências de casos violentos. Se a ingestão da bebida alcoólica fosse a principal explicação para a violência, seria necessário fazer a avaliação do que ocorre nas casas de festa. Seguindo a lógica da proibição, outros estabelecimentos de entretenimento também teriam que vetar o consumo do álcool, algo praticamente inviável.

Analisando o cenário atual – sem a venda das bebidas nos estádios -, é possível perceber que o aglomerado ao redor dos campos de futebol é maior. O torcedor que gosta de tomar sua cerveja costuma aproveitar ao máximo enquanto não entra no local da partida. Desta forma, a ingestão do álcool de forma apressada e em grandes quantidades – já que lá dentro ele não poderá mais comprar sua bebida – muitas vezes faz com que a embriaguez seja alcançada mais rapidamente.

O consumo externo traz outro agravante. É comum ver longas filas se formarem nas entradas dos estádios poucos minutos antes do início do jogo. Com todos querendo entrar ao mesmo tempo no local, o risco de confusão é maior, além do incômodo causado com a demora.

Estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás, que possuem grandes times que estão representados na série A do Campeonato Brasileiro, já autorizam o consumo de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol, além da Bahia (que vai permitir a ingestão do álcool a partir do próximo ano). Em Pernambuco, dois dos três principais – Náutico e Santa Cruz -, já se posicionaram publicamente a favor da liberação.

O patrocínio das cervejarias e empresas do ramo das bebidas aos times de futebol é comum. Em tempos de crise, os clubes precisam desse apoio para fortalecer suas atividades. Na lógica comercial, não faz nenhum sentido uma patrocinadora apoiar um clube e não ter direito de comercializar seus produtos nas dependências dos estádios. Sendo assim, os times de futebol correm o risco de perder apoio financeiro, o que prejudica suas atividades.  

A acertada autorização concedida no âmbito do Legislativo estadual vai garantir ao torcedor mais direitos no seu momento de lazer, colaborar com os clubes em crise, proporcionar uma adequação ao padrão internacional e evitar filas poucos minutos antes da partida.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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