A lição do Recife para o mundo

 (Karina Morais/Esp.DP)

O ano de 2015 termina com a infeliz epidemia de dengue, chikungunya e zika vírus, esta última associada a um elevado número de casos de microcefalia. Um desafio complexo a ser enfrentado pela população e pelo poder público. O secretário de saúde da cidade do Recife, Jailson Correia, em entrevista ao Diario, analisou as posturas adotadas pela prefeitura durante esta crise. Para ele, uma das lições que a capital pernambucana leva ao mundo é a transparência na divulgação dos dados e a rapidez na criação de protocolo de identificação dos casos. Ele também fala dos recursos aplicados pelo poder público, as parcerias com as universidades, o reconhecimento de autoridades da medicina internacional e a importância do engajamento da população no combate ao mosquito Aedes aegypti. Instalado num gabinete repleto de dados e gráficos sobre as doenças, o secretário admite: “Esse cenário tem nos provocado a repensar o desenvolvimento urbano e as estratégias no combate ao mosquito”. Confira a entrevista concedida no gabinete da crise. 

“Agimos com rapidez e transparência”

Como tem sido a relação da secretaria com as universidades e os institutos de pesquisa aqui no estado para combater o Aedes aegypti?
A rede de relações que nós tínhamos com as universidades precedia essa crise que estamos passando e, atualmente, já há uma cooperação técnica em curso voltada para os casos de dengue, zika vírus e chikungunya. O pessoal da vigilância ambiental, por exemplo, tem uma parceria com o setor de entomologia da UFPE e do Aggeu Magalhães. Estudos importantes têm sido feitos e estamos mantendo um bom diálogo, buscando nos instrumentalizar para as tomadas de decisões e também para abrir a participação dos pesquisadores nesse processo. Além disso, há uma troca de informações com pesquisadores internacionais muito interessante.

Como tem repercutido na comunidade internacional a atuação do Recife diante desse surto de microcefalia e epidemias de dengue?

Eles têm admitido que o Brasil teve uma resposta muito rápida. À luz dos primeiros sinais de casos exagerados de microcefalia, rapidamente, num intervalo de poucas semanas, já havia uma investigação em curso, envolvimento do Ministério da Saúde, Secretaria Estadual de Saúde. Nós participamos dessa construção também, com a criação de protocolos. Foi um bom exemplo de como a academia e gestão pública se aliaram para enfrentar o problema. Mas é um desafio muito complexo. Estamos, literalmente, escrevendo um novo capítulo da seção de doenças infecciosas, de malformação congênitas, com a zika. Em nenhum momento da nossa história houve essa associação de zika com microcefalia. O padrão das lesões da microcefalia, o fato de ter uma malformação muito específica do sistema nervoso central sem muitas repercussões em outras áreas do organismo da criança. Tudo isso são questões que estão sendo descobertas e discutidas aqui com um caráter inédito, inclusive para a comunidade internacional.

De que forma a população tem se envolvido nas campanhas de combate ao Aedes aegypti?

Uma experiência muito positiva tem sido os fóruns do Recife participa. Me surpreendi com a postura de algumas pessoas que chegavam e diziam: estou aqui, sou uma liderança, tenho uma equipe na minha comunidade e quero saber como posso ajudar? Isso é muito interessante. Tem uma frase de uma moradora de Dois Unidos, que resume bem essa ideia. Ela falou para o público presente: “gente, agora a gente é o agente”. O agente de saúde é o elemento importante desse combate, mas se você observar que mais de 80% dos focos estão dentro da casa das pessoas, é muito importante a iniciativa individual nesse combate. Nós temos tido uma boa resposta das pessoas.

O índice de microcefalia tem se concentrado nas cidades da Região Metropolitana e no próprio Recife. Há possibilidade de diálogo e integração entre esses municípios e a capital do estado?

Nós temos feito um trabalho articulado com os outros municípios. Nós temos um fórum que une todos os secretários municipais de saúde, com reuniões periódicas. Esse assunto da parceria já foi colocado na pauta. Os secretários, particularmente da Região Metropolitana, têm discutido bastante esse assunto, compartilhando experiências peculiares de cada município. É um trabalho feito de forma integrada. Mas destaco também o papel do governo do estado. Ele tem feito um trabalho, como instância superior, de agregar os serviços. Existe, sim, uma troca de experiência muito positiva para fortalecer a solução dos casos.

As projeções econômicas para 2016 são apertadas. Qual o investimento do governo federal nas ações contra o Aedes aegypiti e de que forma vocês estão se planejando para este ano?

O ano de 2015 não foi fácil. Nós fomos até o Ministério da Saúde fazer um pleito especifico. Solicitamos R$ 29 milhões com três objetivos primários: apoio às atividades ao combate ao mosquito, com mais recursos, mais insumos, mais veículos, mais equipes para que a gente possa fazer o trabalho de forma intensificada; em segundo lugar, pensamos as campanhas de mídia em caráter local, que dialoga com o problema mais frequente na região. Por fim, o apoio na estrutura da rede de apoio à criança com microcefalia. Ainda não tivemos uma sinalização do Ministério da Saúde sobre esses recursos. Mas, independentemente disso, nós tivemos um aporte do estado, que já está depositado nos nossos cofres e nós não podíamos parar. A prefeitura está se movimentando. Nós somamos forças das demais secretarias, usando os recursos específicos de cada área.

E os recursos prometidos pelo governo do estado, como estão sendo aplicados?
Chegamos ao entendimento de que este repasse seria per capita e seria feito com o foco no combate ao mosquito, mas com a liberdade do município decidir nas aplicações. O Recife ficou com cerca de R$ 860 mil, proporcional à população, e estamos aplicando nos insumos, no fardamento dos agentes, no plantão extra de funcionários no final de semana. É um custo extra, mas muito importante, porque garante que o serviço não seja interrompido. No final de semana, nós conseguimos visitar casas que estavam fechadas durante a semana, por exemplo.

De que maneira a Secretaria de Saúde tem planejado a assistência e o atendimento médico aos bebês que nasceram com microcefalia?
Nós temos o Mãe Coruja Recife. São dez unidades em bairros de alta vulnerabilidade social. Nesse primeiro momento, nós vamos trabalhar para oferecer o apoio de forma interdisciplinar unindo todas as secretarias. Mas a gente sabe que, a partir do momento em que as crianças têm o diagnóstico finalizado, elas vão precisar voltar para à rede municipal de saúde. Com isso, o prefeito nos autorizou a criação, na Policlínica Lessa de Andrade, na Madalena, de um serviço de referência cujos profissionais já estão capacitados e vão adquirir experiência no atendimento de crianças com microcefalia. O Hospital da Mulher também vai ser uma parte integrante desse ciclo de cuidado. Lá vamos ter laboratório de infectologia, que vai apoiar essas mulheres com suspeita de doenças exantemáticas – com manchas na pele – durante a gravidez. É um esforço coletivo para ofertar o melhor atendimento possível.

Qual a importância da iniciativa individual no combate ao mosquito?
O engajamento das pessoas é muito importante. A questão das brigadas ou patrulhas de bairro que as pessoas possam organizar é fundamental. Não é preciso esperar a visita do agente. Nós estamos fechando o ano com quase  dois milhões de visitas realizadas. Isso significa dizer que o trabalho do poder público tem chegado ao foco de maior preocupação. Por isso, é importante fazer o dever de casa e todos colaborarem. Tem que ser um combate permanente.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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