Artigo: Carta a Dona Linaura (Parte) por Zurica Peixoto (1914 – 2005)

Rio de Janeiro, início dos anos 1940

 

(…) Nestes dias claros e alegres de verão é um encanto ver a praia de Copacabana repleta de banhistas, com as suas barracas policrômicas.

Contudo, não esqueço nunca o nosso velho Norte, onde desfrutei uma infância feliz e vivi parte de minha mocidade. Quantas vezes, mesmo, recordo com saudades a pacatez das nossas ruas, a calma, a poesia e o encanto das plagas nordestinas!…

Contemplando Copacabana e outras praias daqui, gosto sempre de compará-las ao aspecto diverso que vai entre as nossas.

Por aqui, tudo simboliza progresso. É um arranha-céu que se alevanta garboso, é o lampadário elegante que desafia as estrelas, um deslizador, uma dessas lanchas modernas que velozmente passa, rasgando o azul do mar. E como tudo é diferente por aí!

À solidão e à calma aliam-se a poesia de noites enluaradas, de coqueiros que tremulam no ar, de casinhas simples de uma porta e uma janela, de jangadas frágeis quais borboletas, singrando os verdes mares que se espraiam na amplitude de costas cobertas de alvas areias.

Mas, quantas tolices estou a dizer-lhe. Confiando na sua condescendência de sempre, estou certa de que m’as relevará.

Enfim, minha boa D. Linaura, se há tanta coisa que me encanta aqui no Rio, muitas há que me decepcionam extraordinariamente. Para um observador amante da verdade e da moral, quantas decepções se nos apresentam…

Na vida prática tenho apreendido bastante, pois as grandes cidades são as melhores escolas da vida.

E agora que já escrevi quase um relatório, resta despedir-se, pedindo-lhe desculpas da maçada.

Aceite muitas recomendações de todos os meus, e creia na estima da discípula que não a esquece, e que se sentirá feliz em receber as suas notícias.

                                                 – – –

 

Nota de FMP: Terceira parte de uma carta a Dona Linaura Imbuseiro, professora alagoana de Zurica Peixoto. Mesmo distantes, mantinham correspondência e se comunicavam. A aluna jamais esqueceu um aniversário sequer da antiga mestra. Eram longos os telefonemas interurbanos em razão da forte amizade que tiveram em vida.

O texto é um pequeno registro de uma época, a década de 1940, no Rio de Janeiro, contrastado com saudosas reminiscências nordestinas da adolescência de Zurica, que nunca mais retornaria a Penedo, em Alagoas, sua terra natal.

Infelizmente, as primeiras páginas da longa missiva se perderam em meio à grande quantidade de papéis que ela deixou.

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