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Artigo: Uma tarde vazia por Fernando Moura Peixoto

“Acabou de escrever aliviada. A gente escreve porque sabe – pensou – a gente escreve para aprender. Escrever é um modo de descobrir o que se passa conosco através dos outros. A gente é escrito, concluiu”. ARTUR DA TÁVOLA (1936 – 2008), in ‘Uma História Irritantemente Comum’.

 

Aqui estou, sozinha. Neste imenso apartamento vazio. Ninguém a perturbar. Da mesa de trabalho avisto as janelas e uma paisagem que tanto admiro. Hoje, porém, experimento a carga disso tudo. Bate um vento azul e leve, lento e penetrante.

Observo a mesa e os papéis que se amontoam displicentemente espalhados pela casa, os livros formando pilhas. O labor me espera. Lápis, borracha e a antiga máquina de escrever, tudo contribui para o meu remorso. Remorso de quê? Porque lá de dentro, bem do fundo de meu íntimo, vem uma pergunta há muito presente. Que fazer nesta tarde?

O vento continua balançando mansamente as velhas janelas que sentem o seu peso e rangem. Por todo o apartamento percebe-se um longo e quase inaudível lamento, assim como uma presença amiga, distante. Em busca de palavras murmuradas, praticamente mudas.

E penso… Não é o vento, mas a solidão que geme. Esta vista que desfila ante meus olhos não leva a evocações, daqui não me transporta, como em tantas outras vezes. As ondas do mar e o seu barulho longínquo, que sempre me acalentam, ficaram hoje diferentes. Incorporaram-se a mim como se fossem o meu inconsciente. Como se fossem eu mesma. Não as entendo. Elas estão como estou. E o silêncio se sobrepõe à solidão… Não sei se a solidão gera o silêncio ou o contrário. Ou ainda, se ambos se completam.

Não, não é a solidão que geme. Nem o silêncio ou as janelas. Mas, sim, esta sensação morna de que nada acontecerá, que o telefone não irá tocar e que nenhuma voz se debruçará no vazio das horas para uma palavra qualquer, mesmo banal e sem importância.

Continuo a olhar os livros e papéis empilhados. Lápis, borracha, caneta e máquina de escrever. Vejo a quantidade de coisas que deverão ser produzidas em um determinado tempo. E mais uma vez me pergunto. Que fazer nesta tarde?

– – –

 

N.A. Obra de juventude, escrita em 1971, com narrativa do ponto de vista feminino, o texto foi publicado em 1994 na antologia VALORES DA NOVA LITERATURA BRASILEIRA, da Litteris Editora, Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio de Edição.

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