Artesão Manuel Eudócio morre com suspeitas de chikungunya

Discípulo de Mestre Vitalino, artesão começava a trabalhar às 5h, todos os dias. Foto: Glauco Spindola/ DP
Discípulo de Mestre Vitalino, artesão começava a trabalhar às 5h, todos os dias. Foto: Glauco Spindola/ DP

Discípulo de Mestre Vitalino, o artesão Manuel Eudócio Rodrigues, de 85 anos, faleceu na noite do sábado em Caruaru. O escultor era um dos artistas mais antigos no ofício da cerâmica figurativa do estado. De acordo com o filho Arijaelson Rodrigues, de 55 anos, ele estava internado desde a última terça-feira e apresentava sintomas de chikungunya. Manuel chegou a fazer hemodiálise, mas teve falência múltipla dos órgãos. A Secretaria de Saúde de Pernambuco enviou uma equipe ao Hospital Mestre Vilatino, onde ele estava internado, para averiguar a causa do óbito.

Manuel passou por uma UPA e pelo Hospital Regional do Agreste antes de dar entrada no Mestre Vitalino. Ele estava com convulsões e tinha um quadro de diabetes avançado.
O artesão já havia amputado um dedo do pé no fim do ano passado em decorrência de diabetes. O velório ocorreu ontem, em frente à casa e ao ateliê dele, localizados no Alto do Moura, em Caruaru. O enterro aconteceu por volta das 16h.

Contemporâneo de Vitalino, Manuel se tornou um “cronista do barro”. As peças mais populares retratam o reisado. “Ele foi importante porque fez a crônica do cotidiano e os folguedos tradicionais”, declarou a pesquisadora Maria Alice Amorim, autora do livro Patrimônios vivos de Pernambuco.

“Ele criava muita novidade. Sempre tinha aquela mente boa para criar as peças. Deixou um legado imenso”, declarou o filho Arijaelson, um dos nove de Manuel. A família representa uma tradição de núcleos que vivem do barro no Alto do Moura, Caruaru. Todos os filhos do artesão seguiram o caminho do pai. De acordo com Arijaelson, mesmo com idade avançada o pai ainda começava a trabalhar por volta das 5h, todos os dias.

Ele foi agraciado com o título de Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana em 2005. No ano passado, foi homenageado do São João de Caruaru. Filho de agricultor, o artesão decidiu ainda criança que não queria trabalhar na enxada e ter o mesmo destino do pai. Com o auxílio da avó, começou a criar ainda na infância. Aos oito anos, esculpiu as primeiras peças.

O governador Paulo Câmara e a primeira-dama Ana Luíza lamentarm a morte. “Pernambuco amanheceu mais pobre culturalmente com o desaparecimento do Mestre Manuel Eudócio, único artista vivo da geração do Mestre Vitalino, de quem foi discípulo, e um Patrimônio Vivo de nosso estado. Com sua humildade cativante e grande sensibilidade, criou estilo próprio, misturando cenas do cotidiano nordestino com figuras das nossas ricas festas populares. Essas esculturas coloridas estão hoje espalhadas pelo mundo. Queremos apresentar nossos sentimentos e solidariedade aos seus familiares, que, tenho certeza, vão levar à frente o legado”, declararam.

Especialistas investigam o caso

Diante da informação da família de que Manuel Eudócio estava com um quadro de chikungunya, uma equipe da Gerência Regional de Saúde que abrange o município de Caruaru está desde ontem levantando mais detalhes sobre o caso.

A Secretaria Estadual de Saúde (SES) afirmou que irá aguardar as informações da regional para, só então, incluir ou não a morte do artesão como um óbito em investigação por chikungunya nas estatísticas oficiais. Até então, o estado tem uma morte em investigação pelo vírus, de uma índia de Pesqueira, falecida em janeiro.

Assim como a dengue e o zika, a chikungunya é transmitida pelo Aedes aegypti. Os sintomas são febre repentina, dores nas articulações e músculos, dor de cabeça e manchas vermelhas.

Entre 3 e 23 de janeiro, foram notificados em Pernambuco 1.507 casos de chikungunya em 87 municípios, o que representava um aumento de 114% nos suspeitos em uma semana. Desses, 100 estavam confirmados e outros 188 descartados. Em Caruaru, até a 5ª semana epidemiológica, havia 454 suspeitos de chikungunya, doença que avança na cidade mais do que a zika, com 171 notificações, e a dengue, com 240.

“Estamos trabalhando de todas as formas para fazer o controle do Aedes aegypti. Desde a utilização de peixes em reservatórios até larvicidas e bombas costais. A equipe de vigilância sanitária está trabalhando exclusivamente com isso. Existem também pessoas trabalhando com motocicletas, para receber denúncias e reclamações”, explicou o diretor de Vigilância em Saúde de Caruaru, Paulo Florêncio.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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