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Artista tenta resgatar cerrado que existiu em São Paulo

Paula Moura

De São Paulo para a BBC Brasil

Onde a maioria das pessoas vê um terreno baldio cheio de mato, o artista plástico Daniel Caballero, 42, enxerga resquícios de uma São Paulo pré-concreto.

“Muita gente pensa que a vegetação aqui era só de Mata Atlântica, mas predominavam campos, ou seja, havia cerrado”, argumenta. “Aqui tinha um pantanal, provavelmente até com tuiuiú, igual ao Pantanal mato-grossense.”

Há oito meses, ele anda por terrenos da metrópole em busca de plantas para compor o ‘Cerrado Infinito’, uma trilha de 50 metros que começou na Praça Homero Silva, conhecida como “Praça das Nascentes”, no bairro da Vila Madalena, na zona oeste da cidade.

Há desconhecimento sobre o que foi o cerrado paulistano, uma vez que a paisagem foi sendo substituída por árvores “importadas”, chamadas de exóticas, explica Daniel.

A Prefeitura de São Paulo mapeou 650 mil árvores nas vias públicas e nas cerca de 5 mil praças da cidade. De todas elas, apenas 477 são exemplares de ipê branco, a única classificada como árvore do cerrado pelo órgão.

Nas vias e praças de São Paulo, a maior parte das árvores é exótica (62%) e apenas 37% são nativas ? retrato de uma época em que não havia consciência de que plantas exóticas podem se tornar pragas e roubar espaço, nem de que as nativas oferecem recursos para os animais locais, como beija-flores e abelhas.

Pouco se sabe sobre a vegetação que existia em São Paulo. Segundo a bióloga Elza Guimarães, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), acredita-se que a cidade era coberta por vegetações diversas, incluindo áreas de formações mais abertas (cerrado), entremeadas por Mata Atlântica, florestas com pinheiros e vegetação ribeirinha às margens dos rios e áreas de brejo.

Poucos naturalistas visitaram São Paulo quando ainda existia a cobertura original, já encontrando a vegetação bastante adulterada.

Terrenos baldios e mutirão

Para seu projeto, Daniel se veste de “explorador” e visita terrenos baldios e margens de avenidas, locais que, por não serem alvo de especulação imobiliária, podem abrigar espécies escondidas ? inclusive de plantas do cerrado.

A partir de pesquisas em livros de botânica, ele desenha ou fotografa os exemplares escolhidos e recolhe alguns deles, para serem replantados.

Desde que começou a desenhar, na infância, foi incentivado por seu professor a desenhar plantas e, aos dez anos, ganhou um livro do pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), que ilustrou expedições pelas Américas no século 19.

A exemplo dele, Daniel está montando um catálogo com 70 plantas da praça na Vila Madalena. Esses desenhos e informações sobre as espécies estarão disponíveis em breve para quem visitar o local, podendo acessá-los por meio de Código QR.

Todo sábado, às 10h, o artista está lá perto de uma formação rochosa e algumas árvores retorcidas que considerou ideais para fazer renascer o cerrado paulistano.

No início, trabalhava apenas acompanhado da namorada, a arquiteta Mariana Andrade Prata. Mas a iniciativa cresceu e hoje ele recebe ajuda de voluntários.

Além de ajudar a plantar, um deles, por exemplo, se ofereceu para fazer o site do projeto.

O artista Lúcio Tamino plantou cerrado em sapatos e deixou a obra na praça. Outra artista, Letícia Rita, instalou caixa de sons para trazer de volta o piar de um pássaro noturno raro. Já o grafiteiro Júlio Barreto ilustrou lobos-guarás na praça e numa escadaria próxima.

“É um trabalho relevante não só para a cidade, como para as pessoas que vem aqui e pensam ‘que monte de capim é esse?’ Chama atenção para espécies nativas do país”, defende Barreto.

Borboletas

Além da nova diversidade de plantas da praça, com flores diferentes, já é perceptível o aumento da visita de borboletas, abelhas e outros polinizadores.

Edegar Bernardes, biólogo, visitou o local e ficou impressionado com as espécies encontradas por Caballero. Entre elas, cita a fruta-do-lobo ou lobeira, um arbusto com flores roxas e frutas esverdeadas. “O nome faz lembrar que o lobo-guará existia em São Paulo, alimentava-se desse fruto e dispersava as sementes”, diz.

A pequena árvore de araçá-do-campo, que deu nome ao cemitério e ao Caminho do Araçá, atual avenida Consolação, também é cerrado. Outra planta é a língua-de-tucano, erva ornamental com folhas verde claras que lembra o formato da coroa do abacaxi.

Na praça, também são encontradas as chamadas PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), que as pessoas foram deixando de comer por causa da padronização da indústria, segundo o colaborador Guilherme Ranieri, gestor ambiental.

São comestíveis os frutos das orelhas-de-onça, do murici, e as hastes florais do capim assa-peixe e dos gravatás.

Cerrado na zona leste

Ele planeja espalhar o ‘Cerrado Infinito’ por locais da capital, e um já está em construção na Escola Jardim das Camélias, na zona leste, em uma área de vulnerabilidade e realidade social bastante diferente daquela da Vila Madalena.

Daniel foi convidado pela artista e arte educadora Sílvia Maria Garcia, 38, para conversar com alunos, que ajudaram no plantio das espécies.

Para ele, trazer essa nova vegetação é uma “descolonização” da paisagem.

“Plantar o que tinha aqui antes de todo esse processo (de urbanização) é fazer uma tábula rasa, de apagar para permitir escrever de novo. O objetivo é que as pessoas saiam da cidade, voltem no tempo, criem uma intimidade com essas plantas, comecem uma cultura nova”, explica.

Acima de tudo, porém, ele diz se tratar de um “trabalho de arte”, mais do que uma preocupação em salvar o ecossistema. “É um trabalho simbólico, com a única utilidade de reflexão, de questionar nossa história. Espero que daqui a um tempo vire terreno baldio, vire selvagem, um refúgio para plantas e animais e haja uma lei ‘não podemos podar o Cerrado Infinito’.”

A Prefeitura não foi comunicada sobre o trabalho na praça da Vila Madalena, o que Daniel considera fazer parte do perfil de ocupação da obra artística, e o ‘Cerrado Infinito’ tem sido respeitado pelo órgão público nas podas recentes.

A praça tem outros trabalhos de recuperação por parte de voluntários, como o lago cuidado pelo coletivo Ocupe e Abrace.

Fonte: Bol.com.br

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