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Assuero Gomes: O Silêncio dos Inocentes

Quando as crianças gritam de dor nas esperas intermináveis das filas dos hospitais e ambulatórios do serviço público de saúde, ou quando as gestantes buscam maternidades que não há, como num filme de horror, as palavras do pastor negro, Dr. King, cobrando a omissão dos justos frente à injustiça, caem pesadas sobre a nação; ou ainda quando se pergunta por quem os sinos dobram, e ninguém responde como se nada estivesse acontecendo, há um grito mudo no ar.
Entidades e pessoas, pessoas e entidades, de passado combativo, cuja voz ecoava e fazia vibrar os corações e os pulsos de um país, hoje quedam silenciosas frente a um desmonte sem antecedentes, e parecem ouvir uma suave melodia como Maria Antonieta às vésperas da Revolução ou mesmo a corte brasileira nas noites que antecederam ao golpe militar republicano.
Percebo em mim e em outras pessoas a angústia que Clarice Starling sentia quando, mesmo depois de adulta, ouvia o som das ovelhas sendo mortas na fazenda de sua infância, e eram para ela como o grito de crianças sofrendo.
O Brasil está literalmente sacrificando suas crianças, gestantes e idosos, numa nem tão sutil desfaçatez, aniquilando a chance de um futuro melhor para as gerações que estão iniciando suas vidas, jogando pelo ralo da história a esperança de ser uma pátria mãe.
O silêncio das entidades incomoda tanto quanto o grito dos inocentes. A estrutura vil de poder que se instalou faz Dr. Lecter parecer um beato. Os tentáculos e as mandíbulas do Mal já avançam nas entranhas da nação e a decompõem em pedaços indigestos, e os que silenciam, como se consentissem, serão julgados, quiçá severamente pelo futuro.
Houve um tempo, não tão distante, que instituições se rebelaram contra coturnos e fuzis e mantiveram acesas as chamas da cidadania que só a liberdade alimenta. Hoje o descalabro de propinas, negociatas, processos escusos, desmontam a nação e o silêncio dos justos incomoda mais que o cinismo dos ímpios.
Dr. Hannibal Lecter comandava as mentes criminosas de dentro das grades, numa prisão de segurança máxima. Vale a pena lembrar a frase que ele continua dizendo para a futura geração de brasileiros, ‘nossas cicatrizes servem para nos lembrar de que o passado foi real’.
O início das investigações mostra a procura de um perfil psicológico de um assassino em série de mulheres que deixa sempre a pista de uma mariposa tropical no corpo de suas vítimas (as mulheres não eram gestantes nem as mariposas estavam contaminadas com nenhum vírus). Clarice busca, a partir do mentor do criminoso, desvendar o submundo tenebroso das mentes doentias. Clarice é da Polícia Federal Americana (FBI) e consegue solucionar este caso apesar das várias tentativas de intromissão na sua investigação.
O processo de corrupção que se instalou no país é tão predador que se tornou autofágico, como um canibal que se vê sozinho numa ilha e come seu próprio corpo.
Ao final o Dr. Lecter pergunta “ainda ouve as ovelhas à noite, Clarice?”. Aqui ainda gritam e gemem, toda noite.

Dedico esse texto em homenagem à CNBB e à OAB.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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