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Comédias nacionais fazem sucesso com histórias de sortudos que ficam ricos

Rodrigo Sant'Anna e Carol Castro no filme Um Suburbano Sortudo. Foto: Downtown Filmes/ Divulgação
Rodrigo Sant’Anna e Carol Castro no filme Um Suburbano Sortudo. Foto: Downtown Filmes/ Divulgação

 
Na última quinta, entrou em cartaz Um suburbano sortudo, que tem chances de tornar-se um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional em 2016. O protagonista, interpretado pelo comediante Rodrigo Sant’Anna, é um camelô que descobre ser filho de um milionário recém-falecido e recebe uma herança milionária. O filme tem diversas características em comum com comédias brasileiras lançadas nos últimos meses, mas a principal delas é a presença de personagens que ficam ricos de repente e precisam acostumar-se a um novo e luxuoso estilo de vida.

Tramas semelhantes foram vistas recentemente no filme Vai que cola, com Paulo Gustavo, e na trilogia Até que a sorte nos separe, com Leandro Hassum. O próximo lançamento a apostar na fórmula será Tô ryca, com Samantha Schmütz.

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Um suburbano sortudo foi dirigido por Roberto Santucci, o mesmo criador da série Até que a sorte nos separe, cujo primeiro episódio retrata a ascensão de uma família sorteada pela loteria. Ele também dirigiu outros sucessos nacionais, como Loucas pra casar e De pernas pro ar. “Dinheiro no Brasil é um problema e comédias nascem de problemas. Os filmes de pobres que ficam ricos aliviam, ainda que por algumas horas, um drama diário: a tensão nossa do dia a dia de ter que fazer as compras do mês”, disse o cineasta em entrevista cedida ao Viver.

Para Santucci, “quando um personagem nosso adquire uma fortuna é como se o espectador se sentisse ganhando aquela fortuna também. O espectador se imagina naquela situação e se sente bem. Já que não podemos resolver os problemas da vida real nos cinemas, vamos rir deles e quem sabe pensar em soluções de uma maneira alto astral”.

Origem nos clássicos

A ideia de retratar personagens que mudam de posição econômica rapidamente não é nova e tem antecedentes em clássicos da literatura, como O príncipe e o mendigo, do escritor Mark Twain, lançado em 1881, já adaptado para o cinema em diferentes épocas (as mais famosas são as de 1915, 1934 e 1977). Na história, um rapaz pobre é confundido com o herdeiro de um trono, já que os dois são fisicamente iguais, e passa a viver em meio à nobreza.

Um dos maiores especialistas nesse tipo de história foi o cineasta norte-americano Frank Capra, em clássicos como Dama por um dia (ele dirigiu as versões de 1933 e 1961), Aconteceu naquela noite (1934) e O galante Mr. Deeds (1936), refilmado em 2002 com Adam Sandler no papel principal (lançado no Brasil com o título A herança de Mr. Deeds). Vencedor de três Oscars e indicado mais três vezes, o diretor é, visivelmente, a grande inspiração de Santucci, que estudou cinema em Los Angeles. São filmes lançados na recuperação econômica dos EUA após a crise de 1929, uma época marcada por grandes mudanças sociais durante os governos de Franklin Roosevelt.

João Evangelista Neto, professor de Filosofia da Universidade Católica de Pernambuco, acredita que, assim como ocorreu no tempo de Capra e Roosevelt, o sucesso das novas comédias nacionais está relacionado ao momento socioeconômico vivido pelo Brasil neste início do século 21. “Acho que esses filmes refletem os conflitos de identidade de classe que estamos passando por conta da mobilidade social que aconteceu nos últimos anos”, interpreta o pesquisador.

Na opinião de João Neto, a ascensão de uma nova classe média alterou símbolos que eram antes associados apenas à elite. “A distinção se dava, sobretudo, por meio da capacidade de consumo material e pelo acesso a produtos que estavam além do poder aquisitivo das outras classes”, explica o professor: “Acho que esses filmes brincam com essa crise de identidade pela qual o Brasil vem passando”, acredita.

Flatulências e ironias sobre a crise

Um suburbano sortudo atira para todos os lados. As piadas não perdoam ninguém e atingem tanto os pobres quanto os ricos. O humor tem várias camadas e é predominantemente escrachado (com momentos de escatologia sustentados por arrotos e flatulências), mas também envolve algumas referências às contradições da intelectualidade brasileira, como uma sátira a Clarice Falcão e aos prêmios conquistados pelo cinema nacional. Há um personagem paulistano que venceu a “Marmota de Ouro” no Festival de Copenhague por ter dirigido um filme chamado Urubus ao redor. O ex-camelô, que vendia DVDs piratas, é apresentado ao cineasta, mas diz que nunca ouviu falar nas obras dele.

Um detalhe interessante da trama é transmitir a lógica de que as crises econômicas são usadas como desculpa para empresários aumentarem os preços dos produtos, demitirem trabalhadores e assim disfarçarem a própria incompetência de gestão, quando pessoas mais humildes administrariam as mesmas empresas de forma mais eficiente por conhecerem a realidade de perto.

Em outros momentos, Um suburbano sortudo sofre de uma desnecessária falta de originalidade, já que há sequências copiadas de outras comédias. Em uma delas, graças a efeitos especiais e maquiagem, Sant’Anna interpreta simultaneamente quatro personagens de uma família em uma mesa de jantar onde as pessoas comem e também soltam pum. O professor aloprado (1996), com Eddie Murphy, tem uma cena semelhante, com os mesmos recursos cômicos.

TÔ RYCA
Com estreia prevista para maio, Tô ryca contará a história de uma frentista que ganha R$ 30 milhões para gastar em 30 dias, mas sem deixar ninguém saber. Se conseguir realizar o desafio, ela receberá ainda mais dinheiro. A protagonista é interpretada por Samantha Schmütz, que já integrou o elenco dos programas Zorra total, Vai que cola (também no cinema) e Tomara que caia, entre outros, e das novelas Totalmente demais, Pé na jaca e Cobras e lagartos. O humorista Marcelo Adnet, a pernambucana Fabiana Karla e a atriz Marília Pêra, que morreu em dezembro, fazem participações na comédia.

ATÉ QUE A SORTE NOS SEPARE (1, 2 e 3)
Lançado em 2012, Até que a sorte nos separe fez tanto sucesso que ganhou duas continuações. Os dois primeiros episódios estão entre os cinco filmes nacionais mais vistos nos últimos dez anos (cada um com mais de 3,5 milhões de espectadores). A terceira parte está em cartaz nos cinemas desde dezembro e já foi vista por mais de 3,2 milhões de pessoas. No novo episódio, após perder a fortuna acumulada nos capítulos anteriores, o personagem interpretado por Leandro Hassum está desempregado, sem dinheiro, e é atropelado por um dos homens mais ricos do Brasil. Depois de passar meses em coma, ele acorda e descobre que sua filha está noiva do milionário.

VAI QUE COLA
Baseado na série de TV comandada pelo humorista Paulo Gustavo, a comédia Vai que cola primeiro mostra o que acontece com um rico que vira pobre e depois inverte a situação. O protagonista perde o apartamento de luxo onde vive no Leblon e é obrigado a morar na periferia. Quando recupera as posses, ele leva os amigos suburbanos para o bairro nobre, onde eles entram em choque com o estilo de vida da elite econômica carioca. Foi o segundo filme brasileiro mais visto em 2015 (perdeu apenas para Loucas pra casar), com 3,2 milhões de espectadores. A continuação já foi confirmada oficialmente e chegará aos cinemas em 2017.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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