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Como é estudar na 'escola mais perigosa do mundo'?

Daniel Silas Adamson e Firas Kilani

da BBC

Em uma das vizinhanças mais pobres de Bengasi, no front da batalha na Líbia contra o grupo extremista autodenominado Estado Islâmico (EI), uma corajosa professora mantém sua escola aberta.

Fauzia Mukhtar Abeid continua a dar aulas apesar da ameaça das explosões de bombas e disparos feitos por franco-atiradores, determinada a fazer com que isso não seja um obstáculo para a educação de suas alunas.

“Tenho medo, muito medo. Temo que uma bomba caia em nós, porque a mesquita ao lado de nossa escola foi atacada faz pouco tempo”, diz a professora.

“Dispararam quando alguns estudantes iam receber lições sobre o Alcorão. A primeira bomba caiu próxima a um menino, e outro correu para ajudá-lo. Então, outra bomba veio, fazendo com uma das pernas do segundo garoto saísse voando. O primeiro também perdeu uma perna. Foi absolutamente horroroso.”

Ela tem todo o direito de ter medo, pois trabalha em uma escola no distrito de Sulmani, em Bengasi, um bairro da classe trabalhadora que, nos últimos anos, tem estado em meio ao conflito armado em curso no país.

A menos de 1km do pátio da escola, escondidos entre as ruínas de um conjunto de apartamentos, estão combatentes do EI e outros militantes islamistas.

Reconstrução

A escola foi fechada em maio de 2014, quando esta região se viu tomada por combatentes após o lançamento da Operação Dignidade, uma ofensiva militar para despejar as milícias islamistas alojadas em Bengasi.

As famílias com melhores condições abandonaram o local rapidamente ou enviaram seus filhos para colégios privados, longe do alcance da violência.

As crianças mais pobres não tiveram outra opção a não ser ficarem em casa. Depois de um ano e fartos de verem suas perspectivas educacionais sumirem, alguns estudantes e seus pais começaram a perguntar à professora Fauzia se ela reabriria a escola.

O prédio havia sido bombardeado e saqueado. Por isso, os pais criaram um fundo para pagar pelos consertos necessários.

“Algumas famílias contribuíram com 50 dinares (R$ 148), outras com 20 ou 5”, diz Hassan Omar, membro do conselho local. “Ao final, arrecadamos cerca de 1 mil dinares das famílias e recebemos outros 3 mil dinares do comitê de crise do governo.”

Enquanto trocavam vidros quebrados, trabalhadores também abriram um vão na parede de trás da escola para que a alunas pudessem entrar por uma rua mais protegida dos disparos.

“Há franco-atiradores a uns 3km de distância”, explica Omar. “Esta entrada nos ajuda a para evitar problemas.”

‘Queremos aprender’

As aulas voltaram a ocorre em dezembro de 2015. A eletricidade é intermitente. Uma água escura se acumulou em frente à entrada. E alguns professores se recusaram a voltar a trabalhar em um edifício que está sob o alcance de militantes.

Mas as crianças estão decididas a continuar com sua educação. “Não, não temos medo”, diz uma adolescente de 15 anos. “Queremos aprender.”

Walid al Furjani, pai de três alunos da escola, concorda: “Meus filhos ficaram sentados em casa sem fazer nada. Claro que me preocupo com eles, mas é importante que estudem”.

Muitos na Líbia pensaram que, depois da deposição do coronel e ditador Muammar Gaddafi, em 2011, gozariam outra vez das liberdades políticas básicas e teriam melhores perspectivas para seus filhos. Em vez disso, viram seu país rachar em dezenas de facções que agora travam um combate entre si.

Segundo o site Libya Body Count, que contabiliza os mortos do conflito com base em notícias da imprensa, mais de 4 mil pessoas perderam suas vidas nos últimos anos.

Alguns estimam que, atualmente, há 2 mil milícias operando no território líbio. Em meio ao caos, comerciantes de armas, jihadistas, guerreiros tribais e traficantes de pessoas têm prosperado.

Armamentos e munições saqueados do arsenal de Gaddafi têm sido comercializados no deserto para impulsionar as insurgências islamistas no Sahel, a região subsaariana da África.

Na direção contrária, centenas de milhares de imigrantes e refugiados fugiram deseperadamente para a Europa, assim como jihadistas africanos decididos a unirem-se ao EI precisamente quando o grupo começou a se assentar na Líbia.

Por um futuro melhor

A ONU estima que, atualmente, há cerca de 3 mil combatentes do EI no país. Um dos distritos onde estebeleceram uma presença é Sabri, que pode ser visto desde a escola de Fauzia.

Ela não tinha motivo para voltar ao trabalho. Seus filhos estão crescidos, e falta pouco para ela aposentar-se. Mas, quando os pais lhe pediram que reabrisse a escola, não pôde recusar.

“Não podia dizer não a eles e a seus filhos. Senti que era um dever nacional. Minha consciência exigia isso de mim, mesmo em condições perigosas. Espero que meu país possa encontrar um caminho mais adiante”, diz ela.

“Ao abrir a escola, tentamos reestabelecer um pouco da normalidade aqui. Apesar desta guerra, apesar de toda a destruição, seguimos adiante. Precisamos viver. Precisamos de um futuro para nosso país, de paz e sergurança. Basta, não precisamos de mais guerra. Em nome do futuro de nossos filhos, já basta.”

Fonte: Bol.com.br

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