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'Compartilhe a vergonha': Em shows de comédia, americanos leem em público diários da adolescência

  • Mariana Santos/BBC

Imagine pegar aquele diário antigo, dos tempos de escola, recheado de anotações “super-secretas” sobre a grande paixonite da adolescência, atritos com a família e descobertas sexuais, e ler tudo na frente de desconhecidos. Vergonhoso demais? Pois o que parece completamente embaraçoso para muitos ganha cada vez mais adeptos nos Estados Unidos.

Batizada de mortified (em português, “mortificado”, ou “envergonhado”), a ideia tem levado centenas de pessoas aos palcos para compartilhar com estranhos reflexões e sentimentos passados para o papel anos, décadas atrás – e rir muito deles.

A cada comedy show, os participantes revelam textos, desenhos e fotos até então escondidas em algum canto de casa.

São histórias dramáticas, poemas exagerados, letras constrangedoras de músicas que, na voz dos próprios autores, provocam muitas gargalhadas.

A última edição do Mortified em Chicago, edição especial pelo Dia de São Valentim (14 de fevereiro), revelou um capítulo de uma novela praticamente inteira, com 70 episódios, que saiu da cabeça da então adolescente Kerstyne Kromer.

Inspirada pela novela americana All my Children, Kerstyne escreveu “Bianca e Kirsten: uma história de uma garota sonhadora” quando tinha apenas 13 anos. Kerstyne vivia então uma paixão platônica pela atriz Eden Riegel, que, em sua novela, interpretava Bianca, a filha gay da trama.

“Fui obcecada pela Bianca dos 12 aos 19 anos”, lembra Kerstyne, hoje com 27, aos risos. Ela lembra que criou coragem para contar à mãe que gostava de meninas poucos meses após ter ido ao ar o capítulo em que Bianca revela à família ser lésbica.

“Minhas histórias eram sinceras, eu queria minha vida feliz daquele jeito”, conta. A felicidade ela garante ter encontrado anos mais tarde: Kerstyne e a noiva, Annie, se casam em setembro.

A produção do Mortified decidiu fazer uma surpresa e, por meio de uma teleconferência, a atriz Eden Riegel participou ao vivo do show, lendo as falas da personagem criada pela fã. “Estou anestesiada”, disse Kerstyne, emocionada, ao fim da apresentação.

Poemas agressivos

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Já o bibliotecário Rich Izzo, 45, era adepto dos poemas mais agressivos e rebeldes. Os mais de 40 catalogados em um fichário o ajudaram a extravasar conflitos internos de quem sabia que era um adolescente “esquisitão”, ele conta. “Vocês fãs do Bon Jovi me fazem vomitar!”, traz uma das estrofes.

Outra temática recorrente dos poemas de Rich era sexo – ou melhor, a ausência dele. Um deles é intitulado “Masturbação pode ser divertido”, e outros trazem estrofes como “Sexo não é tudo, mas é muito”.

Para ele, participar do Mortified foi uma oportunidade de fazer com que aquele tímido jovem de 17 anos passasse a contar com a simpatia do resto do mundo. “Ao contar uma história, as pessoas estão torcendo por você; rindo contigo, e não de você”.

Em uma época de hormônios à flor da pele, o tema sexo está em quase todos os diários e cadernos antigos trazidos pelos participantes, ressalta a produtora do Mortified em Chicago, Shay DeGrandis. As anotações são tão sinceras e engraçadas, ressalta Shay, porque foram feitas como se jamais fossem ser lidas por alguém.

Mas poucas são tão escrachadas como as da caça-talentos Elle Quintana, 40. Sua performance no último sábado contou com uma lista de 19 homens e as respectivas experiências sexuais que viveu com eles em um distante 1994. “Não me envergonho porque, graças a essas experiências, hoje eu sou esta mulher maravilhosa”, garantiu Elle ao público.

Mortified pelo mundo

A ideia de transformar diários antigos em conteúdo de show de comédia surgiu em 2002, quando o então estudante Dave Nadelberg descobriu uma carta que tinha escrito, anos atrás, para uma paixão da escola. Ao ler a carta para os amigos – que caíram na gargalhada – Dave percebeu o potencial do material que tinha nas mãos. Ele então reuniu outras pessoas que quisessem “compartilhar a vergonha” (“share the shame”, lema do Mortified), e montou uma apresentação em Los Angeles.

BBC

De lá para cá, Mortified ganhou fama e virou sensação após o lançamento do documentário Mortified Nation, em 2013. Atualmente, os shows acontecem em 22 cidades nos Estados Unidos e contam com edições em nove países, como México, Reino Unido, Holanda e França.

Ainda não há perspectiva de levar o evento ao Brasil, mas Dave garante que “adoraria” dar início a uma versão brasileira. Até lá, os mais curiosos ficam apenas com as histórias publicadas online e no Podcast, em inglês, em www.getmortified.com.

Para Shay DeGrandis, o sucesso dos shows deve-se a duas regras principais: o material deve ser autêntico, e nada pode ser alterado para soar mais engraçado. Além disso, só sobe ao palco o verdadeiro autor dos textos. “Senão perde o sentido e, em vez de ser divertido, a pessoa lá em cima parece ser um tremendo canalha rindo de alguém”, justifica.

Fonte: Bol.com.br

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