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Da precariedade da saúde pública do sertão às descobertas da zika

As pernas “fervem” com os ataques dos mosquitos, dentro ou fora do prédio de paredes semi-pintadas. Na recepção, há mais pedreiros que pessoas de jaleco. O barulho das marretas, o monte de entulho e os compensados de madeira bambos em nada se parecem com a imagem ideal de uma maternidade, mas é ali que encontramos a médica Adriana Melo desde 2000. E foi a partir de uma simples ultrassonografia feita no hospital que ela teve a ideia que conseguiu mudar o rumo do acompanhamento da zika no mundo.

Depois que ficou conhecida por dar provas da associação do vírus com a microcefalia, ela virou referência no assunto e vai dar palestra num congresso em Miami. Ela conta que já foi procurada pesquisadores britânicos e americanos, deu entrevista a diversos jornais e agências de notícias e, diz a recepcionista, falou com “The New York Times”. 

Bruno Landim Pedersoli/UOL

A descoberta de Adriana Melo conseguiu fazer com que a população combatesse o mosquito

Mas antes disso seu currículo já era digno de respeito: dois doutorados simultâneos sobre exercício físico na gravidez que estão na bibliografia de recomendações dos Estados Unidos sobre o assunto, mestrado em saúde pública e curso na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Durante a tarde, ela atende na clínica particular, e durante a manhã atua na maternidade pública, onde, segundo ela, “se sente mais médica e aprende mais”. É workaholic e conta que sempre gostou de estudar, o que a ajudou a chegar onde chegou. Nascida em Crato (CE) e criada em Pocinhos (PB), filha de pai motorista de praça, espécie de taxista de hoje, e mãe costureira, ela estudou em escola pública até conseguir bolsas por boas notas para terminar o Ensino Médio em Campina Grande.

Na época da faculdade, passava a noite na frente da biblioteca no primeiro dia de cada semestre para conseguir alugar os livros que precisava. Só devolvia seis meses depois, porque a multa compensava a falta de dinheiro para comprar os exemplares. 

Foi parar na obstetrícia, porque não gostava de lidar com a morte: “O parto é o início da vida”, diz.

Mas por trás de tanto trabalho e reconhecimento está uma estrutura cheia de problemas. A maternidade pública de Campina Grande conta com aparelhos obsoletos, vive o drama da seca, que provoca racionamentos de água há um ano, e, mais do que isso, sofre com a politicagem.

Quando a médica pediu ao Estado um equipamento para identificar a zika, conta que ouviu que o laboratório central da Paraíba estava sem espaço. E quando disse que conseguiria um local e um profissional para operar o aparelho, segundo ela, ouviu que pegaria mal uma cidade do interior ter uma máquina que a capital não tinha. Procurada, a diretora-executiva da Vigilância de Saúde da Secretaria Estadual Renata Nóbrega disse apenas que não daria resposta a casos singulares de médicos e que a médica recebeu “todo o apoio que solicitou do Estado”.

Adriana diz que até tem esperanças de que o alerta de emergência mundial dado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) traga políticas mais voltadas às necessidades da população ou dinheiro para pesquisa, mas é menos otimista sobre as perspectivas para mães e bebês com microcefalia.

Como serão transportadas as crianças?

Como serão transportados os grupos de até 15 crianças com problemas no sistema nervoso por centenas de quilômetros para três consultas de fisioterapia por semana?, se pergunta. Os carros de diferentes prefeituras da região parados no estacionamento da maternidade confirmam que, mesmo em reforma, este é o único centro de referência do sertão paraibano.

Talvez a descoberta da obstetra não resolva os graves problemas da saúde pública da região, mas uma coisa ela conseguiu: fazer com que a população aderisse ao combate ao Aedes.

Em maio do ano passado, a prefeitura de Campina Grande criou o “dengue zap” para receber pelo Whatsapp denúncias de locais perigosos. Eram vinte mensagens por dia. Quando a notícia de que a zika estaria ligada à microcefalia saiu, as mensagens dispararam e chegaram a 200.

Desde então, a Justiça autorizou a entrada à força em imóveis abandonados ou com possíveis focos do mosquito. A presidente Dilma Rousseff organizou um mutirão em todos os Estados, envolvendo todos os ministros, e os cientistas brasileiros ganham apoio para formar uma rede de pesquisas. 

O tema foi parar até nos debates das primárias das eleições presidenciais dos Estados Unidos e virou preocupação para os jogadores das próximas Olimpíadas, que acontecem no Rio.

“Meu mundo desabou, mas depois foi só alegria”

Fonte: Bol.com.br

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1 comentário

  1. Essa médica sim precisa comemorar o dia da Mulher! Poucas tem esse direito…
    É de arrepiar a reportagem de hoje da Zero Hora dominical com ela;!

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