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Editorial: Recessão e rebaixamento

Está difícil virar a página de 2015. Se as turbulências da política ainda reverberam em 2016, os dados fechados da economia continuam assustando. São  tão ruins, que acabaram obrigando os economistas a um exercício quase impossível: calcular com que profundidade os efeitos dos males do ano passado feriram o desempenho da economia brasileira deste ano.
Se ninguém contava com mais nada de positivo do setor industrial – o primeiro a ser devastado pela crise que marcou a economia brasileira nos últimos cinco anos -, do comércio e dos serviços, que se expandiram na voragem da urbanização, se esperava que pelo menos quedas menores ajudariam a mitigar o resultado final do Produto Interno Bruto (PIB), ainda não divulgado.
Mas, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) levou apenas dois dias para enterrar as esperanças. Na última terça-feira, foram divulgados os dados de fechamento das vendas do varejo ampliado (inclui veículos e material de construção) em todo o país: foi o pior resultado de toda série histórica, iniciada em 2001, queda de 8,6% em relação a 2014. Mesmo no varejo restrito, a recessão bateu forte e provocou um recuo de 4,3% nas vendas.
Já na última quarta-feira, foi a vez da divulgação do desempenho dos serviços. Esse foi um dos principais motores do crescimento da economia brasileira nos anos que antecederam a atual derrocada. Os serviços, em praticamente todas as modernas economias do mundo, tornaram-se o mais representativo dos setores na formação do PIB. Impulsionado pela acelerada urbanização do país, no Brasil, os serviços foram rapidamente ocupando o espaço que historicamente pertencia à indústria, chegando a cerca de 70% do produto bruto.
Daí a importância do seu desempenho. A série histórica é recente no Brasil, tendo se iniciado em 2012 e nunca tinha registrado resultado negativo. Nem mesmo em 2014, quando tudo piorou na economia do país, fechando com crescimento de 2,5%. Mas, segundo o IBGE, a primeira queda no setor de serviços não foi leve: -3,6%, em 2015.
Na economia, não há fato isolado, a baixa atividade industrial afetou o desempenho do transporte de cargas. O desemprego, a inflação e os juros elevados fizeram o resto do estrago, reduzindo a capacidade das pessoas de viajar, se divertir, cuidar da beleza e até da saúde.

Tudo isso provoca a escassez do principal combustível da atividade e do crescimento econômico: a confiança. O governo não tem conseguido emitir sinais convincentes de que vai dar fim ao desarranjo fiscal e, muito menos, de que será capaz de reanimar o consumo e os investimentos.
Os primeiros cálculos dos efeitos na economia deste ano são, por isso mesmo, desanimadores. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil, em um ranking de 188 países, só não terá PIB pior do que o da Venezuela, com uma queda de 3,5% pelo segundo ano seguido. E a Standard & Poor’s, ante quadro tão ruim da economia e da intenção do governo de não cumprir a modesta meta fiscal de 0,5% do PIB, rebaixou a nota do Brasil pela segunda vez em apenas cinco meses.

Em qualquer doença, o primeiro passado para a cura é reconhecer o mal. O governo precisa reconhecer a existência e a gravidade da crise econômica e passar a enfrentá-la. Insistir nos erros de um modelo fracassado só vai aumentar o sofrimento da população.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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