Entrevista: para ex-presidente do BC, Dilma deixará herança maldita

Gustavo Loyola é um economista que conversa de forma pausada, em voz baixa. Isso não reduz a contundência do que diz. “A presidente Dilma Rousseff deixará, sim, uma herança maldita para seu sucessor”, avisa. Presidente do Banco Central em dois momentos, no fim do governo de Fernando Collor e no início da gestão de Fernando Henrique Cardoso, ele diz que nunca lhe mandaram mexer na taxa de juros, diferentemente do que acredita estar ocorrendo atualmente. Para ele, o BC é um dos maiores responsáveis pela crise atual.

“Contribuiu para que fosse ferido de morte o regime de metas de inflação”, assinala. Loyola duvida de que o atual governo terá convicção e força política para levar adiante as reformas de que o país precisa para encurtar a crise, como a da Previdência Social. Para o economista, as turbulências que empurraram o país para uma gravíssima recessão só deverão passar em 2017, deixando um país em frangalhos. “Quando voltarmos a crescer, o tamanho das nossas pernas será menor”, acredita. Como metáfora da situação que atravessa o país, um temporal batia à janela da sala de reuniões da Tendências Consultoria Integrada, que tem Loyola como um dos sócios, em São Paulo, durante a entrevista que ele concedeu ao Correio. Leia os principais trechos.

A crise econômica será pior do que imaginávamos há pouco tempo?
Sem dúvida. Em 2014, crescemos quase zero. Em 2015, a queda foi de quase 4% e, neste ano, a expectativa é de um número parecido com esse. Em 2017, esperamos que o Brasil atinja o fundo do poço, sem variação positiva. É o pior período para a economia na nossa história. Só rivaliza com a crise de 1929. Não havia ainda o cálculo do PIB, mas há estimativas de dois anos de recessão ali. No Brasil contemporâneo, urbanizado, é uma coisa inédita.

Quais os efeitos disso para o país a longo prazo?
Isso tem consequências bastante sérias do ponto de vista da recuperação. Nesse período de crise, se destrói muito capital, inclusive capital humano. Pessoas se afastam do trabalho, perdem suas experiências. E quando vem a retomada da economia, ela é mais difícil. Mesmo que a confiança retome, você tem de construir, ao menos em parte, a capacidade produtiva que perdeu. Além disso, muitos investimentos feitos no Brasil nos últimos anos são pouco produtivos, que não darão capacidade para a retomada do crescimento.

O que é preciso fazer?
Compartilho da opinião de economistas de que o país precisa de reformas, que aumentem a produtividade e incentivem a alocação correta de capital no Brasil. A gente precisa ter menos ingerência do Estado nas decisões econômicas. E superar a crise fiscal, que é o grande nó górdio.

A interferência do Planalto da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) prejudicou a credibilidade do Banco Central?
A credibilidade do BC já vinha sendo machucada em vários episódios anteriores a esse. O BC foi um dos contribuidores para a crise atual. Em 2011, embarcou em uma política de derrubada dos juros, no contexto da chamada Nova Matriz Econômica, que não guardava nenhuma correlação com o que estava acontecendo no ambiente inflacionário. As expectativas estavam já piorando, e o BC potencializava a política expansionista feita do lado fiscal e do crédito dos bancos públicos. Contribuiu, naquele momento, para que fosse ferido de morte o regime de metas de inflação. A comunicação com os agentes econômicos começou a ficar difícil, uma espécie de diálogo de surdos. Quando, em 2014, o BC retomou a alta de juros, interrompida no período eleitoral, ele estava procurando correr atrás do prejuízo.

Desde então, houve acertos?
Em 2015, o BC fez, durante grande parte do ano, uma política mais focada na busca por uma convergência para a meta em 2016, tanto que as expectativas para a inflação se comportaram bem. Mas, recentemente, coincidindo com a mudança do ministro da Fazenda, o BC abandonou as declarações que vinha dando ao mercado. Sob pretexto da mudança do diagnóstico do FMI (Fundo Monetário Internacional) sobre a economia mundial, deu uma espécie de cavalo de pau na política monetária. Não me convenceu de que isso foi por causa de uma alteração no cenário externo. Entre dezembro e janeiro, não houve grande mudança. E o jeito como se fez, o fato de a mudança ter se seguido a um encontro do presidente do BC com a presidente da República, levanta a hipótese de ingerência política. Isso desancorou totalmente as expectativas. Basta observar a pesquisa Focus. O mercado reduziu as expectativas para as taxas de juros e aumentou as do câmbio e da inflação. O BC hoje está em uma situação complicada. Acho que seria defensável não ter elevado os juros em janeiro. Mas o banco destruiu o trabalho que estava construindo.

O BC errou na construção do cenário anterior, na mudança ou nas duas coisas?
Acho que o BC tinha um quadro correto em dezembro: de que a inflação viria mais forte agora, e que corria o risco de fugir da meta. Mesmo assim, poderiam ter dito: apesar do nosso diagnóstico, vamos esperar mais um pouco, porque a atividade econômica está muito fraca. Sem abandonar o diagnóstico, poderia ter adiado a alta dos juros. Só que o BC mudou o diagnóstico. Hoje, parece que a inflação se tornou um objetivo menor, ou adiado, mais uma vez, para 2017. Quer dizer: quando você chega perto da meta, você não dobra a meta (risos), mas adia.

Quando o senhor presidiu o BC, havia interferência política?
A interferência foi mínima, embora houvesse um diálogo muito próximo com o Ministério da Fazenda e com o presidente da República. Nada do tipo “baixe os juros”. Havia discussões sobre a estratégia da estabilização, que veio daquela obra coletiva que foi o Plano Real. Na minha gestão, o tema dominante era a crise bancária. E, dadas as implicações, o BC não poderia fazer tudo sozinho. Mesmo na crise recente nos Estados Unidos, o Fed e a Secretaria do Tesouro trabalharam muito proximamente.

A autonomia tem chances de emplacar?
Algo intrigante nos nossos políticos eleitos, independentemente do partido, é que eles têm forte resistência à autonomia do BC, embora sejam favoráveis a mandatos para agências reguladoras. Há uma incompreensão sobre isso, como se isso desse ao BC as características de um quarto poder. Não: é uma autonomia muito restrita para executar determinando objetivo, que é a estabilidade da moeda. Em todos os países com BC independente, os políticos exercem controle sob certas regras. Se não estiver cumprindo os objetivos, ou se algum objetivo maior se colocar. Tem um caso clássico do BC mais poderoso que houve, o Bundesbank. No processo de reunificação das duas Alemanhas, o parlamento não considerou a opinião da instituição e estabeleceu que um marco da Alemanha Oriental valeria o mesmo que um marco da Alemanha Ocidental. Ao se atribuir mandatos aos diretores, não quer dizer que eles são inamovíveis. O BC é uma instituição de Estado. Não pertence ao governo do PT, do PSDB.

Os juros mudariam com a independência do BC?
A credibilidade é vista como um substituto parcial para os juros. Se você tem um BC que é visto como líder de um processo de estabilização, autônomo e comprometido com determinados objetivos, quando sinaliza em determinada direção, as expectativas dos agentes econômicos começam a sinalizar naquele caminho. Isso leva a uma mudança de comportamento que facilita alcançar os objetivos. O BC não precisa comprar credibilidade com altos juros.

Há riscos de disparada da inflação?
Não, porque não existe combustível para a inflação disparar, não tem demanda. O problema é que ela pode se transformar em um processo crônico mais profundo, porque temos mecanismos de indexação ainda fortes no Brasil. E é um efeito cumulativo. Uma coisa é perder 8% de seus rendimentos em um ano. Outra coisa é isso em dois anos, três anos. A demanda por indexação aumenta. E fica difícil se opor. O custo para desinflacionar fica mais elevado. A inflação está em um nível relativamente alto.

Quais as outras limitações do BC?
Existe a questão fiscal, extremamente delicada, que cria obstáculos para o BC usar a taxa de juros. Quando se cria essa percepção de que o BC está manetado pela política fiscal, ele perde credibilidade. Isso não é culpa das pessoas que estão no BC. Hoje, nós temos um problema que é de liderança política. O que a sociedade brasileira precisa é da retomada de confiança. Primeiro com uma crença na correção dos rumos da política fiscal. A ideia de que vai reverter o deficit e que a dívida pública não vai ter trajetória explosiva. O outro aspecto são as expectativas de inflação. Resolver isso gera mudança das expectativas dos consumidores e dos empresários em relação à economia e um processo benigno de retomada. Mas isso não é suficiente. O Brasil precisa de reformas. Temos um regime tributário ruim.

Não vai sair a reforma?
A chance é muito baixa. Como baixas são as chances de ter a CPMF (Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira) para ajudar a resolver o deficit primário. É um círculo vicioso: como não se recupera a confiança, o Brasil não cresce, como não cresce, não recupera a receita. E é uma crise fiscal que não é só do governo federal, é dos estados e municípios também.

O país ter descido mais um degrau na agência de classificação de risco S&P é consequência disso?
Tem a ver, mas não é só isso. Está se solidificando uma percepção de que a crise é mais profunda e demorada do que o que se esperava no início, de que não vai ter uma recuperação, de que provavelmente durante o restante da administração da presidente Dilma o Brasil vai continuar lutando contra os mesmos problemas. Na visão da S&P, a nota do Brasil não chegou a um piso. Ela pode ser ainda pior.

A reação da população a isso não deveria ser mais forte?
Uma coisa que amortece no Brasil é o fato de ter uma rede de proteção social que não é desprezível. Se somarmos as pessoas que dependem do governo, como aposentados e funcionários públicos, além de Bolsa Família, é um número muito grande. E, em geral, são pessoas de menor renda. Sem isso, os efeitos de dois anos de recessão seriam muito grandes. Mas a presidente ter menos de 10% de popularidade reflete a situação econômica. As pessoas não estão satisfeitas. Agora, se isso se transformará em um movimento, é uma questão da sociedade. Não podemos descartar que ocorra. O desemprego deve afetar mais as pessoas. Quem sofre mais é a classe média, que está “ensanduichada”. Perde renda, perde emprego. Isso vai gerar muita insatisfação ainda. É uma situação em que a presidente dificilmente conseguirá recuperar a base política. A Dilma, sim, deixará uma herança maldita. Quem for eleito em 2018 terá de lidar com tudo isso. O momento que estamos vivendo é pior do que a década perdida dos anos 1980 em termos de crescimento.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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