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Estevão Moura: Lirismo do frevo ou como dizia o Edgar…

O termo lírico vem do grego lyrikós, “cantar com acompanhamento de lira”. Esse lirismo, colocado como algo clássico dentro da manifestação musical do frevo de bloco, relaciona-se com algo mais íntimo que evidencie e exalte sentimentos pessoais de saudade, de amor, de paixão dentro da variação desse ritmo, claramente pernambucano chamado. Assim, o termo lírico não se caracteriza com algo elitista como geralmente vemos vulgarmente se associar a ele. O que é lírico não é algo que pertence ou só é acessado por uma classe de pessoas abastardas. Em outras palavras, ser lírico não é uma benesse que apenas alguns possuem e outros não. Ser lírico é essencialmente gostar de saudar e sentir o que já se passou.

Dessa forma, e há muito tempo, esse relacionamento com o passado está presente nas agremiações de frevo de bloco (ou marcha de bloco) tanto na formação de sua base instrumental (violões, bandolins, banjos, violinos todos descendentes da lira grega) como também no conteúdo poético das suas letras, se aproximando de temas ibéricos de amor. Sua formação tem claramente uma estrutura semelhante ao do pastoril tradicional. Não por acaso, pois dos pastoris tradicionais, do fim do século XIX, surgiram grupos de músicos que se organizavam após o período natalino para a tradicional queima da lapinha, formando instrumentalmente um bloco de músicos homens e um corpo de baile formado por mulheres que dançavam e cantavam “protegidas” dentro desse folguedo por outros homens também.
Podemos dizer que o frevo de bloco, com as suas agremiações, é decorrência dessa formação de pastoris de subúrbio, pois possuem a mesma instrumentação musical e estrutura de apresentação com homens e mulheres. Ou seja, digamos que o frevo “encontrou” nestes pastoris uma forma de concretizar musicalmente o que viria se chamar bloco misto (com homens e mulheres, coisa rara para época), executando frevos com um andamento próximo ao que se tocava nestes grupos de subúrbio.

Estando o nosso povo sempre muito próximo das manifestações tradicionais da nossa cultura e atrelado ao fato, significativo para esse texto, de que quem basicamente “brincava” carnaval nas ruas do Recife dos anos 20 do século passado – década que marcou o surgimento dos primeiros blocos pedestres de frevo – eram as classes mais pobres, compostas por trabalhadores braçais e pequenos comerciantes como também os intelectuais, jornalistas, boêmios e políticos (estes sim, alguns de classe média) que se arvoravam ao bel prazer das multidões, é que podemos afirmar que o frevo de bloco assim como o frevo, nasceu na rua, do povo e para o povo. A classe média naquele momento brincava carnaval em bailes buscando simular os bailes de máscaras europeus de herança veneziana e propagado pelos parisienses que permaneciam ditando moda para o mundo todo, naquele momento. Quando estava na rua durante o carnaval, a classe média brincava em corsos, importando lanças perfumes para o seu torpor e prazer, de forma anárquica e divertida.

Se hoje, pela própria anarquia e informalidade existente e inerente ao carnaval, temos agremiações de frevo de bloco (ou bloco lírico, como se menciona comumente na imprensa) com um grande número de foliões da classe média, é de se enaltecer e estudar esta capacidade de romper barreiras sociais que o frevo traz em seu cerne. No entanto, justamente por hoje acessarmos tantos canais de difusão e informação, e uma capacidade imensa de lidar e evidenciar essas informações é que temos o dever de procurar esclarecer, ou tornar mais claro para um público mais jovem que não viveu e não tem como conhecer as raízes e os componentes culturais relevantes que formaram e formam – e sempre formarão – nossas tradições carnavalescas. E, parafraseando o título de um frevo de bloco do genial compositor Edgar Moraes, “a verdade… é esta”: O lirismo está para o povo, como sempre esteve por cultura e tradição.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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