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Há 20 anos, visita a índios e choque cultural criavam clássico do Sepultura

Vinte anos após o lançamento de “Roots“, que se completa neste sábado (20), o sexto álbum da carreira do Sepultura está aprovado no “teste do tempo”: ainda é um dos discos mais influentes na história do heavy metal. Com mais de 2 milhões de cópias vendidas pelo mundo, o trabalho é referência, mas não só musicalmente. A ida do grupo a uma tribo indígena para gravar a faixa “Itsári” até hoje marca os envolvidos, de a banda ao líder da comunidade, Cipassé, que os recebeu em novembro de 1995.

Em entrevista ao UOL, o guitarrista Andreas Kisser, o ex-vocalista Max Cavalera e o então líder dos xavante, Cipassé, relembraram o encontro histórico. Choque cultural é o termo que melhor define a reunião entre quatro jovens metaleiros, tatuados e de longos cabelos, e índios que ainda vivem no campo, fincados em suas raízes. A ideia partiu do Sepultura, mas gerou frutos para ambas partes, levando a cultura dos xavantes para o mundo todo.

O flerte do Sepultura com a música tradicional brasileira teve início no álbum anterior, “Chaos AD“, na música “Kaiowas“, uma composição acústica e focada no violão e percussão. Max conta que a ideia de fazer algo junto a uma tribo indígena cresceu entre eles, principalmente quando ele assistiu ao filme “Brincando nos Campos do Senhor”, em que missionários americanos tentam converter índios ao cristianismo. “A parte do filme em que Tom Berenger se lança de paraquedas [para cair na aldeia] me deu a ideia para ‘Roots’. Pense: ‘Vamos lá gravar um disco com a tribo. Seremos a primeira banda a fazer isso'”, diz Max, em sua biografia, “My Bloody Roots”.

Primeiro ele teve de convencer a gravadora Roadrunner. Depois, entrou em contato com a jornalista Angela Pappiani, do Núcleo de Cultura Indígena, que já desenvolvia trabalhos com grupos indígenas. A princípio, Max achou que seria uma boa ideia tentar gravar com os caiapós, mas foi avisado então de que eles não eram muito pacíficos. Depois de ouvirem uma música dos xavantes em um festival em Nova York, foram eles os escolhidos.

“O que o Sepultura fez foi muito inovador, e ninguém mais fez dessa forma. A decisão deles de ir lá, de não samplear, mas construir um trabalho junto foi muito inovadora”, afirma Angela. “E houve um esforço muito grande em tudo. Sentimos resistência da gravadora, foi um processo de quase um ano do contato do Max até a ida à aldeia. E tudo o que aconteceu lá foi muito forte, marcou todo mundo, marcou o pessoal da aldeia, eles lembram e comentam até hoje.”

Arquivo Folha

Max Cavalera: “A gente ficou uns dias [com a tinta] no corpo”

“Kit Sepultura” para os índios

Angela levou um “kit Sepultura” para os xavantes e apresentou a banda à comunidade de 500 habitantes, que aceitou recebê-los. A reação foi de estranheza com o metal pesado, mas sem repulsa. O quarteto embarcou em Goiânia e dois aviões fretados pousaram na região de Camarana, no Mato Grosso, para a missão de três dias.

“Foi um choque cultural para os dois lados. Mas foi tudo muito tranquilo, bom para todas as partes, porque todos deram o coração e se empenharam para fazer daquela uma boa experiência”, relembra Cipassé. “Eles nos falaram que tinham esse sonho, de gravar com os índios e queriam uma música que fosse bonita e forte. Mostramos nossas músicas de cura. Mostramos uma, que ouviram várias vezes e não gostaram. Na segunda, sentiram que podia fazer um arranjo, colocar um ritmo legal e foi assim que gravamos.”

Mais do que gravar uma canção, ir à tribo xavante foi emergir na cultura local. Os músicos do Sepultura –e até a mulher de Max, Gloria– foram pintados, dançaram músicas tradicionais, jogaram futebol, tomaram banho de rio e dividiram a comida com os índios. Carne de anta foi um dos itens do cardápio.

Um Brasil diferente

Em meio a isso foi gravada “Itsári”, que significa raízes, o mesmo que “Roots”. Com um gravador de oito canais e energia elétrica proveniente de baterias de caminhões, os índios fizeram a sua parte, cantando a canção, que tradicionalmente era executada sem instrumentos, e a banda acrescentou sua parte, com os arranjos de violão e percussão. Apesar de os xavantes nunca cantarem da mesma forma, após dois ensaios o “rec” foi apertado e a gravação foi realizada com êxito –apesar de o produtor, Ross Robinson, tomar um tombo quando pulava e corria pelo local, enquanto pedia ainda mais entusiasmo de todos na execução.

“Para mim foi superlegal, em todos os sentidos. Uma experiência dessas muda você como pessoa. Vimos um Brasil diferente, que não estávamos acostumados. Rolou uma conexão entre nós e eles, algo que aconteceu de forma natural”, opina Max, que voltou a Goiânia, após a visita, ainda pintado. “A gente não lavou, ficou uns dias [com a tinta] no corpo (risos). Chegamos lá e o pessoal olhava estranho: ‘Por que esses caras estão pintados?’. Eu adorei. Para mim um dos lances mais legais foi mudar a cara do heavy metal. Mostramos que o metal podia ter mais liberdade do que tinha antes. Hoje você pode ir lá e fazer um som com uma tribo, por causa do ‘Roots’. Antes, não se podia nem imaginar uma coisa dessas.”

Reprodução

Capa do disco “Roots”, do Sepultura

Para Andreas, estar em um ambiente tão diferente do seu habitual foi inusitado. “Estar lá já era viver algo novo. Escutei sons que nunca tinha escutado na cidade. E não conseguia dormir. Não de receio, mas da adrenalina de estar num lugar diferente, conhecendo uma nova cultura. Foi uma experiência maravilhosa, não só como músico, mas como pessoa, em ver outro ritmo de vida, a vida com a natureza. E nós tentamos retribuir. No show de estreia do Derrick [Green, atual vocalista do Sepultura], eles vieram, subiram no palco e tentamos reproduzir aquele momento, pintando os rostos”, relata o guitarrista.

Identidade reforçada

Para o povo xavante, toda a exposição dada pelo Sepultura fez bem à tribo por reforçar sua identidade, mostrar aos outros brasileiros as suas particularidades e o fato de que os índios não são todos iguais. “Foi importante essa contribuição para valorizar a música indígena, divulgar a nossa cultura e sensibilizar outras pessoas a fazerem esse tipo de trabalho, que teve o Sepultura como pioneiro”, diz Cipasse. Angela completa: “Teve uma passagem importante que foi numa premiação da MTV e o público os reconheceu e os chamou. E eles se referiram aos xavantes, e não só os chamaram de índios. Isso teve um grande valor, das pessoas saberem distinguir uma tribo, mostrarem interesse. Até hoje recebo visitas de gente querendo informação, livros e músicas dos xavantes, por causa do Sepultura.”

A passagem pela tribo também teve passagens curiosas e cenas engraçadas. Entre elas, os integrantes de Sepultura jogando futebol com suas botas, diante de índios descalços, e a reação dos mais velhos aos gritos de Max Cavalera quando eles tocaram “Kaiowas” para a tribo. “Os velhos me chamaram e disseram: ‘Fala para esse moço que, se ele treinar bastante, vai ficar bom nos gritos'”, relembra Angela. Cipassé gargalha ao relembrar: “É verdade, ele dava uns berros mesmo, estava gritando mais que o xamã (risos).”

Vinte anos depois, “Itsári” e tudo o que envolve os índios é só um dos legados de “Roots” –até porque é a música menos metal de todo o disco. Com canções como “Roots Bloody Roots” e “Attitude“, o Sepultura atingiu seu ápice da fama e influenciou toda uma nova cena no gênero. Com afinação baixa, som sujo e muito peso, os brasileiros estiveram no meio do furacão que viraria o nu metal. Bandas como Deftones, Slipknot, Limp Bizkit e muitas outras citam até hoje a importância de “Roots”.

Fonte: Bol.com.br

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