Últimas

Heloísa Ramos Lacerda: Chikungunya, uma nova e preocupante epidemia

Último dia de atendimento antes do recesso do final de ano. Regina, 43 anos, advogada, moradora do bairro de Casa Forte, Recife, é a próxima paciente. Entrou andando com grande dificuldade, encurvada, amparada pelo marido. Achei estranho, pois andar naquela posição era, no mínimo, inesperado, pelo menos num consultório de infectologia. Ao perceber o meu espanto, foi logo dizendo: “Doutora, eu não sou assim, é a dor na coluna que me impede de ficar ereta”.

Por que estaria aquela mulher naquele consultório especializado? Infecção na coluna? Perguntei como e quando havia adoecido. Respondeu que começou a ter febre, dor de cabeça e mal-estar três semanas antes. Que esses sintomas cederam oito dias depois, mas que permaneceram dores na coluna e inchaço nas articulações das mãos e pés. Remédios? Já havia tomado dipirona, paracetamol e anti-inflamatórios, praticamente sem melhora. Era urgente saber a causa e, mais do que isso, aliviar os sintomas. Solicitei exames e, considerando a intensidade do quadro e o sofrimento daquela mulher, iniciei o tratamento com corticoide, medicamento raramente empregado nas viroses comuns.

 As síndromes febris agudas são causadas por um grupo numeroso de doenças, mas as características daquele caso e a situação epidemiológica em que vivemos sugeriam fortemente tratar-se de chikungunya, infecção viral transmitida pelo Aedes aegypti, assim como a dengue e a zika. Diferentemente dessas duas últimas, entretanto, a chikungunya tem como características o inchaço e as dores nas articulações que podem durar muito tempo e, inclusive, tornarem-se permanentes, enquanto nas outras duas viroses, as dores e a inflamação nas articulações, quando aparecem, são passageiras.

Originalmente, a palavra chikungunya, de difícil pronúncia, significa “andar encurvado”, manifestação rara em qualquer outra doença infecciosa. Epidemias dessa doença ocorreram inicialmente na África e na Ásia, sendo que na Índia, acometeu mais de meio milhão de pessoas. Chegou aos países do Caribe em 2013. Em Pernambuco, foram registrados os primeiros casos em 2014, inicialmente no Agreste, seguido da Região Metropolitana do Recife. Em 2015, foram notificados 2.650 casos no estado.

 Sua incidência é maior nas regiões pobres, de saneamento precário, onde prolifera o mosquito transmissor, geralmente em lugares com problemas na distribuição de água, armazenada em reservatórios mal vedados. Nas áreas de urbanização desordenada, o problema está no lixo a céu aberto e na presença de objetos que acumulam água, como pneus, vasos de planta, latas e tampas.

A confirmação do diagnóstico por meio de exame laboratorial não é fácil. A reação em cadeia da polimerase, que identifica a presença do vírus no sangue é complexa e onerosa, devendo ser feita na fase aguda. A sorologia, principal exame para diagnóstico, identifica anticorpos contra o vírus, mas só se torna positiva depois do oitavo dia do início da doença. Em Pernambuco, esses exames são realizados no Laboratório Central do Estado – LACEN, da Secretaria Estadual de Saúde, em casos selecionados, e nos laboratórios privados, nos quais são caros e não são cobertos pelos planos de saúde. Há promessa do desenvolvimento de um teste rápido para o diagnóstico, ainda não disponível.

Preocupada com a evolução daquele caso, pensei em Regina várias vezes no final de ano. Como estaria? Ainda incapacitada? Voltou ao consultório em janeiro, andando normalmente e mais feliz. Ainda com dores articulares, mas de menor intensidade e de aparecimento esporádico. Conseguira dar uma caminhada dois dias antes. E os exames? Para a minha surpresa, além da chikungunya, indicavam também infecção aguda pelo vírus da dengue! As duas infecções teriam ocorrido simultaneamente a partir de uma picada de um mosquito duplamente infectado ou haveria reação cruzada, ou seja, a presença de uma doença interferindo no exame laboratorial da outra?  Apavorado com a vulnerabilidade da família, o esposo afirmou já ter agido para erradicar possíveis focos da doença em sua casa e chamado a vigilância epidemiológica. E fez mais, comunicou-se com os vizinhos: ou davam-se as mãos ou pernaneceriam reféns do Aedes aegypti.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *