Mistérios da Império: escola seria campeã sem o 10 que levou por osmose?

É difícil acreditar que um jurado que seja pago só para dar nota “esqueça” de registrá-la para uma escola na papeleta que coloca dentro dos envelopes. Quando dois jurados cometem o mesmo absurdo dá até para desconfiar de alguma coisa. Mas, seja lá qual for a sua teoria da conspiração favorita para o momento, não se pode contestar o mérito do título conquistado pela Império de Casa Verde, que volta a ser campeã depois de uma década de jejum. Todas as ilações sobre a lisura do julgamento do Carnaval, dúvida que, aliás, não vem de hoje, devem sim levar a Liga das Escolas de Samba de São Paulo a uma reflexão, mas não podem manchar o campeonato do “Tigre Guerreiro”.

Ainda que a escola tenha sido agraciada com um 10 por osmose no quesito evolução (pelo regulamento, a nota não dada pelo jurado passa a ser igual à maior nota recebida naquele quesito na avaliação dos outros julgadores) não dá para contestar o fato de que a escola fez um desfile primoroso, um espetáculo que a credenciou a ficar com a taça na disputa direta com Acadêmicos do Tatuapé, Mocidade Alegre, Vai-Vai e Dragões da Real, que brigaram ponto a ponto desde o início da conturbada apuração. Até o final da leitura do quarto quesito (samba-enredo), a Mocidade Alegre era a única escola que só tinha recebido notas 10 de todos os jurados. A Império só assumiu a dianteira após as notas de bateria. Acadêmicos do Tatuapé e Dragões da Real completaram a surpresa da apuração, deixando a Vai-Vai para trás.

Difícil dizer se o resultado seria o mesmo se não fosse esse 10 que caiu do céu. Quem sabe os deuses do samba quiseram que fosse assim até para justificar o enredo campeão da temporada, que falava do império dos mistérios?

Também não adianta buscar na lógica a explicação pelo resultado final. Ou vai dizer que alguém esperava que os quatro jurados de evolução fossem penalizar praticamente todas as escolas? Nunca na história do Carnaval paulista se viu um quesito com tantas perdas de frações nas notas das 14 escolas – e só a Império obteve duas notas 10. Até mesmo escolas que primam pela segurança do chamado “desfile técnico”, feito para agradar os jurados, sofreram com notas baixas nesse quesito. Foi o festival de nota 9 e uns quebrados que fez acender o barril de pólvora que desencadeou brigas, correria, empurrões e até a detenção de um diretor da Vila Maria. Aliás, um espetáculo vergonhoso e desnecessário.

Outro ponto que ajuda a explicar que não se pode confiar naquilo que parece lógico, óbvio ou evidente é a nota de bateria da Mocidade Alegre – item que acabou pesando decisivamente para a vitória da Império. No Anhembi, durante o desfile da “Morada do Samba”, a ousadia da bateria de Mestre Sombra de fazer sete paradonas de 35 segundos levou o público ao delírio. A crítica também aplaudiu. O efeito provocado pela inovação levou todo o Anhembi a cantar o samba da escola só no gogó. Tudo lindo, maravilhoso, inovador… mas os jurados parecem não ter gostado da brincadeira. E a bateria da Mocidade, que em todos os títulos da escola garantiu 30 pontos na soma geral das notas, desta vez foi o ralo por onde escoaram os três décimos de ponto que a deixaram para trás. Enquanto a Império gabaritou no quesito, com três 10 e um 9,9 (descartado), o time de Mestre Sombra levou 9,7 (descartado), 9,8, 9,9 e só um 10.

A vitória da Império, pois, não é uma casualidade, nem obra de um sistema de julgamento imperfeito, quase suspeito e que há tempos reclama por profundas alterações. É preciso reconhecer o valor da comunidade e o excepcional trabalho do carnavalesco Jorge Freitas, que já vinha flertando com o título quando estava na Rosas de Ouro e agora tem sua estreia coroada na nova casa. Conhecido pelo apelido de “Mago”, o carnavalesco foi o responsável pelo que ele próprio chamou de renascimento da Império, que se materializou na avenida na forma de um desfile luxuoso, vigoroso, plasticamente perfeito.

Com fantasias confeccionadas dentro de um padrão de qualidade raro diante da crise econômica que empobreceu a média geral das escolas, e com alegorias que honraram a tradição da Império na produção de carros gigantescos, Jorge Freitas teve ainda o mérito de mexer com o “chão da escola”. Desde que chegou na Casa Verde, insistiu para que a escola e comunidade renovassem os laços de comunhão que pareciam esgarçados pela sofrida década sem título. Desde abril, a quadra da escola foi aberta para ensaios, programados de forma a afastar os componentes paraquedistas, aqueles que só querem comprar a fantasia uma semana antes do desfile para aparecer na TV.

Essa estratégia resultou num desfile com alma, com harmonia, com amor ao pavilhão. A primeira estrofe do samba-enredo traduz esse sentimento. “Vem meu samba desvendar/Meu corpo arrepiar sou caçador de emoções/Trago no peito um sentimento sem mistério/Bate forte coração minha paixão/, te amo… Império”. 

Enfim, um desfile de uma verdadeira escola de samba!

Fonte: Bol.com.br

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