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Outros Carnavais: Salvador vai além do axé com quebradeira e rock em trios

Para quem ainda insiste em não entender que o Carnaval de Salvador é muito mais do que abadás, gente famosa, estrelas do axé, camarotes e violência, a festa em 2016 foi para tirar qualquer dúvida.

Há alguns anos, a folia já vem ganhando outros ares, com o público de Salvador voltando a ocupar os espaços e conquistando as ruas com os trios elétricos sem cordas e este ano foi a consolidação da diversidade.

Se as fórmulas da Axé Music parecem desgastadas, a produção musical independente que circula pelas ruas de Salvador vem ganhando força e já marcam forte presença nos dias de folia. Não por acaso, o BaianaSystem e Igor Kannário levaram multidões por onde passaram. Ao mesmo tempo, os veteranos que sempre focaram mais na música do que no entretenimento continuam como referência e arrastam multidões.

Mesmo ainda enfrentando um descaso da organização e do Conselho do Carnaval, que priorizam os blocos com cordas e empurram parte dos trios independentes e sem cordas para o final do desfile, nomes como Armandinho, Dodô & Osmar, Moraes Moreira e Luiz Caldas mostraram que um repertório caprichado ultrapassa moda e resiste ao tempo. Alguns deles encontraram dificuldades durante seus desfiles, com problema no som dos trios ou atraso não explicados por quem organiza a festa. Assim mesmo, cada um de sua forma levou os clássicos do Carnaval para a rua, de sucessos próprios a releituras de outros compositores e até música pop, de Novos Baianos, Luiz Gonzaga e Caetano Veloso a Chico Science, Santana e Michael Jackson.

Armandinho e Cia chegaram a apostar em versões pagodeiras de algumas de suas músicas, enquanto Luiz Caldas inseriu várias de suas composições mais recentes no repertório, mas eram os sucessos que acertavam em cheio a massa que acompanhava os trios. E, ao contrário do que se pode pensar, esse público não era apenas de saudosistas de outros Carnavais. Apesar de se identificar facilmente muitos cabelos brancos atrás do trio elétrico, uma turma jovem também acompanhava os veteranos artistas. Até crianças, idosos, e uma cadeirante pode ser vista atrás do trio elétrico. E diferente dos blocos, que acabam espremendo o público entre suas cordas e os camarotes, a festa nesses trios sem cordas correu mais uma vez de forma tranquila, como afirmou em uma rádio local o próprio Coronel da Polícia Militar, Anselmo Brandão. “Foi provado que o bloco sem corda reduz bastante a violência. O que causa a violência no bloco com corda é a conquista do espaço, sem espaço o folião se sente oprimido e ocorrem as brigas”, disse.

Reprodução/Facebook/Igor Kannário

Representante da quebradeira, Igor Kannário, o príncipe do gueto, se apresenta no Carnaval de Salvador

Novos ares na música baiana

Se os veteranos pouco apresentaram de novidades musicais, talvez nem precisassem, os novos nomes da música baiana fizeram mais uma vez esse papel. Um dos fenômenos da festa esse ano foi Igor Kannário. Apelidado de Príncipe do Gueto por sua ligação com as comunidades menos abastadas, o cantor repetiu o feito do ano passado e arrastou um número impressionante de foliões pipoca. Para quem não foi, os vídeos que circulam pela internet são de cair o queixo. Acusado de fazer apologia à violência, ele diminuiu o tom, mas mostrou mais uma vez seu pagode quebradeira irresistível. Assim mesmo, dois dias depois não foi bem recebido no bloco de Claudia Leitte, sendo vaiado pelos integrantes do bloco que a cantora puxava. Kannário é o principal nome do novo pagode baiano, chamado de quebradeira, mais pesado e subversivo do que aquele feito por grupos como Harmonia do Samba e É o Tchan.

O grupo BaianaSystem é outro que aos poucos vem se transformando em fenômeno. Se até o ano passado a banda era uma surpresa para muitos, em 2016 o grupo se consolidou como realidade e deu um novo fôlego musical para o Carnaval, não só para um público específico, como era até então, mas conquistando uma massa mais heterogênea. O grupo arrastou multidões por onde passou e fizeram quatro apresentações em seis dias de festa. A aposta em mesclar ritmos jamaicanos, como dancehall, reggae e dub, com ritmos baianos, como o samba reggae e a quebradeira, além de rock, rap e outras referências, tudo com presença de eletrônica e da guitarra baiana, seduziu quem buscava novas sonoridades. Não à toa, a banda passou a ter músicas tocadas até por grandes nomes da Axé Music, como Saulo.

Desfilando pelo segundo ano com seu JazzTrio, a Orkestra Rumpilezz foi outro nome que mostrou que cabem outros carnavais dentro da poluição sonora da festa. Com um trio elétrico mais baixo, quase na altura do chão, e com decibéis controlados, a banda fez duas apresentações marcantes com sua mistura de jazz e música afro-baiana. Com 22 músicos, entre percussões e sopros, desfilou entre trios gigantescos e barulhentos, enfrentou o barulho irresponsável dos sons dos camarotes, mas conseguiu mostrar um outro caminho para o Carnaval baiano. Com o auxílio do cantor Tito Bahiense e sob a liderança do maestro Letieres Leite, a Rumpilezz soube dosar um repertório com músicas próprias e clássicos de Gilberto Gil, Dorival Caymmi, Ilê Aiyê, Lenine, Edu Lobo, entre outros. No sábado, o grupo encerrou a apresentação às 5 horas da manhã, com uma versão de ‘Lucy in the Sky with Diamonds’, dos Beatles, num daqueles momentos inesquecíveis da festa, com o sol nascendo e o público pedindo mais.

O clima de diversidade ganhou ares de rock pesado no circuito da festa quando Carlinhos Brown recebeu as bandas Sepultura e Angra em seu trio elétrico. Cada banda tocava três músicas, que iam de clássicos do rock, do Kiss, Iron Maiden, Van Halen, entre outros, ou composições próprias, com o baiano entrecortando com sucesso de sua autoria. Se inicialmente os roqueiros estranharam o clima e as músicas de carnaval, enquanto o público em geral se incomodava com as guitarras pesadas, não demorou muito para ter travestidos em roda de pogo, ambulante batendo cabeça e garotos com camisa preta requebrando e pulando ao som de samba reggae.

Amanda Oliveira/UOL

Roqueiros curtem a pipoca no Carnaval de Salvador

Pelourinho

Longe do aperto dos trios elétricos, o Carnaval do Pelourinho foi opção para quem procurou uma folia mais tranquilo e boas opções musicais. Da abertura com Paulinho da Viola ao encerramento com a BaianaSystem, o que se viu foi uma sequência de diversidade e de um carnaval ainda mais multicultural. Enquanto fanfarras, bloquinhos, bandinhas de sopro e percussão desfilavam pelas ruas, como acontece na festa em Olinda, por exemplo, bandas de rock, pop, reggae, rap, carnavais antigos e afins se apresentavam pelos palcos montados nas praças do bairro. Isso sem falar de tradicionais blocos afro, como Olodum e Filhos de Gandhy que saíram de suas ruas.

A festa no Pelô promoveu momentos tocantes, como o próprio show de Paulinho da Viola, que tocou seus sucessos para uma praça lotada, entre eles ‘Argumento’, ‘Dança da Solidão’, ‘Pecado Capital’ e ‘Foi um Rio que Passou na Minha Vida’. No final, uma homenagem da Secretaria de Cultura do Estado ao carioca e a vários sambistas baianos (Riachão, Raimundo Sodré, Edil Pacheco, entre outros) com um prêmio pela contribuição deles ao samba, numa festa que comemorava o centenário do ritmo.

Outro momento marcante foi o show de Lazzo Matumbi ao lado de Tote Gira e do grupo Bagunçaço. Criador de clássicos como ‘Me Abraça e me Beija’ e ‘Alegria da Cidade’, ele preferiu apostar em músicas novas, como a emocionante ’14 de maio’, que trata da realidade do povo negro do dia seguinte a Abolição da Escravatura, e a resgatar antigos sambas baianos de compositores como Ederaldo Gentil e de grupos de bairro de Salvador.

Se no Carnaval de Salvador sempre houve espaço para tudo, nos últimos anos, a festa assiste a uma sutil e lenta mudança, que com a crise da Axé Music tem andado mais rapidamente e abre mais espaço para a diversidade e para novidades. Se os blocos enfraqueceram, os trios sem cordas ganharam força, se as estrelas pouco apresentam de novidades, novos artistas mostram a efervescência de uma outra cena local. Tudo isso abre brecha para um futuro que pode voltar a dar a Salvador o “título” de Carnaval mais democrático do Brasil. A diferença é que os “bloquinhos”, sucesso atual nos carnavais de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, na capital baiana são embalados por uma música que não aponta apenas para o passado, mas para uma recriação das misturas que costumavam fazer da música baiana contemporânea e vanguardista.

Fonte: Bol.com.br

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