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Três gigantes e um longo caminho

Os braços de mãe estão estendidos, caminhando junto a passos oscilantes entre o apoio e a esperança. A agricultora Socorro Expedita, 38 anos, atende ao pedido de ajuda do filho e se aproxima devagar. De repente, para. Rodrigo Silva se desprende da barra – e dos medos. Ainda sem jeito, encontra os membros maternos e sorri.

O primeiro trajeto em pé, depois de 12 anos de vida, foi em direção ao abraço. O mundo de Rodrigo é de exceções. O garoto indígena e negro do Sertão pernambucano nasceu também sem os pés e as mãos. É o terceiro desencontro genético de uma família de sete filhos. Rodrigo é igual aos irmãos Josélia, 18, e Joilson, 20. Diferente dos outros, o mundo deles mede a altura do joelho.

Sem diagnóstico definido, a condição física dos irmãos da tribo atikum de Carnaubeira da Penha primeiro chocou a família. Em uma região onde o casamento entre primos faz parte da rotina, mas a deficiência física era até então desconhecida, muita gente recomendou a Socorro fazer a laqueadura de trompas depois do nascimento de Joilson.

A agricultora se recusou, pesava o desejo da maternidade. Em intervalos de filhos, vieram Josélia e Rodrigo. Pessoas cuja vida até a infância esteve limitada às cordas amarradas nas tiras de um chinelo, ideia de um vizinho para permitir aos meninos “andarem”, ainda que de joelhos. No mês, são três pares de sandália para cada. As cordas duram uma semana.

Acessórios cada dia mais dispensáveis na vida dos três índios adolescentes. Os primeiros passos de Rodrigo fazem parte de um programa de treinamento de fisioterapia iniciado por eles há dois meses, na Fundação Altino Ventura (FAV), para aprender a usar as próteses.

Foi preciso ralar muito joelho no chão e perder incontáveis aulas – por ter que ficar em repouso em função dos calos provocados pelas sandálias – para a saúde integral finalmente chegar até os irmãos. Ainda que por meio das mãos de políticos da região, os garotos tiveram acesso a próteses para membros inferiores.

A rotina desde então é ir e vir ao Recife, em semanas intercaladas, para aprender a andar. Oportunidade de ampliar os horizontes de quem estava acostumado a andar de motocicleta, para ir à escola, na aldeia vizinha. Conheceram o aeroporto, a praia e uma nova forma de enxergar. “Tudo fica diferente olhando as coisas de cima. É um mundo novo”, define Joilson, o primeiro a conseguir andar com os equipamentos.

O tratamento completo não tem data para acabar, depende da evolução dos meninos. “Eles chegaram aqui com um encurtamento dos músculos da cadeia anterior (atrás da perna). Pelas flexões de joelho, não conseguiam esticá-las totalmente, mas têm surpreendido. Em 15 dias, Joilson e Josélia deram os primeiros passos”, lembra o fisioterapeuta Rafael Carneiro.

A adaptação inclui andar com as próteses nos terrenos acidentados da aldeia. Os treinos acontecem no Centro Especializado em Reabilitação (CER) “Menina dos Olhos” da Fav e também em casa, onde o pai construiu com madeira barras idênticas às da unidade para os filhos. O sonho dos três, agora, é ganhar também mãos. Para mexer no celular e abraçar com mais firmeza a vida. “Para quem não achava que eles iam andar, já estou é feliz demais”, conclui Socorro.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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