'É triste me ver estereotipada em fantasia de carnaval', diz ativista negra

Luís Barrucho – @luisbarrucho

Da BBC Brasil em Londres

Todos os anos, milhares de foliões curtem o Carnaval por todo o país ostentando as mais diferentes e criativas fantasias.

Mas há uma delas que invariavelmente desagrada a ativista sul-mato-grossense Angela Batista, de 22 anos.

“Pense duas vezes antes de pintar o rosto de preto ou colocar um blackpower”, diz ela. “É depreciativo, é desrespeitoso e é racista”, acrescenta Angela, que não economiza palavras para criticar o que classifica como um “ofensa pessoal”.

Angela, que é professora de português e literatura, ganhou visibilidade nas redes sociais após escrever um artigo em que critica o uso de adereços ou fantasias durante o Carnaval que, em sua opinião, desmerecem a luta do movimento negro. E ela não abre espaço para concessões.

“Não adianta dizer que se trata de uma homenagem. Quem faz blackface ou põe um black power está debochando de todo um povo. Se a escolha foi consciente ou não, não importa. Na dúvida, não me desrespeite”.

A polêmica também ganhou força recentemente após uma foto circular nas redes sociais de um casal de jovens brancos aparece fantasiado de Aladdin e Jasmine, com o filho negro nos ombros vestido de Abu, o macaco de estimação e um dos melhores amigos do personagem.

No ano passado, a BBC Brasil publicou reportagem sobre a reação ao bloco ‘Domésticas de Luxo’, de Juiz de Fora, em Minas Gerais, formado por homens com rostos pintados de preto.

De sua casa em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, ela deu o seguinte depoimento à BBC Brasil.

“Desde pequena, assim como milhões de negros desse país, sempre fui vítima de racismo. São tantos episódios que já perdi as contas. Só quem nasceu negro sabe. Na escola, me chamavam de ‘preta fedida’, ‘carvão’, ‘petróleo’. Certa vez, quando era bem pequena, uma professora perguntou em sala de aula o que gostaríamos de ser quando crescemos. No meu imaginário pueril, respondi: ‘Princesa’. Ela rebateu: ‘Não existe princesa negra’. Passei a alisar meu cabelo.

Eu chorava escondido. Mas hoje não choro mais. Me assumo do jeito que eu sou. E decidi militar ativamente no movimento negro. Durante as minhas aulas, tento empoderar e politizar meus alunos o máximo possível. E por isso não consigo entender o que passa na cabeça de algumas pessoas que teimam em colocar um ‘black power’ ou pintar o rosto de preto (blackface) durante o Carnaval. É depreciativo, é desrespeitoso e é racista. E não se trata de uma homenagem, mas uma ofensa, a mim e a milhões de negros que lutam diariamente para combater o preconceito nesse país ainda tão cindido.

Não sou contra o Carnaval. E entendo que por trás de muitas fantasias exista uma crítica, política ou social. Mas não cabe aos brancos determinar o limite do que é tolerável ou não. Se eu ou algum negro levantamos esse questionamento, é porque algo ali nos incomoda. E não se trata de autovitimização. Estão sequestrando o nosso protagonismo. Em outras palavras, se sou quem sofre o preconceito, não deveria ter voz sobre o que considero um ato de racismo? Devemos escutar o ofensor em vez do ofendido?

O blackface, por exemplo, era uma prática teatral em que atores pintavam o rosto de preto para representar os africanos de forma exagerada, reforçando estereótipos. Já o blackpower é para mim um ato de resistência. É a forma como eu assumo as minhas características diante da sociedade. Considero a suposta “brincadeira” nos dois casos como de extremo mau gosto. É triste se ver estereotipado como uma alegoria de Carnaval. Isso diminui a nossa luta.

Decidi escrever um desabafo no meu Facebook depois de um colega de trabalho me enviar uma mensagem em que me perguntava se eu ficaria incomodada se ele saísse fantasiado ‘de Angela’ no Carnaval. Em suas palavras: com o rosto pintado de preto, black power e tatuagem. Achei estranho e ofensivo. Não quero ser retratada de forma debochada. Eu sou um ser humano e mereço ser tratada como tal.

Infelizmente, o Brasil é um país ainda muito racista. E a sociedade parece não estar aberta à discussão. É mais fácil querer desqualificar meu argumento, ora me tachando de vitimista, ora de xiita.

Por isso, eu convido todos à autorreflexão. Todo mundo quer curtir o Carnaval, mas será que não vale a pena pensar um pouco antes de sair com uma fantasia que possa ofender alguém?”

Fonte: Bol.com.br

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