Alessandra Nilo: A vontade que dá de salvar um partido

Ando naquela fossa política, modelo “coração partido” – e muitos estão como eu.

Triste com o fato que tantos partidos, nascidos de forma legítima e cidadã, que representavam ideais republicanos, sejam comandados por interesses espúrios, carcomidos por artimanhas privadas, com dirigentes embriagados pelo desejo de poder e continuidade.  

Olho para o Brasil ou para Pernambuco, ou apenas para a cidade do Recife e não encontro mais os grandes líderes do passado. Mesmo os que ajudaram a reconstruir nossas instâncias democráticas estão corrompidos, são incapazes de fazer mea culpa e somente conseguem acusar o “sistema” de corrupção. E é bom ter um sistema ao qual acusar porque, afinal, o problema não são eles, são sempre os “outros”.  Os outros que vieram primeiro, que roubaram primeiro, os outros que montaram tal engrenagem. Não se chega à máquina pública sem se lambuzar. Essa é a máxima aceita e repetida pela sociedade em seus ‘pequenos’ e cotidianos atos de corrupção.

Quando a corrupção é aceitável – inclusive para batedores de panela – fica fácil compreender porquê, para ser eleito, vale vender a própria mãe e é normal gastar centenas de vezes mais o valor a receber com o salário a ser acumulado no exercício do cargo nos próximos quatro anos de mandato. Sim, este sistema está podre. Mas o “sistema político” não autoriza que pessoas eleitas para cuidar dos bens públicos usem o que não é delas, seja em benefício próprio ou de suas causas. Não, a responsabilidade não é dos outros e tanta dissimulação medíocre apenas causa náusea a cidadãos atentos. Nossa experiência com a política é tão perversa, que poucos de nós acreditam ser possível mudar a forma de fazer política. Mas muitos creem que, inexoravelmente, seremos corrompidos ao assumir um cargo de gestão, que é natural nos apropriarmos dos bens públicos. A única solução possível seria, então, mudar este sistema corruptor político.

Mas acreditar que mudar o sistema apenas vai bastar, é alienar-se. Temos que também mudar os políticos, renovar esses líderes de causa própria. Eu defendo e continuarei trabalhando pela reforma política, pois está evidente que o modelo atual é de absoluta falácia democrática, já que participação, acesso e direitos são garantidos e usufruídos por pequenos grupos privilegiados. Ao resto – à maioria – sobram as migalhas.  O fato é que reformar o sistema sem transformar essa nossa complexa cultura política, não será suficiente.

Então não adianta odiar partidos, o problema real são suas  lideranças, que viraram simulacros. Tentar resgatá-los é pura ilusão, pois estão por demais apaixonados por seus próprios umbigos.  Pouquíssimos políticos hoje se dedicam a cuidar das pessoas e os que o fazem, além de raros, não são os que controlam as suas legendas. Por isso, enquanto a política com “p” minúsculo prevalece, ao invés de tentar novas roupagens para velhos líderes, talvez seja melhor tentar salvar alguns partidos cujo bons programas, poucas pessoas ainda lembram de consultar.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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