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Aniversário do Recife e Olinda: as cidades pelo olhar dos estudantes

As cidades-irmãs fazem aniversário neste sábado. Montagem: Arquivo DP.
As cidades-irmãs fazem aniversário neste sábado. Montagem: Arquivo DP.

As cidades irmãs Recife e Olinda chegam neste sábado ao 479º e 481º aniversário, respectivamente, e, mesmo com a bagagem de histórias seculares, se veem diante de vários desafios. Um Recife mais verde, com menos trânsito e mais inclusão social é idealizado por adolescentes que estudam na capital pernambucana. Para Olinda, estudantes imaginam uma cidade mais igualitária e que preserve melhor seus patrimônios materiais e imateriais.  

Em homenagem às aniversariantes, o Diario conta histórias de quatro personagens que simbolizam o futuro das cidades. Estudantes das redes pública e privada da capital pernambucana e da cidade Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco foram ouvidos sobre o que querem para o local onde vivem nos próximos anos e o que eles mesmos estão fazendo para a construção desse futuro.  
 

As cidades-irmãs fazem aniversário neste sábado. Montagem: Arquivo DP.
As cidades-irmãs fazem aniversário neste sábado. Montagem: Arquivo DP.

Cuidando das barreiras
Adryel Lopes, 13 anos, mora em uma casa de 50 metros quadrados sem reboco fincada no topo de uma barreira do Alto Nossa Senhora de Fátima, Vasco da Gama, Zona Norte do Recife. Quando ele tinha 2 anos, a terra que segura a casa deslizou. O adolescente não lembra do dia, mas sabe contar o fato como se recordasse. Adryel reproduz a história contada pela mãe para alertar outros moradores do alto sobre as formas de tornar mais seguras as áreas de risco da cidade. O estudante da Escola Municipal Octávio Meira Lins é um multiplicador de informações da Defesa Civil do Recife no bairro.   

Faz parte da rotina do menino passar nas casas dos moradores do Vasco da Gama informando sobre como se proteger de deslizamentos de terra nas áreas de morro. Quando falta lona nas encostas, ele mesmo desce até a Avenida Norte e cobra a instalação do plástico. “Queria que as barreiras fossem protegidas e que as pessoas tivessem consciência sobre o perigo de jogar lixo no morro”, diz.

Para que os altos do Recife sejam esse lugar que ele sonha, Adryel criou, com dois colegas de turma – Mickaela Araújo, 13, e Bruno Galvão, 14 – o projeto Estratégias para o enfrentamento de risco de queda de barreiras no Alto Nossa Senhora de Fátima; orientado pela professora de geografia Ana Paula Freire. Cento e vinte questionários foram aplicados no bairro. Os estudantes queriam saber se os moradores do alto conheciam os riscos de viver em barreiras. Descobriram que 35% deles nunca receberam orientação técnica sobre como se proteger de deslizamentos. “Espero que não existam riscos para quem vive no morro e que os moradores ajudem a construir um lugar melhor”, afirma. Enquanto isso, o menino segue fazendo o que pode para esse futuro acontecer.  

O Recife ideal
As ruas do Recife idealizado pelo estudante Roberto Trajano, 16 anos, são dominadas por bicicletas. Nessa cidade que ele sonha, as pessoas preferem se deslocar a pé e usam o carro apenas para trajetos longos. O adolescente acha que esse futuro ainda está distante, mas que pode ser construído. Depois de ter adotado a bicicleta com opção de deslocamento, estimulou o pai a também usar a bike. “Ele começou só me acompanhando, mas depois tomou gosto e, agora, tem a própria bicicleta”, conta. No Colégio Fazer Crescer, onde estuda, o adolescente é conhecido por ser defensor do veículo não-motorizado.

Roberto ainda está no segundo ano do ensino médio, mas já sabe o que quer cursar no ensino superior. “Vou estudar arquitetura e urbanismo para tornar a cidade mais humanizada. Um dia acordei e me desafiei a tentar mudar o Recife. Quero que seja uma cidade onde as pessoas possam caminhar tranquilamente”, diz, com firmeza.   

A falta de respeito aos ciclistas e a ausência de cuidados com as calçadas assustam o estudante. No bairro do Rosarinho, Zona Norte do Recife, ele “fiscaliza” os passeios públicos e tenta solucionar como pode os problemas de mobilidade. “Por enquanto sei que não posso fazer muito, mas estimulo quem conheço a usar da bicicleta, ligo para a prefeitura quando vejo calçadas obstruídas, lixo acumulado nas ruas. Agora, quando eu for arquiteto, vou fazer muito mais pela cidade”, promete.     
 

Frevo preservado
“Perto do céu”, o som da corneta de Valdomiro Barbosa, 11 anos, emociona quem escuta o menino tocar. O estudante do 5º ano (antiga 4ª série) da Escola Municipal Alto do Sol Nascente, no bairro homônimo, diz que mora próximo ao céu por causa da característica geográfica do local. Longe das ladeiras de Olinda – principal símbolo da cidade – cabe a Valdomiro fazer o patrimônio imaterial da cidade ser conhecido pelos moradores do alto, localizado a 9 km do Sítio Histórico. Por meio de um projeto de preservação patrimonial da escola, Valdomiro ensina familiares e vizinhos sobre frevo, arquitetura colonial e culinária regional.   

Dos 390 mil habitantes de Olinda, 2,3 mil moram no Alto do Sol Nascente; bairro de difícil acesso e sem ruas pavimentadas da cidade. Alguns não conhecem a história e sequer ouviram falar sobre bens imateriais de Olinda. “Gosto muito de frevo porque é muito divertido, mas (o ritmo) também tem uma história”, ressalta o menino. E é essa história que ele busca preservar e divulgar no bairro por meio da banda de fanfarra da escola municipal.

Mãe de Valdomiro, a operadora de telemarketing Silvaneide Silva, 33, não esconde o orgulho do pequeno embaixador da cultura olindense no bairro. “Na minha época, não tive aula de educação patrimonial, como ele tem. Ele sabe o que é civismo e patrimônio imaterial. Conhece a história e as igrejas da cidade. Quando chega em casa, sempre conta sobre as atividades e eu acabo aprendendo também”, diz a mãe.  

Por uma Olinda mais solidária
Todo sábado, Juliana Melo, 18, percorre as ruas do bairro de Rio Doce, em Olinda, pedindo alimentos de casa em casa. A estudante do Colégio Dom, escola privada localizada no bairro de Casa Caiada, não precisa dos donativos. Ela faz as caminhadas em busca de doações para quem realmente necessita. Visitar hospitais, frequentar abrigos de crianças e de idosos para conversar e organizar feiras de saúde com serviços gratuitos à comunidade também são ações que fazem parte da rotina da adolescente.

Juliana é líder desbravadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Rio Doce e comanda um grupo de oito meninas, com idades entre 10 e 15 anos, na realização de ações sociais. Entre as indicações religiosas para o sábado estão ler a palavra divina e ir à igreja, mas a adolescente prefere, com seu grupo, também trabalhar em favor do próximo no dia a ser guardado.

As motivações da adolescente ultrapassam a questão espiritual. Ajudar na construção de uma cidade melhor também faz parte dos objetivos da estudante. “A cidade precisa melhorar muito e percebo que falta uma preocupação com o outro. Às vezes, bato em portas para pedir alimentos e roupas, mas muitos dão pouca importância. Espero que no futuro as pessoas se importem mais uma com as outras. Nós mesmo, enquanto cidadãos, podemos fazer muito pela cidade sem necessariamente esperar que façam em nosso lugar”, afirma.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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